— Cara, você viu aquela lata do Guaraná com a camisa de 70?
— Vi. Comprei duas. Uma pra beber e uma pra guardar.
— Exatamente o que eles queriam que você fizesse.
Esse diálogo aconteceu em bares de Salvador a São Paulo nas últimas semanas, e resume com precisão o mecanismo central da campanha que a Seleção Brasileira ajuda a vender sem entrar em campo. A Guaraná Antarctica, parceira oficial da CBF há mais de 25 anos, lançou a campanha "Sede de Torcer é Coisa Nossa" com três frentes simultâneas: latas colecionáveis de Guaraná Antarctica Zero inspiradas nas camisas dos cinco títulos mundiais (1958, 1962, 1970, 1994 e 2002), uma exposição física no Rio de Janeiro e um episódio especial no podcast Podpah com lendas de cada geração campeã.
Cinco títulos, cinco latas e uma estratégia visual calculada
O design das latas foi desenvolvido pela agência CPB com assinatura da FutureBrands. A escolha de estampar os uniformes históricos na versão Zero — e não na lata verde tradicional — não foi acidental. A Ambev manteve a identidade visual clássica do produto regular intacta e transformou a linha sem açúcar em objeto de desejo colecionável, criando dois públicos distintos: o consumidor habitual e o colecionador afetivo. Guilherme Poyares, diretor de marketing de Guaraná Antarctica, foi direto ao ponto:
"Queremos transformar o refrigerante que é símbolo nacional em plataforma de expressão cultural, criando novas formas de consumo que acompanham o ritmo e as preferências da torcida."
A lógica funciona porque o Brasil carrega uma relação com as camisas da Seleção que não tem equivalente fácil no mundo. O que para o argentino é o escudo da AFA gravado na pele, para o português é o símbolo do Benfica herdado do avô — no Brasil, é a camisa amarela de 1970, o uniforme que Pelé, Tostão e Rivellino usaram no México. Ela não representa apenas um título: representa uma identidade coletiva que transcende gerações.
O Museu das Camisas Campeãs no Pão de Açúcar e o podcast que reuniu cinco gerações
A ativação física aconteceu no Espaço Maria Ercília, no Morro da Urca, dentro do Parque Bondinho Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. A exposição "Museu das Camisas Campeãs" ficou aberta ao público até o dia 10 de maio, das 9h às 21h, com entrada incluída no ingresso do parque. Réplicas das cinco camisas campeãs foram exibidas com narrações exclusivas de Fernanda Gentil, recém-nomeada Head Criativa de Esportes e Entretenimento da marca por dois anos. A escolha do Pão de Açúcar — cartão-postal do Rio e ponto turístico com fluxo internacional — amplia o alcance da ação para além do torcedor brasileiro.
Na frente digital, a gravação no estúdio do Podpah, em São Paulo, no dia 15 de maio, reuniu Taffarel e Cafu (representando 1994 e 2002), Rivellino (1970) e a dupla Pepe e Mengálvio (1958 e 1962). O encontro foi concebido pela agência Snack, responsável pelo pilar de produção de conteúdo em redes sociais da marca. Poyares explicou a escolha do veículo:
"Nossa parceria com o Podpah é o que nos permite levar esse conteúdo histórico ao público jovem e digital, fazendo essas histórias seguirem vivas no feed e impulsionando a torcida pelo hexa."
Pepe, aos 88 anos, e Mengálvio, aos 87, raramente aparecem juntos em ações publicitárias. A presença dos dois bicampeões de 1958 e 1962 ao lado de Cafu — capitão do último título, em 2002 — cria uma linha temporal de 44 anos de conquistas comprimida em um único episódio de podcast. Do ponto de vista de conteúdo, segundo análise do SportNavo, é o ativo mais valioso da campanha: nenhum concorrente tem acesso a esse patrimônio humano.
Nostalgia como ferramenta comercial tem limites que a Guaraná ainda não testou
A leitura dominante sobre essa campanha é positiva: marca consolidada, patrimônio afetivo real, execução integrada entre produto, espaço físico e conteúdo digital. Mas existe uma contra-leitura que merece atenção. Toda a narrativa da campanha ancora-se nos títulos de 1958 a 2002 — ou seja, em conquistas que têm entre 24 e 68 anos. O Brasil não vence uma Copa do Mundo há mais tempo do que qualquer torcedor com menos de 25 anos viveu consciente. A "sede de torcer" que a marca celebra é, objetivamente, uma sede não saciada há quase um quarto de século.
A campanha transforma essa seca em combustível emocional — "quanto maior é a seca de títulos, maior é a nossa sede de vencer", disse Poyares — mas há um risco calculado nessa aposta. Se o Brasil for eliminado nas fases iniciais da Copa do Mundo de 2026, que começa em junho, a memória afetiva das latas colecionáveis pode se converter em ironia involuntária. A Coca-Cola, principal concorrente no segmento de patrocínios esportivos globais, costuma apostar em narrativas do presente — jogadores ativos, momentos em tempo real — justamente para evitar esse tipo de exposição retroativa.
A síntese honesta é esta: a Guaraná Antarctica construiu a campanha de Copa mais completa que já produziu, com peças integradas que funcionam individualmente e em conjunto. As latas colecionáveis têm apelo de produto; a exposição no Pão de Açúcar gera cobertura de mídia espontânea; o podcast com cinco lendas entrega alcance digital com credibilidade histórica. A eficácia total da estratégia, no entanto, depende de uma variável que nenhum diretor de marketing controla: o desempenho da Seleção Brasileira em campo, a partir de junho, nos Estados Unidos, México e Canadá.









