O calor sufocante de Accra ainda pairava no ar quando a notícia chegou. Dominic Frimpong, meio-campista de apenas 20 anos, não voltaria mais para casa. O jovem talento ganês foi morto durante um brutal ataque armado ao ônibus que transportava sua equipe pelas estradas do país, segundo informou a Associação de Futebol de Gana (GFA) na segunda-feira.

A violência explodiu de forma súbita na estrada. Os ladrões interceptaram o veículo da equipe e abriram fogo, transformando uma viagem rotineira em tragédia. Frimpong, que sonhava em jogar na Europa, teve sua carreira ceifada antes mesmo de desabrochar completamente no futebol profissional ganês.

A onda de terror que assombra o futebol africano

Este não é um caso isolado. O continente africano vive uma epidemia silenciosa de violência contra atletas que raramente ganha as manchetes internacionais. Em 2019, o pai de Sadio Mané foi sequestrado no Senegal por criminosos que exigiam resgate milionário do astro do Liverpool na época.

Na Líbia, jogadores da seleção nacional já relataram ameaças de morte após eliminações em competições continentais. O clima de tensão é tão intenso que alguns atletas líbios chegaram a abandonar a carreira por medo. A instabilidade política do país transformou o futebol em alvo fácil para grupos armados.

No Egito, casos de agressões a jogadores após derrotas se tornaram comuns. Torcedores invadem concentrações de equipes e ameaçam atletas, forçando clubes a contratarem seguranças particulares. A situação se agravou após os protestos de 2011, quando a segurança pública entrou em colapso.

África do Sul e o rastro de violência nos estádios

A África do Sul, mesmo sendo uma das economias mais desenvolvidas do continente, não escapa da violência. Em 2021, jogadores do Orlando Pirates foram atacados a tiros após uma partida em Soweto. Três atletas ficaram feridos, e um quase perdeu a vida.

Os ataques se estendem além dos gramados. Ônibus de equipes sul-africanas são frequentemente alvos de assaltos nas estradas entre cidades. A Pirates FC teve que instalar vidros blindados em seus veículos após uma série de ataques em 2020.

No Zimbábue, a situação econômica desesperadora levou ao surgimento de quadrilhas especializadas em sequestrar jogadores. O meio-campista Tatenda Mukuruva foi mantido em cativeiro por uma semana em 2022, sendo liberado apenas após o pagamento de resgate por parte de seu clube.

As raízes profundas de um problema sistêmico

A violência contra atletas africanos reflete problemas estruturais mais amplos. A pobreza extrema, a falta de oportunidades e a percepção de que jogadores de futebol são alvos fáceis criam um ambiente propício para crimes.

Federações nacionais operam com orçamentos limitados para segurança. Enquanto clubes europeus gastam milhões em proteção para seus jogadores, equipes africanas mal conseguem pagar salários em dia. O resultado são atletas expostos, vulneráveis a ataques durante viagens e concentrações.

A FIFA tem conhecimento da situação, mas suas ações se limitam a recomendações vagas sobre segurança. Não há um protocolo específico para proteger jogadores em países de alto risco, nem fundos destinados a melhorar a infraestrutura de segurança no futebol africano.

O caso de Dominic Frimpong serve como um alerta brutal sobre a necessidade urgente de medidas concretas. A Confederação Africana de Futebol (CAF) anunciou que discutirá protocolos de segurança em sua próxima reunião, marcada para março de 2025, mas muitos questionam se será tarde demais para outros jovens talentos.