A eliminação da Itália para a Bósnia nos pênaltis, na madrugada desta terça-feira (31), marca um precedente inédito na história das Copas do Mundo: pela primeira vez, uma seleção campeã mundial ficará ausente de três edições consecutivas do torneio. Os azzurri, tetracampeões mundiais (1934, 1938, 1982 e 2006), perderam por 4-2 na disputa de penalidades após empate em 1 a 1 no tempo regulamentar, selando definitivamente sua ausência dos Mundiais de 2018 (Rússia), 2022 (Qatar) e agora 2026 (Estados Unidos, Canadá e México).
A Tragédia de Pristina e o Colapso Azzurro
O drama italiano se consumou no Estádio Fadil Vokrri, em Pristina, onde a Bósnia-Herzegovina garantiu sua primeira participação em Copa do Mundo desde a estreia em 2014. A partida, válida pela repescagem europeia, expôs todas as fragilidades de uma seleção que, entre 1934 e 2014, esteve ausente de apenas três edições mundiais (1958, 1974 e 1986).

O primeiro tempo terminou sem gols, reflexo da cautela excessiva de ambas as equipes. A Itália abriu o placar aos 23 minutos do segundo tempo com Ciro Immobile, mas viu a Bósnia empatar aos 38 minutos através de Edin Džeko, em sua provável última oportunidade de disputar uma Copa do Mundo aos 40 anos. Na cobrança de pênaltis, os erros de Federico Chiesa e Niccolò Barella foram fatais para os azzurri.

Análise Histórica: O Declínio de uma Potência
Para compreender a magnitude desta crise, é necessário analisar os números. Desde a primeira Copa do Mundo em 1930, a Itália havia perdido apenas três repescagens: contra a Irlanda do Norte em 1958 (0-2 em Belfast), contra a União Soviética em 1970 (derrota no sorteio após empate em 0-0) e contra a Suécia em 2017 (0-1 em Milão). Agora, soma-se a quarta eliminação em decisões diretas.
O aproveitamento italiano em Copas do Mundo era impressionante até 2014: 18 participações em 20 edições possíveis, com quatro títulos, dois vice-campeonatos (1970 e 1994) e um terceiro lugar (1990). Entre 1970 e 2014, a azzurra havia chegado às semifinais em cinco ocasiões, demonstrando consistência que agora parece um passado distante.
Desde a conquista da Eurocopa em 2021, sob comando de Roberto Mancini, a seleção italiana disputou 28 partidas oficiais com aproveitamento de apenas 53,5%: 10 vitórias, 8 empates e 10 derrotas. Para uma nação que entre 2004 e 2012 manteve aproveitamento superior a 65% em jogos oficiais, os números revelam uma queda técnica alarmante.
O Novo Mapa do Futebol Mundial
Enquanto a Itália protagoniza seu maior vexame histórico, outras seleções celebram conquistas inéditas ou retornos aguardados. A Turquia garantiu sua segunda participação em Copas do Mundo após 24 anos de ausência, vencendo o Kosovo por 1-0 fora de casa. Os turcos haviam participado apenas do Mundial de 2002, no qual alcançaram o terceiro lugar sob comando de Şenol Güneş.
A Suécia, por sua vez, confirmou presença na América do Norte após vencer a Polônia nos minutos finais em Estocolmo. Os suecos, que ficaram fora apenas de 2022, mantêm assim sua tradição de regularidade: das últimas 10 Copas do Mundo, participaram de oito edições.
Este cenário ilustra uma mudança de paradigma no futebol europeu. Países tradicionalmente coadjuvantes como Islândia (presente em 2018), Macedônia do Norte (classificada via Nations League) e agora Bósnia-Herzegovina conquistam espaços que antes pareciam reservados às potências históricas.
Consequências para a Copa de 2026
A ausência italiana representa uma perda significativa para a Copa do Mundo de 2026, especialmente considerando a expansão para 48 seleções. Com 16 vagas adicionais em relação ao formato anterior, a eliminação dos azzurri torna-se ainda mais surpreendente e constrangedora.
Historicamente, as Copas sem a Itália perderam em qualidade técnica e apelo comercial. Em 1958, sem os tetracampeões, a competição teve média de gols inferior às edições adjacentes. Em 2018, a ausência azzurra contribuiu para uma Copa considerada menos atrativa do ponto de vista tático, especialmente na fase eliminatória.
Do ponto de vista econômico, a Federação Italiana de Futebol (FIGC) deixará de arrecadar aproximadamente 80 milhões de euros em premiações e direitos de transmissão. Para uma federação que já enfrenta déficits estruturais desde a pandemia, o impacto financeiro agravará a crise institucional.
A Copa de 2026 contará com 48 seleções distribuídas em 16 grupos de três equipes cada. O formato ampliado teoricamente facilitaria a classificação de potências tradicionais, tornando a eliminação italiana um caso ainda mais excepcional na história do torneio.
O futebol italiano, que influenciou gerações com seu catenaccio e sua escola tática, agora observa de fora uma Copa do Mundo pela terceira vez consecutiva. Para uma nação que produziu técnicos como Arrigo Sacchi, Marcello Lippi e Carlo Ancelotti, e jogadores como Roberto Baggio, Francesco Totti e Franco Baresi, este jejum representa mais que uma crise esportiva: simboliza o fim de uma era de hegemonia histórica no futebol mundial.

