17 de outubro de 2024. Nessa data, o Arsenal enfrentava o Liverpool em Anfield com Kai Havertz como referência ofensiva — e o alemão entregou exatamente o que Arteta precisava: mobilidade, pressão no build-up adversário e uma finalização que passou raspando. A cena resume bem o que ele é: um atacante do presente que parece ter sido desenhado para um futebol específico. E aí vem o problema.

Porque quando você coloca Benjamin Šeško na mesma conversa — 1,95 m, 23 anos, agora no Manchester United — a pergunta muda de natureza. Não é mais só quem está melhor agora. É quem pertence a qual era do futebol, e o que isso diz sobre o valor de cada um hoje.

Dimensão Kai Havertz Benjamin Šeško
Idade 27 anos 23 anos
Clube Arsenal Manchester United
Jogos (2025/26) 37 30
Gols (2025/26) 13 11
Assistências (2025/26) 7 1
Valor de mercado €55 milhões €65 milhões

Em qual era do futebol cada um se encaixaria melhor

Havertz é um produto refinado do futebol de pressing e transição que dominou a Europa entre 2015 e o presente. Ele não é um centroavante puro — é o que os analistas chamam de false nine funcional: ocupa o espaço entre linhas, participa do build-up, gera xA (expected assists) ao mover defensores fora de posição. Suas 7 assistências em 37 jogos na temporada atual não são acidente — são o reflexo de um jogador que entende o jogo coletivo de forma quase instintiva.

Para contextualizar: um atacante com 13 gols e 7 assistências em uma temporada de Premier League está contribuindo diretamente para quase 20 gols do time. Isso é participação em gol a cada 1,85 jogo. Em termos de xG + xA combinados, esse perfil de atacante-criador é exatamente o que sistemas de pressing alto como o do Arsenal demandam — alguém que pressiona a saída de bola adversária e ainda finaliza quando o espaço aparece.

Šeško é outra coisa. Os 1,95 m não são só estética — eles definem uma função. Ele é um centroavante de área com capacidade atlética excepcional: velocidade para profundidade, físico para segurar a bola de costas, e uma taxa de conversão que o RB Leipzig já havia identificado antes do United. Suas 11 gols em 30 jogos com apenas 1 assistência dizem tudo: ele não cria, ele finaliza. O volume de progressive passes recebidos por ele deve ser alto, mas o retorno em criação coletiva é mínimo… e isso é intencional.

Quem nasceu no tempo certo

Havertz nasceu no tempo exato. O futebol de 2026 é o futebol dele — sistemas que exigem atacantes que pressionam, que participam da fase de construção, que geram PPDA baixo (passes permitidos por ação defensiva) para o adversário ao forçar erros no terço defensivo. No Arsenal de Arteta, ele é peça estrutural, não decorativa.

A diferença de assistências entre os dois — 7 a 1 — é o dado mais revelador desta comparação. Não porque assistência seja mais importante que gol, mas porque ela indica o grau de envolvimento no jogo coletivo. Havertz aparece em situações de criação. Šeško, não.

  • Havertz: 13 gols + 7 assistências = 20 participações diretas em 37 jogos
  • Šeško: 11 gols + 1 assistência = 12 participações diretas em 30 jogos
  • Taxa de participação por jogo: Havertz (0,54) vs Šeško (0,40)

Agora, o contraponto honesto: Šeško tem 23 anos e €65 milhões de valor de mercado. Havertz tem 27 e €55 milhões. O esloveno ainda está em fase de desenvolvimento — e se o United encontrar um sistema que maximize seus defensive actions e o coloque em situações de finalização com mais frequência, o teto dele é assustador.

Kai Havertz (Arsenal)
Kai Havertz (Arsenal)

Quem teria sido lenda em outra década

Coloque Šeško no futebol dos anos 2000 — na era dos target men, dos cruzamentos na área, dos centroavantes que viviam para cabecear e proteger a bola — e você tem um jogador potencialmente dominante. O físico dele, combinado com a velocidade que centroavantes dessa era raramente tinham, seria uma anomalia difícil de defender. Pense no que um Didier Drogba fez com esse perfil. Šeško tem atributos comparáveis em termos de estrutura física.

Havertz, por outro lado, teria sofrido nessa mesma era. O futebol dos anos 2000 não tinha espaço para o false nine que se movimenta entre linhas e participa do pressing. Ele teria sido classificado como um meia sem garra ou um atacante sem área — o tipo de jogador que os técnicos da época não saberiam onde encaixar. O futebol precisou evoluir para criar espaço para alguém como ele.

Mas no futebol dos anos 2010 — com Pep Guardiola redefinindo o que um atacante podia ser, com o pressing de Klopp no Dortmund e depois no Liverpool — Havertz teria florescido ainda mais cedo. Ele é filho direto dessa revolução tática… e Šeško é o que sobrou de uma tradição que o futebol moderno tenta, mas não consegue completamente abandonar.

O que isso diz sobre os dois hoje

Na temporada 2025/26, Havertz está entregando um futebol mais completo. Os números são claros: mais jogos, mais gols, mais assistências — e em um clube que exige participação coletiva constante. Ele não é apenas o artilheiro do Arsenal; ele é o jogador que conecta o meio-campo ao ataque, que gera xA ao arrastar marcadores, que pressiona a saída de bola adversária com eficiência. Isso tem valor que os números de gol sozinhos não capturam.

Šeško, com 23 anos e 11 gols em 30 jogos, está em um momento de adaptação ao United — e a baixíssima taxa de assistências sugere que o sistema atual não está maximizando suas qualidades de ligação. Ele é mais eficiente como finalizador puro, mas o United de 2026 ainda está construindo uma identidade tática coerente.

A conclusão que os dados sustentam é esta: Havertz leva a melhor no momento atual, com uma participação ofensiva mais rica e um encaixe tático mais evidente no sistema do Arsenal. Mas o potencial de longo prazo pertence a Šeško — e se o Manchester United encontrar o sistema certo para ele nos próximos dois anos, a diferença de €10 milhões no valor de mercado pode se tornar uma distância muito maior. Havertz nasceu no tempo certo e está aproveitando. Šeško ainda está descobrindo qual tempo é o seu.

17 de outubro de 2024. Nessa data, o Arsenal enfrentava o Liverpool em Anfield com Kai Havertz como referência ofensiva — e o alemão entregou exatamente o que Arteta precisava. Só que agora, depois de comparar os dois lado a lado, a pergunta não é mais se Havertz entrega. É por quanto tempo Šeško vai deixar ele responder sozinho.