O despertador italiano soou amargo nesta quarta-feira. Nas páginas do Corriere della Sera, o país que já produziu Baggio, Totti e Del Piero encara a realidade crua de uma "maldição da Copa do Mundo" que se perpetua desde 2018. Pela terceira edição consecutiva, a Azzurra assiste ao Mundial da arquibancada, protagonizando uma queda vertiginosa que contrasta brutalmente com a festa de Berlim em 2006.

A eliminação nas repescagens tornou-se uma rotina dolorosa para os tifosi. Desde aquele épico 5 a 3 nos pênaltis contra a França há duas décadas, a seleção conquistou apenas uma vitória em Copas do Mundo - o modesto 2 a 1 sobre a Inglaterra em 2014. Um aproveitamento de 16,7% em jogos mundialistas que expõe a magnitude do colapso azzurro.

O desmoronamento de uma potência secular

A trajetória descendente da Itália não começou ontem. O país que ostenta quatro títulos mundiais vive um processo de deterioração estrutural que transcende os gramados. Enquanto observava de perto o tiki-taka espanhol em Barcelona e o gegenpressing alemão nos estádios ingleses, ficava evidente que a península não acompanhava a evolução tática europeia.

O futebol italiano permaneceu ancorado em conceitos defensivos ultrapassados, enquanto suas potências rivais abraçavam metodologias de pressing alto e transições rápidas. A Serie A, outrora vitrine mundial, perdeu protagonismo para Premier League e La Liga tanto em qualidade técnica quanto em capacidade financeira.

Os números da atual campanha eliminatória expõem a mediocridade azzurra: apenas 14 gols marcados em 10 partidas, um aproveitamento de 60% que deixou a seleção atrás de adversários teoricamente inferiores. O meio-campo, tradicionalmente o ponto forte italiano, não consegue mais ditar o ritmo das partidas como nos tempos áureos de Pirlo e Verratti.

Comparações dolorosas com outras potências em crise

A situação italiana encontra paralelos com outras grandes do futebol mundial que atravessaram períodos de turbulência. A Alemanha, por exemplo, viveu seu annus horribilis com eliminações precoces entre 2018 e 2022, mas soube reinventar-se através de uma revolução na base e modernização tática.

A França também experimentou o amargo sabor do fracasso nas eliminatórias de 1994, quando a geração de Platini dava lugar a jogadores menos talentosos. Contudo, os bleus reagiram com investimentos massivos na formação, culminando no título mundial de 1998.

O Brasil, guardadas as proporções, enfrentou questionamentos similares após as eliminações de 1990 e 2018, mas sempre manteve um pipeline de talentos que garantia competitividade. A Itália, inversamente, sofre com uma crise geracional sem precedentes: jogadores como Barella e Chiesa, embora competentes, não possuem o DNA vencedor de gerações anteriores.

Enquanto a Inglaterra construiu uma identidade baseada na intensidade física e velocidade de transição, e a Espanha perpetua sua filosofia de posse de bola através das categorias de base, os azzurri permanecem presos a esquemas rígidos que não exploram as características de seus atletas atuais.

Reconstrução total: o único caminho possível

A imprensa peninsular não usa eufemismos: a situação exige uma ricostruzione totale. O Corriere dello Sport e La Gazzetta dello Sport convergem na necessidade de reformas estruturais que transcendem a simples troca de técnico. A Federação Italiana precisa repensar desde a filosofia de jogo até os critérios de convocação.

O modelo alemão pós-2004 oferece um blueprint interessante: após o fiasco da Eurocopa em casa, a DFB revolucionou completamente suas metodologias, priorizando velocidade, pressing e verticalidade. Em uma década, colheram os frutos com o título mundial no Brasil.

A Itália possui recursos para empreender transformação similar. Clubes como Milan, Juventus e Inter mantêm estruturas competitivas na Champions League, sinalizando que o problema não reside exclusivamente na qualidade individual dos jogadores. A questão central encontra-se na incapacidade de adaptar talentos disponíveis a um sistema coletivo eficiente.

O técnico Luciano Spalletti, com seus 65 anos, representa uma escola tática que precisa evoluir. Enquanto Pep Guardiola revoluciona conceitos de posicionamento no Manchester City e Jürgen Klopp implementava transições defensivas no Liverpool, a Azzurra permanece emperrada em esquemas previsíveis.

A solução passa necessariamente por uma oxigenação geracional tanto no comando técnico quanto na seleção de jogadores. Apostar em talentos emergentes da Serie A, mesmo que isso signifique abrir mão de 'medalhões' estabelecidos, pode representar o choque de renovação necessário.

Vinte anos separam a glória berlinense do atual abismo azzurro. A Itália, país que inventou o catenaccio e eternizou o calcio como arte, precisa redescobrir sua identidade futebolística antes que uma quarta eliminação consecutiva transforme exceção em regra. O tempo do romantismo acabou; chegou a hora da revolução.