O contraste não poderia ser mais gritante no futebol brasileiro atual. Enquanto o Grêmio amarga uma sequência de sete jogos sem vitória no Campeonato Brasileiro, estendendo sua crise técnica desde o final de março, outros clubes como Bahia e Fortaleza construem invencibilidades sólidas que os mantêm na parte superior da tabela. O empate sem gols contra o Remo pela 10ª rodada apenas confirmou o momento delicado do tricolor gaúcho, que não consegue repetir o desempenho dos tempos áureos de Renato Portaluppi.

A matemática cruel dos números gaúchos

Desde a vitória por 2 a 1 sobre o Juventude em 28 de março, o Grêmio acumulou cinco empates e duas derrotas no Brasileirão. Para efeito de comparação, essa mesma sequência negativa lembra os piores momentos do clube na década de 1990, quando chegou a ficar 11 jogos sem vencer entre agosto e outubro de 1991. Naquela ocasião, o time comandado por Valdir Espinosa sofria com problemas financeiros similares aos atuais, mas conseguiu se recuperar com mudanças estruturais no elenco.

O técnico interino que assumiu após a saída de Renato Gaúcho enfrenta números que assombram: aproveitamento de apenas 23% nos últimos sete confrontos, com quatro gols marcados e seis sofridos. Esses números contrastam brutalmente com o período entre 2016 e 2018, quando o Grêmio mantinha médias superiores a 60% de aproveitamento sob o comando do mesmo Renato Portaluppi.

Invencibilidades que desafiam a lógica tradicional

Do outro lado do espectro, equipes como o Bahia demonstram que consistência não é privilégio exclusivo dos chamados grandes clubes. O tricolor baiano mantém uma invencibilidade de 12 jogos que pode se estender até 20 confrontos caso mantenha o ritmo atual, segundo projeções estatísticas. Mesmo com a derrota por 2 a 1 para o Palmeiras em Salvador, onde houve polêmica arbitral com expulsões controversas, o time nordestino sustenta um projeto que lembra as grandes campanhas históricas.

Essa regularidade do Bahia ecoa os tempos de 1988, quando o clube conquistou seu único título brasileiro mantendo uma invencibilidade de 15 jogos entre maio e agosto daquele ano. O elenco atual, embora com investimentos menores que os gigantes do futebol nacional, replica a mentalidade competitiva daquela geração liderada por Charles e Bobô.

Projetos estruturais versus gestões de crise

A diferença entre os clubes que prosperam e os que patinam reside fundamentalmente no planejamento a longo prazo. O Fortaleza, outro exemplo de consistência regional, construiu nas últimas cinco temporadas um modelo de gestão que priorizou a manutenção de um núcleo técnico estável. Entre 2019 e 2024, o clube cearense teve apenas três mudanças de comando técnico, contrastando com os 12 treinadores que passaram pelo Grêmio no mesmo período.

Estatisticamente, times que mantêm estabilidade no comando técnico apresentam aproveitamento 18% superior àqueles com mudanças frequentes, segundo dados da CBF compilados entre 2015 e 2023. O Grêmio atual ilustra perfeitamente essa equação: a cada troca de treinador, o tempo de adaptação tática resulta em pelo menos três jogos de rendimento inferior, padrão observado nas últimas quatro mudanças de comando.

"A continuidade do trabalho é fundamental para qualquer projeto vitorioso no futebol brasileiro", conforme declarações recentes de dirigentes que acompanham as oscilações dos clubes da Série A.

Lições históricas para tempos modernos

A história do futebol brasileiro oferece paralelos esclarecedores para o momento atual. Nos anos 1980, clubes como Guarani e Bangu conseguiram rivalizar com os grandes centros através de planejamento criterioso e aproveitamento máximo de recursos limitados. O Guarani de 1978, que conquistou o Brasileirão, manteve uma invencibilidade de 23 jogos que durou de abril a setembro, demonstrando que a consistência supera investimentos pontuais mal planejados.

Essa lógica se repete no cenário contemporâneo, onde clubes nordestinos e do interior paulista aplicam modelos de gestão que privilegiam a estabilidade sobre contratações midiáticas. O Grêmio de 2024, paradoxalmente, possui um dos cinco maiores orçamentos do país, mas falha na aplicação eficiente desses recursos, repetindo erros organizacionais que custaram títulos em 2019 e 2021.

O próximo desafio do Grêmio será contra o Internacional no Gre-Nal de domingo, 19 de maio, quando terá a oportunidade de quebrar a sequência negativa diante de 45 mil torcedores na Arena do Grêmio, em confronto que historicamente define mudanças de rumo na temporada gaúcha.