O ar condicionado luta contra o calor de 38 graus em Teerã. No centro de treinamento da Federação Iraniana de Futebol, mapas do mundo cobrem as paredes. Cada alfinete vermelho marca onde está um jogador convocável. Londres, Madrid, Doha, Istambul. A geografia do futebol iraniano se tornou um quebra-cabeças geopolítico.
A confirmação oficial chegou na última semana através do técnico Amir Ghalenoei. O comandante de 60 anos não escondeu o alívio ao garantir que a seleção disputará a Copa do Mundo de 2026.
"Não há razão para não participar. Nossa classificação foi conquistada em campo e respeitamos todas as normas da FIFA"
Mas os bastidores revelam uma realidade mais complexa. Dos 26 jogadores que podem formar a base da convocação, 18 atuam fora do Irã. Sardar Azmoun brilha no Bayer Leverkusen, enquanto Mehdi Taremi marca gols pelo Inter de Milão. Alireza Jahanbakhsh defende o Feyenoord holandês há três temporadas.
Mapa de jogadores pelo mundo
A dispersão geográfica do talento iraniano criou desafios inéditos. Na Alemanha, três jogadores enfrentam burocracias diferentes para liberação. Azmoun, de 29 anos, precisou de autorização especial do governo alemão para representar o Irã em amistosos preparatórios realizados em março.
Na Premier League inglesa, dois meio-campistas aguardam definições sobre voos charter. O Reino Unido mantém restrições específicas para delegações iranianas desde 2019. A solução encontrada pela federação foi contratar uma empresa suíça para organizar a logística de deslocamentos.
Nos Emirados Árabes Unidos, quatro jogadores do campeonato local vivem situação mais tranquila. As relações diplomáticas entre Teerã e Abu Dhabi melhoraram substancialmente nos últimos 18 meses, facilitando os trâmites burocráticos.
Memórias da Copa anterior
O fantasma de 2022 ainda assombra os corredores da federação. No Qatar, a seleção iraniana enfrentou protestos internos e pressão política externa durante toda a competição. Jogadores foram questionados sobre posicionamentos políticos antes de cada partida.
Carlos Queiroz, então técnico da equipe, chegou a ser interpelado por jornalistas sobre as manifestações no Irã. A tensão era palpável no vestiário antes do jogo contra os Estados Unidos, segundo relatos de bastidores da época.
"Desta vez será diferente. O foco está apenas no futebol", garantiu um dirigente da federação em conversa reservada
A preparação atual inclui um cronograma de cinco amistosos internacionais. O primeiro será contra a Síria, em campo neutro nos Emirados. Depois, enfrentarão Uzbequistão, Cazaquistão e duas seleções ainda por definir.
Estratégia de preparação adaptada
A comissão técnica desenvolveu um modelo híbrido de preparação. Jogadores que atuam na Europa treinarão em três centros diferentes: Áustria, Turquia e Emirados Árabes Unidos. A logística evita países com restrições específicas ao Irã.
O departamento médico da seleção montou estrutura móvel para acompanhar atletas remotamente. Através de aplicativos especializados, monitora a condição física de 35 jogadores espalhados por 12 países diferentes.
As eliminatórias asiáticas mostraram a força do futebol iraniano. Foram 18 pontos em 10 jogos, com apenas uma derrota. O sistema defensivo comandado por Hossein Kanaani se tornou referência continental, sofrendo apenas quatro gols em toda a campanha.
A última convocação incluiu três novatos que atuam na Europa. Omid Noorafkan, lateral-esquerdo do Sheffield Wednesday, pode ser a surpresa da Copa. Aos 26 anos, o jogador nasceu em Teerã mas se naturalizou inglês, optando por defender o Irã apenas em janeiro.
A seleção iraniana volta aos gramados no próximo dia 20 de março, contra a Síria, em Dubai. O jogo marca o início oficial da preparação para a Copa do Mundo de 2026, que será disputada nos Estados Unidos, Canadá e México entre junho e julho.

