Se Carlo Ancelotti tivesse montado a convocação exclusivamente por critério de momento e desempenho recente na temporada 2025/2026, pelo menos três nomes estariam no avião: João Pedro, Andrey Santos e Pedro. Mas a lista dos 26 divulgada na tarde de segunda-feira (18), no Museu do Amanhã, no Centro do Rio de Janeiro, seguiu outra lógica — e o resultado foi uma convocação que acendeu o debate mais intenso desde a eliminação em 2022.
A resolução vem logo: Ancelotti priorizou experiência em posições específicas, a presença de Neymar depois de cinco ciclos de ausência, e um perfil de elenco que se apoia em atletas com histórico em competições de alto nível. O problema é que esse critério, ao ser aplicado com rigidez, produziu exclusões difíceis de defender tecnicamente — e a torcida sentiu.
O corte que mais dói na análise dos 26 nomes de Ancelotti
João Pedro foi o nome que mais gerou reação imediata entre torcedores e imprensa especializada. O atacante viveu uma das melhores temporadas de sua carreira no Bournemouth, clube inglês que, curiosamente, passa agora a integrar o seleto grupo de agremiações que já cederam jogadores ao Brasil em Copas do Mundo — uma lista que chegou a 79 times, sendo 55 estrangeiros. Sua ausência é a que menos encontra justificativa técnica objetiva: gols, assistências e regularidade estavam ali, no relatório de qualquer observador minimamente atento.
Pedro, do Flamengo, carrega um peso diferente. O clube rubro-negro enviou quatro representantes para a Copa — Alex Sandro, Danilo, Léo Pereira e Lucas Paquetá —, saltando de 36 para 40 atletas cedidos historicamente, o que o coloca em terceiro lugar no ranking geral atrás apenas de Botafogo (48) e São Paulo (46). Dentro desse contexto, a ausência de Pedro, centroavante titular do Flamengo durante boa parte da temporada, é lida por muitos como uma incoerência interna na própria lógica de aproveitamento do clube.
Segundo apuração do SportNavo, o nome de Andrey Santos foi o que mais dividiu opiniões nos bastidores da imprensa especializada nas últimas semanas. O meia do Chelsea, com 21 anos, reunia o perfil de construção de jogo que a Seleção frequentemente desperdiçou nas Eliminatórias. Sua ausência aponta para uma escolha de Ancelotti por volume físico no meio-campo em vez de criatividade — uma opção tática legítima, mas contestável.
Desconfiança histórica e o peso de uma Copa que começa sob ceticismo
A polêmica das ausências não existe no vácuo. Uma pesquisa da AtlasIntel divulgada na semana passada revelou que 39,8% dos brasileiros escolheram a palavra "desconfiança" para descrever seu sentimento em relação à Seleção nesta Copa, com 31% optando por "indiferença" e apenas 23,4% escolhendo "esperança". O índice de orgulho foi de 0,2% — número que, por si só, resume o estado de espírito do torcedor. Entre os que declararam não pretender acompanhar a competição, 59% atribuíram a escolha ao desinteresse pela equipe de Ancelotti.

Esse clima carregado não é inédito. Antes da Copa de 1994, o Brasil amargava um futebol apático nas Eliminatórias, com clima de apreensão até a última rodada, em 19 de setembro de 1993. Romário, afastado por indisciplina, foi chamado por pressão popular por Carlos Alberto Parreira após a lesão de Muller — e o resto virou tricampeonato. A história, portanto, não autoriza catastrofismo, mas também não exige que a torcida engula escolhas questionáveis sem debatê-las.
Ancelotti, por sua vez, chega à Copa em situação inédita: é o primeiro técnico estrangeiro a comandar o Brasil em um Mundial — o último cidadão de outro país à frente da equipe havia sido um argentino, em 1965, em caráter pontual. Seu contrato foi renovado até 2030, o que representa um respaldo institucional que Fernando Diniz e Dorival Júnior jamais tiveram. Ainda assim, como mostram os números da AtlasIntel, respaldo da CBF e confiança da torcida são coisas bem diferentes.
O que os cortes revelam sobre o modelo tático do técnico italiano
A convocação de 26 jogadores, com o perfil que Ancelotti montou, funciona como um temporal sem trovão: chegou pesado, reconfigurou o ambiente, mas ainda não se sabe ao certo qual direção vai tomar. A ausência simultânea de João Pedro, Andrey Santos e Pedro sugere que o técnico italiano não quis competição aberta por vagas no ataque e no meio — preferiu um grupo mais coeso, com hierarquia definida, mesmo que isso custasse nomes em alta forma.
A lógica tem precedente: em 1994, Parreira também fez escolhas impopulares antes de Romário salvar a festa. Mas há uma diferença estrutural relevante. Naquele ciclo, o Brasil tinha um sistema de jogo cristalino e uma identidade coletiva reconhecível. O ciclo atual, marcado por trocas de treinador e futebol aquém do esperado, não oferece essa âncora. Quando o estilo não convence, cada ausência vira alvo.
O Grêmio, que enviou o goleiro Weverton, aparece agora com 9 atletas cedidos historicamente, ultrapassando o Internacional (8) no ranking de clubes brasileiros. O São Paulo, por sua vez, chega à sua quinta Copa seguida sem representantes — a última participação foi em 2006, com Rogério Ceni e Mineiro. Esses números contextualizam o peso simbólico que cada convocação carrega no futebol brasileiro, e explicam por que cada corte é sentido com tanta intensidade.

A Seleção se apresenta na Granja Comary, em Teresópolis, no dia 27 de maio, e disputa dois amistosos antes da estreia: contra o Panamá, no Maracanã, em 31 de maio, e contra o Egito, em 6 de junho, já nos Estados Unidos. O Brasil abre a Copa no dia 13 de junho diante de Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova York — e é nessa data que João Pedro, Andrey Santos e Pedro saberão, de camarote, se a aposta de Ancelotti valeu o preço que custou a eles.









