O que acontece quando a laranja mecânica decide que 60 anos de história alheia são pouco? Houston respondeu a essa pergunta na tarde de sábado, 20 de junho, sob um calor que grudava na pele e com as ruas tingidas de laranja de ponta a ponta. A Holanda goleou a Suécia por 5 a 1, chegou a 14 jogos consecutivos sem derrota em Copas do Mundo e arrancou do Brasil um recorde que resistia desde 1966.
Sessenta anos. Esse é o peso do número que os holandeses desmontaram numa tarde de junho no NRG Stadium. A sequência brasileira, de 13 jogos invictos entre os Mundiais de 1958 e 1966 — com 11 vitórias e 2 empates —, atravessou gerações, sobreviveu a derrotas traumáticas e ficou guardada nos arquivos como uma das marcas mais duráveis do futebol mundial. Até sábado.
A Holanda chegou ao 14º jogo sem perder de forma que ninguém esperava: com tranquilidade, com 5 a 1 no placar e com Wesley Sneijder e Edwin van der Sar em cima de um trio elétrico nas ruas de Houston horas antes do apito inicial. Lendas do futebol holandês comandando uma festa que parecia Carnaval fora de época — cânticos, cartazes gigantes com rostos dos jogadores, camisetas laranja ocupando cada esquina da cidade texana.
A série holandesa que começou em 2014 e não parou mais
A sequência invicta da Holanda não nasceu em 2026. Ela tem raízes em 2014, quando a seleção venceu os quatro jogos iniciais daquele Mundial e depois empatou com Costa Rica e Argentina — eliminando a primeira nas quartas e caindo para a segunda nos pênaltis, derrota que não conta na série por critérios de regulamento. Ausente inteiramente em 2018, a Holanda voltou à Copa em 2022 com duas vitórias e um empate na fase de grupos, triunfo sobre os Estados Unidos nas oitavas e novo empate com a Argentina nas quartas, sendo eliminada de novo nos pênaltis.
Agora, em 2026, chegaram ao 14º jogo após empatar por 2 a 2 com o Japão na estreia e destruir a Suécia. Catorze jogos. Um recorde que o Brasil carregou como troféu invisível por mais de seis décadas.
"A torcida holandesa criou uma atmosfera que a gente raramente vê numa fase de grupos", registrou um correspondente presente em Houston, conforme publicado pelo SportNavo. "Era impossível não sentir que algo histórico estava por acontecer antes mesmo do jogo começar."
O cruzamento de grupos que pode gerar o confronto mais esperado das oitavas
O chaveamento da Copa do Mundo de 2026 não é aleatório para o Brasil. Os dois primeiros colocados do Grupo F — exatamente o grupo da Holanda e do Japão — cruzarão com os dois primeiros do Grupo C, que é o grupo da Seleção Brasileira. A aritmética é simples e assustadora: se a Holanda terminar em primeiro no Grupo F e o Brasil terminar em segundo no Grupo C, as duas seleções se encontram já nas oitavas de final.
O Japão também está na jogada. Depois de golear a Tunísia por 4 a 0 na madrugada de domingo no Estádio BBVA, em Monterrey, o Japão foi a 4 pontos — os mesmos da Holanda, que lidera o grupo por ter marcado um gol a mais (7 a 6). A última rodada, marcada para quarta-feira, 25 de junho, define quem fica em primeiro: Holanda enfrenta a Tunísia, já eliminada, enquanto Japão pega a Suécia.
O cruzamento mais temido entre os brasileiros é claro.
"Se o Brasil ficar em primeiro no Grupo C e o Japão confirmar a segunda posição no F, os dois países se enfrentarão na fase de 32 seleções", apontou análise publicada pela Folhapress. "Mas se as posições se inverterem, é Brasil x Holanda — e aí o confronto de invencibilidades vira realidade."
Brasil x Holanda — o duelo de invencibilidades que a Copa merece ver
A Holanda tem 14 jogos sem perder. O Brasil perdeu o recorde, mas segue invicto nesta Copa de 2026. Duas seleções que não conhecem a derrota no torneio, potencialmente no mesmo lado da chave, com a perspectiva de um encontro que decidiria qual das duas sequências históricas sobrevive.
O histórico entre as duas seleções em Copas do Mundo adiciona camadas ao confronto. Em 2010, a Holanda eliminou o Brasil nas quartas de final, em Johanesburgo, com uma virada para 2 a 1. Aquela derrota ainda dói em quem acompanhou. Em 1994, o Brasil eliminou a Holanda nas quartas também — com Bebeto e Romário. São feridas abertas nos dois lados.
A última rodada da fase de grupos define tudo. Holanda joga em Kansas City, no Missouri, na quarta-feira, 25 de junho, às 20h (horário de Brasília). Se vencer a Tunísia e confirmar o primeiro lugar no Grupo F, o caminho até o Brasil fica traçado — e o duelo de invincibilidades, que hoje existe apenas no papel, vira realidade ainda no mata-mata.
Dois recordes. Dois países. Uma Copa. O NRG Stadium de Houston já escolheu sua cor favorita — mas o Brasil ainda tem algo a dizer sobre isso.








