Se Andrew tivesse levado um gol contra o Cusco, a conversa seria outra. A narrativa se escreveria sozinha: jovem goleiro vacila na estreia, titular recupera a vaga. Mas não foi isso que aconteceu na última rodada da fase de grupos da Libertadores. O arqueiro manteve o zero, fez ao menos uma defesa de destaque — num chute de fora da área do meia Nicolas Silva — e não cometeu nenhum erro de saída ou distribuição. A performance foi limpa. E mesmo assim, Flamengo x Coritiba, neste sábado (30), no Maracanã, terá Rossi entre os postes.

A decisão de Leonardo Jardim não foi surpresa para quem acompanha os bastidores do clube na Gávea. O técnico português havia antecipado publicamente que Rossi retornaria ao time titular assim que cumprisse seu período de descanso gerenciado — a rotação foi planejada antes mesmo da partida contra o Cusco, e não dependia do desempenho de Andrew para ser revertida. A hierarquia estava estabelecida. O que a situação expõe, no entanto, é uma tensão interna que vai além da escolha de um goleiro para uma partida de Brasileirão.

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Os números de Rossi e o peso de 27 gols em 27 jogos

O argentino Rossi atravessa uma temporada numericamente ambígua. Até o momento, o goleiro acumula 27 gols sofridos em 27 partidas disputadas em 2026 — uma média de exatamente um gol por jogo. Para um goleiro que é o mais bem pago do elenco no setor defensivo e que realizou uma temporada sólida em 2025, o dado alimenta o ceticismo de parte da torcida rubro-negra. A ressalva técnica é legítima: nem toda bola na rede é responsabilidade direta do goleiro. Defesas mal posicionadas, erros de marcação e bolas desviadas compõem boa parte desse volume. Mas a percepção pública raramente separa esses detalhes.

Os números de Rossi e o peso de 27 gols em 27 jogos Jardim ignora atuação de And
Os números de Rossi e o peso de 27 gols em 27 jogos Jardim ignora atuação de And

O que torna o número mais revelador é a comparação com o desempenho coletivo defensivo do Flamengo no período: o time sofreu mais gols do que o Athletico-Paranaense — que disputa a mesma competição com orçamento três vezes menor — nas primeiras 17 rodadas do Brasileirão. Esse dado — mais gols sofridos que um clube com fração do investimento defensivo rubro-negro — é o tipo de estatística que circula nos relatórios internos e que torna a posição de Rossi mais frágil do que o discurso oficial sugere.

"A titularidade do Rossi está confirmada para sábado", antecipou Jardim em coletiva antes da rodada, sem abrir margem para interpretação diferente.

O que Andrew mostrou e o que Jardim ainda não viu o suficiente

O jovem goleiro — revelado pelas categorias de base do próprio Flamengo — entrou em campo contra o Cusco carregando o peso de uma oportunidade rara. Jogadores formados no clube que chegam ao profissional com espaço real de disputa são cada vez menos frequentes num elenco que importa titulares. Andrew não desperdiçou o momento: além da defesa no chute de Nicolas Silva, o arqueiro teve índice de 100% de acerto nos passes com os pés e não registrou nenhuma saída equivocada nas bolas aéreas que disputou.

O problema — e aqui está o nó da questão — é que uma partida contra o Cusco, equipe peruana que terminou a fase de grupos com apenas uma vitória, não é base suficiente para uma virada de titularidade num clube do tamanho do Flamengo. Jardim sabe disso. A comissão técnica sabe disso. E Andrew, provavelmente, também sabe. O que o jovem goleiro conquistou foi algo mais preciso: provou que pode ser acionado sem que o time perca solidez. Isso tem valor de mercado interno — e pode influenciar decisões futuras em jogos de menor pressão.

"Ele [Andrew] se saiu bem. Mas a posição de Rossi como titular não muda por causa de um jogo", disse uma fonte próxima à comissão técnica, segundo informações que circulam nos bastidores do Ninho do Urubu.

A disputa pelo gol e o que ela revela sobre a gestão de elenco de Jardim

Há uma lógica gerencial clara na decisão do técnico português. Jardim — que chegou ao Flamengo no início de 2026 com contrato até dezembro de 2027 e salário estimado em torno de 400 mil euros mensais — construiu sua reputação na Europa justamente pela capacidade de manter hierarquias claras dentro do elenco sem gerar crises desnecessárias. A rotação de Andrew contra o Cusco foi, antes de tudo, uma ferramenta de gestão: manteve o goleiro reserva ativo, evitou que Rossi acumulasse desgaste físico desnecessário numa partida sem pressão classificatória real, e sinalizou ao elenco que as posições não são intocáveis.

O que o episódio revela — e que poucos veículos têm apurado com profundidade — é que a cláusula de desempenho inserida no contrato de Rossi com o Flamengo, renovado em meados de 2025 por mais dois anos, inclui metas de aproveitamento defensivo que são monitoradas internamente pela diretoria. Não há confirmação oficial dos valores exatos, mas fontes ligadas ao departamento jurídico do clube indicam que o patamar salarial do argentino só se mantém no teto atual se ele permanecer como titular em pelo menos 70% das partidas oficiais da temporada. Perder a posição para Andrew, portanto, teria consequências financeiras diretas para o clube — o que adiciona uma camada econômica à decisão técnica de Jardim.

A 18ª rodada do Brasileirão, neste sábado (30), às 16h (horário de Brasília), no Maracanã, com transmissão pelo SporTV e Premiere, será o primeiro teste de Rossi em casa depois das críticas recentes. O Flamengo chega ao confronto precisando pontuar para não perder terreno na tabela, onde a diferença para o líder ainda é administrável mas exige sequência de resultados positivos. Se o argentino confirmar a titularidade com uma atuação sólida, o debate esfria por algumas semanas. Se vacilar, Andrew deixará de ser apenas uma opção para se tornar uma pressão concreta.