Um homem que não sabe que foi nocauteado é, paradoxalmente, a prova mais eloquente da violência que sofreu. Quando o árbitro Herb Dean se ajoelhou ao lado de Jamahal Hill na noite de 13 de abril de 2024, na T-Mobile Arena em Las Vegas, e o americano abriu os olhos com a pergunta 'I lost?' nos lábios, a resposta já estava escrita na expressão de Alex Pereira do outro lado do octógono. O novo vídeo liberado pelo UFC, com imagens inéditas dos bastidores do UFC 300, resolve esse paradoxo em câmera lenta — e serve de prólogo para o capítulo mais ambicioso da carreira de Poatan.
O que as imagens inéditas do UFC 300 revelam sobre o nocaute de Pereira
O material divulgado pelo UFC percorre toda a semana de luta do UFC 300, desde os treinos abertos até a celebração nos bastidores, e entrega detalhes que as transmissões ao vivo não capturaram. Dias antes do evento, Hill pediu a Pereira que assinasse um moletom — um gesto de respeito mútuo que contrasta violentamente com o que aconteceria horas depois. Pereira aproveitou o momento para explicar ao americano o significado do seu bordão: 'Chama', disse o brasileiro, quer dizer 'Let's go'. A energia amistosa durou até a pesagem cerimonial, quando o clima azedou na encarada que precedeu a luta principal.
O nocaute em si já era conhecido, mas as imagens do aftermath mostram Hill completamente desorientado, sem memória imediata do que havia acontecido. A cena remete ao que a neurociência esportiva chama de blackout traumático — o cérebro simplesmente não registra os segundos anteriores ao impacto quando a força é suficiente para interromper a consciência. Hill, campeão que havia vencido o próprio cinturão dos meio-pesados ao nocautear Glover Teixeira em junho de 2023, foi apagado em frações de segundo.
"I lost?" — Jamahal Hill para o árbitro Herb Dean, segundos após o nocaute no UFC 300.
A ironia do vídeo está justamente em Glover Teixeira aparecer nos bastidores abraçando Pereira. O treinador brasileiro havia perdido o cinturão dos meio-pesados justamente para Hill, e agora comemorava com o pupilo que havia encerrado o reinado do americano. Teixeira foi preciso na escolha das palavras:
"Não estou dizendo que você me vingou nem nada assim, mas caramba, dá uma sensação boa, hein?" — Glover Teixeira, nos bastidores do UFC 300, abraçando Pereira após o nocaute.
A cadeia de divisões que Pereira construiu nocaute por nocaute
Para entender a magnitude do que Poatan tenta fazer agora, é preciso traçar a linha cronológica com precisão técnica. Alex Pereira conquistou o cinturão dos médios (até 84 kg) em novembro de 2022, nocauteando Israel Adesanya no quinto round do UFC 281 em Madison Square Garden — o mesmo adversário que havia derrotado o brasileiro duas vezes no kickboxing. Perdeu o cinturão para Adesanya em abril de 2023, subiu para os meio-pesados (até 93 kg) e nocauteou Jiří Procházka em novembro de 2023 para conquistar o segundo título. Defendeu o cinturão três vezes, incluindo o nocaute sobre Hill. Agora sobe para os pesados (até 120 kg) para enfrentar Ciryl Gane pelo cinturão interino.
A análise técnica do cartel de Pereira no UFC revela um padrão que vai além do poder de striking: finish rate superior a 85% nas lutas em que venceu no octógono, striking differential positivo em todas as defesas de cinturão, e uma capacidade de ajuste tático que poucos especialistas antecipavam quando ele estreou na organização em 2021. O ground and pound não é sua arma principal — Pereira se mantém no pé e usa o clinch de forma estratégica para criar ângulos de ataque com o joelho e o cotovelo, como demonstrou contra Procházka na revanche.
A comparação histórica mais honesta vem dos anos 90, quando Randy Couture se tornou o primeiro lutador a conquistar cinturões em duas divisões diferentes no UFC — meio-pesado em 1997 e pesado em 1999 — em uma era em que o MMA ainda era visto como entretenimento marginal. Couture repetiu o feito em 2000 e 2003, mas nunca chegou a três categorias distintas. Nenhum lutador chegou. Pereira está a uma luta de fazer o que Randy Couture, BJ Penn, Conor McGregor e Georges St-Pierre — todos campeões em duas divisões — não conseguiram.
O que Ciryl Gane representa como obstáculo técnico
Gane não é um adversário que se resolve com poder bruto. O francês de 34 anos tem 12 vitórias no UFC, com takedown defense acima de 70% e um jab de longa distância que cria problemas para lutadores que dependem de entrar na zona de striking curto. Contra Francis Ngannou pelo cinturão unificado dos pesados em janeiro de 2022, Gane perdeu por pontos mas demonstrou uma mobilidade atípica para a categoria — algo que pesados raramente apresentam em 25 minutos de luta. Sua maior vulnerabilidade documentada é o clinch prolongado, onde seu nível de luta cai.
Pereira chega aos pesados com desvantagem de massa muscular — Gane costuma lutar próximo de 115 kg, enquanto Poatan raramente ultrapassa 105 kg na semana da luta. A diferença de alcance também favorece o francês. A análise do SportNavo aponta que Pereira precisará usar o sprawl com eficiência caso Gane tente explorar o wrestling para neutralizar o striking do brasileiro, além de controlar a distância com o jab para evitar ser encostado na grade onde Gane prefere trabalhar.
O dado que mais pesa a favor de Poatan é o histórico de finalização em situações de desvantagem aparente. Contra Procházka, no UFC 295, Pereira estava sendo pressionado no segundo round quando encaixou um rear naked choke — uma finalização rara em seu cartel, que é dominado por nocautes — e forçou o tcheco a bater. A capacidade de encontrar a saída quando o cenário parece desfavorável é, tecnicamente, o atributo mais valioso que Pereira carrega para o confronto com Gane.
O efeito cascata de um possível tricampeonato no MMA mundial
Se Pereira vencer Gane pelo cinturão interino dos pesados no UFC White House, o impacto imediato recai sobre a divisão dos meio-pesados, que ficaria sem seu campeão mais dominante desde Jon Jones. O vácuo de Pereira nos 93 kg abre espaço para uma disputa de cinturão entre Procházka e Magomed Ankalaev, que já aguardam na fila. A divisão dos pesados, por sua vez, teria um campeão interino que não foi construído para a categoria — o que cria pressão para uma unificação imediata com o detentor do cinturão principal, seja ele Jon Jones ou quem quer que o substitua.
Para o MMA como esporte, a conquista seria comparável ao que Oscar De La Hoya fez no boxe nos anos 90, quando venceu títulos mundiais em seis divisões diferentes — mas com uma diferença estrutural: no boxe, as organizações multiplicam cinturões; no UFC, existe um único título por categoria, o que torna a façanha de Pereira categoricamente mais difícil de replicar. Três cinturões do UFC em três divisões distintas é um feito que pode não ser repetido por décadas.
O UFC White House, evento que receberá a luta entre Pereira e Gane, ainda não tem data oficial confirmada, mas a promoção já iniciou o ciclo de divulgação com a liberação do material inédito do UFC 300 — sinal de que a máquina promocional está em movimento. Para quem acompanha o cartel de Poatan desde a estreia em 2021, vale reservar a noite do evento e assistir ao vivo: poucas vezes na história do MMA uma única luta carregou tanto peso histórico em seus primeiros 25 minutos possíveis.









