A guerra jurídica que envolve o Botafogo transformou-se numa teia complexa de disputas que movimenta R$ 152 milhões em dívidas e coloca em xeque o controle da SAF alvinegra. O que começou como uma operação financeira em 2022 evoluiu para um emaranhado de ações judiciais que expõe os bastidores das negociações bilionárias no futebol brasileiro.
A cronologia dos conflitos revela que John Textor, ao adquirir 90% das ações da SAF do Botafogo por R$ 400 milhões em 2022, utilizou essas mesmas ações como garantia para um empréstimo de US$ 425 milhões (R$ 2,3 bilhões) destinado à compra do Lyon. Essa operação transferiu formalmente o controle acionário para a Eagle Bidco, embora Textor tenha permanecido na presidência do Conselho de Administração.
Primeiro sinal de ruptura em 2024
Os primeiros conflitos públicos emergiram em abril de 2024, quando os demais acionistas da Eagle Bidco decidiram que Christopher Mallon, advogado escocês, assumiria a direção da empresa. A medida foi justificada por "equívocos na administração" de Textor, especialmente relacionados aos problemas financeiros do Lyon.
Segundo apuração do SportNavo, a partir de junho de 2024, qualquer decisão societária passou a exigir anuência de Mallon. No entanto, Textor continuou tomando decisões unilaterais, como a cessão de créditos do Botafogo para uma empresa nas Ilhas Cayman no valor de 150 milhões de euros (R$ 956 milhões), aprovada em Assembleia Geral Extraordinária em 17 de julho.
Escalada judicial em 2025
A Eagle Football formalizou sua ofensiva jurídica na 2ª Vara Empresarial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, alegando que Textor cometeu "diversas medidas ilícitas" no comando do Botafogo. O processo argumenta que o americano violou acordos societários ao realizar operações sem autorização.
"Se não se impuserem freios, o Sr. Textor continuará a causar irreparáveis danos à Eagle Bidco e ao Botafogo, sobretudo, por meio da iminente diluição da participação da Eagle Bidco no Botafogo", afirmou a empresa em petição judicial.
Em resposta, o Botafogo entrou com recurso na mesma vara para impedir a suspensão de Textor, alegando que o americano possui total direito de tomar decisões à frente da empresa. A SAF alvinegra também contestou a existência do empréstimo de R$ 152 milhões que a Eagle afirma ser devido.
Decisão judicial favorável a Textor
O juiz Victor Agustin Cunha Jaccoud Diz Torres, da 3ª Vara Empresarial, deferiu em janeiro o arresto cautelar das ações da Eagle na SAF, congelando qualquer mudança no controle do clube e obrigando a rede multiclubes a pagar R$ 152.550.770,56 ao Botafogo. A decisão mantém Textor no comando e impede que terceiros ingressem no quadro social.
Paralelamente, o Instituto Abradecont entrou com ação civil pública pedindo a suspensão do contrato que cedeu 90% das ações como garantia, alegando violação da Lei da SAF e riscos aos direitos de torcedores e trabalhadores. A entidade questiona empréstimos com juros de até 20% junto à Ares Capital.
A Eagle agora busca derrubar a liminar que mantém Textor no poder, argumentando que a disputa deve tramitar integralmente na arbitragem da Fundação Getúlio Vargas. Christopher Mallon, diretor independente da Eagle, nega categoricamente a existência do empréstimo de R$ 152 milhões e responsabiliza Textor pela crise financeira do grupo. O próximo capítulo desta batalha judicial promete definir não apenas o controle do Botafogo, mas estabelecer precedentes para operações financeiras no futebol brasileiro.












