Três dados: 16 dias para a Copa começar. Zero vistos emitidos à delegação iraniana até meados de maio. E uma promessa verbal do presidente da FIFA, Gianni Infantino, registrada pelo ministro do Esporte do Irã, Ahmad Donyamali, de que os documentos seriam garantidos. Esse triângulo resume um dos casos mais reveladores sobre o que acontece quando o futebol colide com décadas de ruptura diplomática.
O que a ausência de vistos representa para o Grupo G
O Copa do Mundo de 2026 desenhou para o Irã um calendário inteiramente em território norte-americano. Os três jogos da fase de grupos estão marcados em Los Angeles — contra Nova Zelândia em 15 de junho e contra a Bélgica em 21 de junho — e em Seattle, onde a seleção enfrenta o Egito em 27 de junho. Não há uma única partida em solo canadense ou mexicano na fase inicial. Para um país que não mantém relações diplomáticas formais com os Estados Unidos desde 1980 — quando a crise dos reféns na embaixada americana em Teerã selou o rompimento —, jogar três vezes no país adversário não é logística. É política.

O presidente da Federação Iraniana de Futebol, Mehdi Taj, foi categórico em declarações divulgadas pela agência estatal Irna:
"Não recebemos nenhuma informação da outra parte sobre quem obteve visto. Até agora, nenhum visto foi emitido."A declaração, feita em 14 de maio, antecedeu uma reunião que Taj classificou como "decisiva" com a FIFA. O dirigente também teve o próprio visto cancelado ao tentar entrar no Canadá para o congresso da entidade em abril — episódio que a federação iraniana atribuiu a supostas ligações de Taj com a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC).
A FIFA entre Washington e Teerã
A posição da FIFA neste impasse é estruturalmente frágil. A entidade não tem soberania sobre políticas de imigração dos países-sede — e nunca teve. O que Infantino pode fazer, na prática, é exercer pressão política e oferecer arranjos operacionais. Foi exatamente isso que aconteceu: a FIFA autorizou o Irã a transferir sua base de treinamentos de Tucson, no Arizona, para Tijuana, no México, cidade que faz fronteira terrestre com os Estados Unidos. A presidente mexicana Claudia Sheinbaum confirmou o acolhimento da delegação sem restrições.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, foi direto ao ponto: os países-sede têm a obrigação de emitir vistos sem considerações políticas, e cabe à FIFA assegurar isso contratualmente.
"É responsabilidade da entidade máxima do futebol assegurar a organização necessária, incluindo o acesso a vistos, de acordo com seus regulamentos", afirmou Baghaei, segundo a imprensa estatal iraniana. O Departamento de Estado dos EUA confirmou, em 8 de maio, que jogadores, comissão técnica e membros essenciais da delegação iraniana estavam autorizados a solicitar vistos — mas deixou claro que torcedores não teriam o mesmo tratamento.
Há um precedente histórico que ilumina a gravidade do momento. Em 1980, os Estados Unidos lideraram o boicote aos Jogos Olímpicos de Moscou após a invasão soviética ao Afeganistão — 65 países seguiram Washington e a URSS respondeu com boicote aos Jogos de Los Angeles em 1984. Naquele ciclo, a geopolítica cancelou a participação de centenas de atletas em seus momentos de pico. A diferença agora é que a FIFA, diferentemente do Comitê Olímpico Internacional de 1980, tem contratos bilionários atrelados à integridade do torneio — e o afastamento de qualquer seleção classificada representa risco jurídico e reputacional concreto para a entidade.
Tijuana como solução e seus efeitos cascata
A transferência da base para Tijuana resolve parte do problema logístico, mas cria uma cadeia de efeitos que merece análise. A delegação iraniana iniciou os procedimentos biométricos para vistos na Turquia, onde realiza sua preparação — os atletas precisam se deslocar até Ancara para cumprir as exigências consulares americanas. Isso significa que jogadores que disputam ligas europeias e asiáticas precisam coordenar agendas de treinamento com burocracia consular em um terceiro país. O custo operacional e o desgaste psicológico sobre a seleção são variáveis que não aparecem nas tabelas de grupos, mas aparecem no desempenho em campo.
Conforme registrado pelo SportNavo, o ministro Donyamali declarou em 25 de maio que Infantino "prometeu" vistos a todos os jogadores. A palavra "prometeu" carrega peso jurídico impreciso — uma promessa verbal de um dirigente esportivo não substitui a soberania do Departamento de Estado americano. Mas sinaliza que a FIFA usou seu capital político junto à administração Trump para destravar o processo. A seleção iraniana, por sua vez, realizou em Teerã uma cerimônia de lançamento do uniforme da Copa na Praça da Revolução, com milhares de torcedores presentes — imagens transmitidas pela Al Jazeera que mostram uma mobilização popular intensa em torno da equipe, independentemente da indefinição diplomática.
O que está em jogo além do Grupo G
A ausência forçada do Irã — caso os vistos não sejam regularizados — criaria um vácuo regulatório sem precedente na história das Copas do Mundo. A FIFA teria de decidir entre substituir a seleção, jogar os partidas com W.O. ou renegociar a sede dos jogos. Nenhuma dessas opções é operacionalmente simples a 16 dias do início do torneio. O Grupo G perderia competitividade imediata: Bélgica, Nova Zelândia e Egito avançariam com pontuações artificiais, e qualquer seleção que eventualmente enfrentasse um adversário beneficiado por W.O. poderia contestar juridicamente sua eliminação.
O cenário mais provável — e o que os movimentos recentes indicam — é que os vistos serão emitidos de forma restrita e monitorada, com a delegação operando a partir de Tijuana e cruzando a fronteira para os jogos em Los Angeles e Seattle. O Irã estreia contra a Nova Zelândia em 15 de junho, em Los Angeles — data que funciona como prazo real para a resolução do impasse. Se a delegação não tiver documentação completa até a semana anterior, a reunião "decisiva" de Mehdi Taj com a FIFA terá de produzir algo mais do que garantias verbais.











