A bola sobrou na entrada da área e John Kennedy não hesitou. Bateu de primeira, a bola desviou na marcação argentina e morreu no fundo da rede de Bolcato — 1 a 1, aos 46 minutos do segundo tempo, no Malvinas Argentinas, em Mendoza. Só na sequência o cenário ficou claro para quem assistia: o Fluminense havia acabado de salvar um ponto que, neste momento da tabela, pode valer uma sobrevivência.
O que os números dizem sobre John Kennedy em 2026
Não é a primeira vez que o camisa 9 tricolor opera esse tipo de salvamento. Este foi o segundo gol de John Kennedy nos acréscimos na temporada 2026 — um padrão que começa a ganhar contornos de identidade. O atacante, herói da final da Libertadores de 2023 contra o Boca Juniors, parece ter desenvolvido uma relação particular com o injury time: ele aparece quando o relógio já está contra o time.
No Grupo C da competição, o Fluminense soma agora dois pontos em quatro rodadas — lanterna absoluta da chave. O Independiente Rivadavia, que abriu o placar com Alex Arce aos 20 minutos do segundo tempo após cobrança de escanteio de Gómez, chegou a 10 pontos e garantiu classificação antecipada às oitavas de final. O empate simultâneo entre Deportivo La Guaira e Bolívar (1 a 1, na Venezuela) manteve os bolivianos em segundo, com cinco pontos, e os venezuelanos em terceiro, com três — o que significa que o Flu está a três pontos do G-2 faltando apenas duas rodadas.
"Um atacante que decide nos acréscimos é um atacante que entende o peso do momento — isso não se treina, se tem ou não se tem", observou um comentarista esportivo durante a transmissão ao vivo da partida.
Uma noite de posse estéril e bolas paradas argentinas
O Fluminense controlou a bola no primeiro tempo — chegou a registrar 73% de posse — mas não converteu esse domínio territorial em chances reais. O Rivadavia, por sua vez, funcionou como bons times argentinos costumam funcionar: confortável no pressing médio, letal nas bolas paradas. Aos 11 minutos, Arce já havia acertado o travessão de Fábio de cabeça. O goleiro tricolor ainda precisou fazer ao menos duas defesas de alta dificuldade antes do intervalo, incluindo uma cabeçada à queima-roupa de Florentín.
Há algo de muito familiar nesse padrão para quem acompanhou o futebol europeu recentemente. O Rivadavia joga com uma clareza tática que lembra os times de Simeone no Atlético de Madrid — não o gegenpressing de alta intensidade do Klopp, mas aquele bloco baixo-médio que sufoca o adversário nas transições e explora bola parada com precisão cirúrgica. O Fluminense de Zubeldía, ao contrário, teve 73% da bola sem criar perigo real, o que no vocabulário tático europeu se chama simplesmente de sterile possession.
Na segunda etapa, Zubeldía promoveu entradas decisivas: Soteldo, Alisson, John Kennedy e Kevin Serna. A mudança alterou o perfil ofensivo do time. Soteldo passou a levar vantagem na ponta, empurrando o Rivadavia para trás, e criou o ambiente de pressão que resultou na sobra aproveitada por Kennedy. Antes do gol do empate, Canobbio desperdiçou chance cara a cara com o goleiro aos 32 minutos, e Costa ainda acertou o travessão tricolor aos 35, quase decretando a derrota.
O que o Fluminense precisa para ainda avançar
A matemática ainda permite a classificação, mas exige combinações que qualquer torcedor tricolor preferiria não depender. Com dois pontos e duas rodadas restantes, o Fluminense precisa vencer as duas partidas que faltam e torcer por tropeços do Bolívar — que está em segundo com cinco pontos — e do La Guaira, terceiro com três. A margem para erro é zero.

Lucho Acosta, que retornou de lesão no joelho para este jogo e foi o autor de quase todas as jogadas criativas do Fluminense segundo o relato do Lance!, representa a principal boa notícia da noite. O meia argentino deu ao time uma conexão entre linhas que estava ausente nas rodadas anteriores, e sua presença muda a leitura tática de Zubeldía para os próximos jogos. Martinelli segue lesionado e Bernal cumpriu suspensão — variáveis que pesaram na construção do time diante do Rivadavia.
Antes de pensar na Libertadores, o Fluminense volta ao Brasileirão. O time de Zubeldía, terceiro colocado na liga nacional, recebe o Vitória no sábado (9), às 18h (de Brasília), no Maracanã. Vale marcar na agenda — a forma como o Flu entra nesse jogo, especialmente com Lucho Acosta disponível, vai dizer muito sobre o estado real do elenco antes das rodadas decisivas na Libertadores.









