O calor sufocante de Miami não será o único desafio que aguarda a seleção do Irã na Copa do Mundo de 2026. A confirmação de que os iranianos jogarão todas as três partidas da fase de grupos em território americano criou um quebra-cabeça de segurança sem precedentes na história dos Mundiais. O presidente da FIFA garantiu a participação iraniana, mas os bastidores revelam tensões que vão muito além do gramado.
Dallas, Los Angeles e Atlanta estão entre as cidades americanas que podem receber a seleção iraniana, segundo levantamento preliminar da organização do torneio. Cada uma dessas metrópoles abriga comunidades de imigrantes iranianos que fugiram do regime teocrático após a Revolução de 1979, criando um cenário complexo onde celebração e protesto podem caminhar lado a lado.

Operação militar disfarçada de evento esportivo
A segurança em torno da delegação iraniana exigirá um aparato comparável ao de uma visita diplomática de alto nível. Agentes do FBI e do Departamento de Segurança Interna já iniciaram reuniões com autoridades locais das cidades-sede, segundo fontes do governo americano. O protocolo incluirá escolta policial permanente, varredura de explosivos em hotéis e estádios, além de monitoramento 24 horas dos jogadores e comissão técnica.
O precedente do Qatar em 2022 serve como referência, mas também como alerta. Durante aquela Copa, iranianos e americanos se enfrentaram em campo enquanto protestos contra o regime de Teerã eclodiram nas arquibancadas. A diferença é que agora o jogo acontece em casa, onde a comunidade iraniana no exílio tem voz ativa e organização política estabelecida.
"Com certeza o Irã estará na Copa do Mundo de 2026", garantiu o presidente da FIFA, Gianni Infantino, durante evento em Zurich.
Los Angeles concentra a maior população de descendentes iranianos fora do Irã - cerca de 500 mil pessoas que transformaram bairros como Beverly Hills em pequenas Teerãs. Muitos chegaram como refugiados políticos e mantêm posições contrárias ao governo atual de seu país natal. A atmosfera promete ser eletrizada caso a cidade seja escolhida para receber jogos da seleção.
Vistos e logística complicam presença da torcida
A questão dos vistos representa outro obstáculo significativo. Cidadãos iranianos enfrentam um dos processos mais rigorosos para entrada nos Estados Unidos, com tempo de espera que pode ultrapassar seis meses. O Departamento de Estado americano ainda não divulgou se haverá procedimentos especiais para torcedores que queiram acompanhar a Copa.
Conforme apuração do SportNavo, autoridades consulares já estudam a criação de um "visto Copa do Mundo" temporário, similar ao implementado pela Rússia em 2018. A medida facilitaria a entrada de torcedores, mas manteria as restrições de segurança habituais para cidadãos iranianos.
A logística de hospedagem também preocupa organizadores. Hotéis em cidades-sede receberam orientações preliminares sobre protocolos de segurança que podem incluir pisos inteiros reservados para delegações "de alto risco". O custo adicional será absorvido pela FIFA, que já destinou uma verba extra de 50 milhões de dólares para questões de segurança relacionadas a países com tensões geopolíticas.
Herança política além do esporte
A Copa de 2026 será a primeira em solo americano desde 1994, mas o cenário geopolítico mudou drasticamente. As sanções econômicas contra o Irã se intensificaram, e movimentos de protesto ganharam força internacional após a morte de Mahsa Amini em 2022. Estádios americanos podem se transformar em palcos de manifestações políticas que transcendem o futebol.

Organizadores estudam a possibilidade de criar "zonas de protesto" controladas nos arredores dos estádios, seguindo o modelo adotado em Londres durante os Jogos Olímpicos de 2012. A medida visa canalizar manifestações para áreas seguras, evitando confrontos diretos com torcedores iranianos que apoiam a seleção.
A seleção do Irã estreia na Copa do Mundo de 2026 no dia 12 de junho, com adversário ainda a ser definido no sorteio de dezembro de 2025. A FIFA confirmou que todas as três partidas da fase de grupos serão disputadas em território americano, consolidando um dos maiores desafios logísticos e diplomáticos na história dos Mundiais.

