Confesso: eu errei sobre Griezmann em 2023. Escrevi aqui que ele havia atingido o teto funcional dentro do sistema de Simeone, que a queda de produção era estrutural, e que o Atlético deveria acelerar a renovação do elenco sem depender do francês. O que vejo agora, às vésperas da volta da semifinal contra o Arsenal no Emirates Stadium, é um jogador que encontrou uma versão de si mesmo que eu não antecipei.

O que aconteceu, exatamente

Em coletiva de imprensa realizada na véspera do duelo desta terça-feira, 5 de maio, Antoine Griezmann declarou com clareza o que representa esse momento.

"Sempre fui claro: minha ideia era ficar aqui porque acreditava que poderíamos fazer algo incrível. Agora falta um passo. Tenho confiança absoluta", afirmou o atacante, que deixa o clube ao fim desta temporada 2025/2026 para defender o Orlando City a partir de julho.

O jogo de ida, no Metropolitano, terminou em 1 a 1 — resultado que mantém o confronto completamente aberto. O Atlético precisa, no mínimo, não perder em Londres para avançar, ou vencer para ir diretamente à final.

O que aconteceu, exatamente Griezmann quer a Champions como última d
O que aconteceu, exatamente Griezmann quer a Champions como última d

Quem está envolvido

Griezmann completará 35 anos em março de 2026. Está no Atlético de Madrid desde 2014 — com o intermezzo de dois anos no Barcelona entre 2019 e 2021. São 11 temporadas de vínculo com o clube do Cholo, duas finais de Champions League perdidas (2016 contra o Real Madrid e 2016 contra o Benfica, ambas nos pênaltis) e um perfil que ele mesmo reconhece ter mudado.

"Antes eu jogava com muito estresse, não sabia quando parar e quando fazer a pausa. Agora tenho mais calma, estou mais completo", disse o atacante em coletiva.

Quem está envolvido Griezmann quer a Champions como última d
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Do lado inglês, o Arsenal de Arteta chega ao Emirates invicto em casa na Champions nesta edição, com linha de pressão alta e transição ofensiva rápida — sistema que depende de recuperação de bola no campo adversário para acionar Saka e Martinelli nas pontas. A análise do SportNavo mostra que o Atlético cedeu, em média, apenas 31% de posse nos jogos eliminatórios desta edição da Champions, o que torna o duelo um choque direto de filosofias.

Simeone, por sua vez, deverá escalar o Atlético em bloco médio-baixo, com compactação entre as linhas de 4-4-2 e Griezmann atuando como pivô de ligação entre o meio e o ataque — função que o francês já desempenhou com êxito no empate em Madri.

Quando isso muda o jogo

A comparação histórica que me parece mais precisa não é com as finais perdidas de 2016 — é com o Juventus de Del Piero em 2003. Alessandro Del Piero chegou à final da Champions daquele ano com 29 anos, após anos de lesões e questionamentos sobre sua relevância no esquema de Lippi. Marcou na semifinal contra o Real Madrid, foi titular na decisão contra o Milan em Milão, e mesmo com a derrota nos pênaltis saiu como figura central daquele ciclo. Del Piero nunca ganhou a Champions. Griezmann tem a chance de escrever um desfecho diferente — e com a vantagem de jogar num sistema que protege o atacante mais do que o expõe.

Taticamente, o ponto de inflexão será o comportamento do Atlético nas transições defensivas após perda de bola no campo ofensivo. O Arsenal de Arteta pressionou o Atlético a 58 passes por posse no jogo de ida — dado que forçou erros na saída de bola do time espanhol em pelo menos três ocasiões. Se Simeone ajustar a linha de pressão para um bloco mais recuado no Emirates, Griezmann precisará trabalhar com menos espaço e mais eficiência nas combinações com De Paul e Llorente.

Por que agora

O timing dessa despedida não é acidental. Griezmann declarou que pensa exclusivamente no que o treinador lhe pede, sem antecipar cenários.

"Penso no jogo de amanhã e no que o treinador me pede. Não fico antecipando, quero estar fresco, com pernas para jogar. Estou com muita vontade. A Champions sempre é bonita, queria jogá-la desde criança"
, afirmou o francês.

Essa declaração tem peso tático além do emocional. Um jogador que opera sem a ansiedade de resultados pessoais tende a tomar decisões mais rápidas no terço final — exatamente o que o sistema de Simeone exige de seu centroavante funcional. A maturidade descrita pelo próprio Griezmann se traduz em dados: nos últimos oito jogos da Champions nesta temporada, ele registrou 2,3 chances criadas por partida e taxa de acerto de passe de 87% — números acima da sua média histórica na competição.

A partida de volta acontece nesta terça-feira, 5 de maio, no Emirates Stadium, às 16h (horário de Brasília). O vencedor do confronto enfrenta o Bayern de Munique ou o Inter de Milão na final — e Griezmann sabe que essa pode ser literalmente a última oportunidade de conquistar o único troféu que falta em sua carreira europeia. É o mesmo cenário que Del Piero viveu em 2003 — só que agora a aposta é diferente, porque o Atlético de Simeone nunca precisou tanto de um jogador que aprendeu, tardiamente, a jogar com calma.