Não, Isaquias Queiroz não é apenas o nome que o Brasil carrega nas costas quando a água está difícil. Essa leitura é preguiçosa e, depois do que aconteceu em Szeged no último final de semana, fica ainda mais difícil de sustentar. O campeão olímpico de Tóquio cruzou a linha do C1 500 metros em 1min44s73 — apenas 30 centésimos atrás do chinês Bowen Ji, que levou o ouro — e, no mesmo fim de semana, dois baianos de cidades que a maioria dos torcedores brasileiros não saberia apontar no mapa subiram ao pódio lado a lado. O diagnóstico real de Szeged não é "Isaquias salvou o Brasil". É que o Brasil, de repente, parece maior do que Isaquias.
O que a prata de Isaquias esconde sobre a prova em si
Quem acompanhou a final do C1 500m no sábado (9) viu uma corrida que mudou de cara nos últimos 100 metros. Isaquias liderou boa parte da prova — e aqui reparemos no detalhe: liderar um C1 500m não é simplesmente estar na frente. É controlar a taxa de remada, administrar a curvatura da embarcação e manter a musculatura do tronco em contração isométrica enquanto os braços executam entre 90 e 110 ciclos por minuto. É o tipo de esforço que, para quem já sentiu o quinto round de uma luta de muay thai, tem uma textura parecida — aquele limiar onde o corpo pede para recuar e a cabeça precisa decidir em fração de segundo se vai ou não. Ji foi mais rápido no sprint final, cravou 1min44s43, e Isaquias ficou com a prata. Nenhuma derrota. Uma fotografia do ciclo.

Gabriel Assunção e Jacky Goodman revelam a profundidade real da seleção
No domingo (10), Ubatã e Itacaré — duas cidades do interior baiano — colocaram nomes no pódio da Copa do Mundo. Gabriel Assunção e Jacky Goodman terminaram o C2 500m em 1min37s16, atrás apenas dos atletas neutros Zakhar Petrov e Ivan Shtyl (ouro, 1min35s90) e dos italianos Gabriele Casadei e Carlo Tacchini (prata, 1min36s32). A margem para o segundo lugar foi de menos de um segundo — e em canoagem velocidade, um segundo é um abismo que separa gerações de treinamento.
"Foi uma prova muito difícil. Viemos muito fortes no começo, conseguimos manter um bom ritmo e, na reta final, o Gabriel fez uma grande condução para garantir esse terceiro lugar", celebrou Jacky Goodman após a cerimônia de premiação.
A condução mencionada por Jacky tem nome técnico: é o ajuste de ângulo de pá nos metros finais, quando a embarcação começa a perder linearidade pelo acúmulo de fadiga no remador da popa. Funciona como um leme de emergência executado com os pulsos — sutil como uma brisa, decisivo como um temporal que não avisa antes de chegar. Gabriel segurou a linha. O bronze ficou.
Segundo apuração do SportNavo, o Brasil ainda teve Mateus Nunes Bastos em quarto lugar no C1 5000m masculino — prova de 30 atletas que exige leitura de corrente e gestão de pelotão completamente diferentes do velocidade puro. Filipe Santana Vieira e o próprio Mateus disputaram a final B do C2 500m e terminaram em segundo, com 1min38s50. Valdenice Conceição representou o Brasil no C1 200m feminino, encerrando a final B em sexto com 46s01.
O ciclo olímpico começa a ganhar forma antes de Los Angeles
Esta etapa de Szeged é a primeira da temporada de 2026 a pontuar para o ranking olímpico rumo a Los Angeles 2028. O calendário prevê mais duas etapas da Copa do Mundo e o Campeonato Mundial — o que significa que cada prova daqui para frente acumula pressão e pontuação simultaneamente. A delegação brasileira já segue para Brandenburg, na Alemanha, onde compete entre quinta-feira (14) e domingo (17) na segunda etapa da Copa do Mundo de Canoagem Velocidade e Paracanoagem. A pergunta que fica não é se Isaquias vai continuar sendo referência — é quem, do elenco que se mostrou em Szeged, vai chegar a Los Angeles disputando medalha por mérito próprio.








