Quantos laterais-esquerdos do futebol brasileiro conseguem combinar volume ofensivo com solidez defensiva a ponto de entrar no radar de Carlo Ancelotti para uma Copa do Mundo? A pergunta parece simples, mas a resposta revela por que o nome de Kaiki, 22 anos, apareceu na pré-lista da Seleção Brasileira — ao lado de outros três cruzeirenses — para os jogos de setembro contra Chile e Bolívia pelas Eliminatórias.

O Cruzeiro, que vive uma fase de reconstrução de identidade, pode ter no mesmo ciclo de convocações quatro representantes na Seleção principal: além de Kaiki, os nomes de Kaio Jorge, Matheus Pereira e Fabrício Bruno circulam na lista divulgada pelo portal ge. A convocação definitiva sai na tarde de segunda-feira, dia 25, na sede da CBF no Rio de Janeiro.

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O que Kaiki faz em campo que chamou atenção de Ancelotti

Quando avança pelo corredor esquerdo, Kaiki cria sobrecargas que forçam o adversário a tomar decisões ruins na linha de quatro. Quando recua para cobrir a transição, ele fecha os espaços com uma velocidade de posicionamento fora do comum para um jogador de 22 anos. Esse duplo papel — atacante disfarçado de lateral — é exatamente o perfil que o futebol moderno exige na posição.

Para entender o impacto dele em números, três métricas ajudam a montar o quadro:

  • Progressive passes (passes progressivos): são os passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário. Laterais ofensivos de elite costumam liderar esse índice no time. Kaiki está entre os mais ativos do Cruzeiro nessa categoria na temporada do Brasileirão 2026.
  • xA (expected assists): mede a qualidade das chances geradas por passe, independente de o companheiro converter. Um lateral com xA alto é aquele que cria oportunidades reais, não só cruza na área aleatoriamente. O número de Kaiki em bolas paradas e combinações de tabela tem chamado atenção dos analistas.
  • Defensive actions por 90 minutos: inclui desarmes, interceptações e duelos aéreos ganhos. Para Ancelotti, que valoriza laterais que não sacrificam o equilíbrio defensivo pelo avanço, esse dado é tão importante quanto os ofensivos.

Na avaliação do SportNavo, Kaiki se encaixa no modelo de lateral que Ancelotti testou com sucesso em times europeus: aquele que funciona como pulmão da equipe no corredor, subindo e descendo sem perder posicionamento tático.

A pré-lista e a concorrência imediata pela vaga em setembro

A lista definitiva com 23 jogadores será anunciada na segunda-feira (25), e Kaiki enfrenta concorrência direta de nomes mais experimentados na posição. Guilherme Arana e Abner Vinícius têm mais rodagem na Seleção principal, enquanto o cenário da Copa do Mundo de 2026 — a ser disputada nos Estados Unidos, México e Canadá — exige que Ancelotti já comece a testar alternativas com profundidade.

O que diferencia Kaiki na disputa é o histórico em seleções de base: ele foi campeão sul-americano Sub-20 em 2023, com cinco jogos sob o comando de Ramon Menezes. Na última partida do hexagonal final, entrou nos minutos finais e providenciou as duas assistências na vitória por 2 a 0 sobre o Uruguai, em Bogotá. Também esteve no Mundial Sub-20 em 2023. Não é um estreante no ambiente de seleção — ele conhece a pressão.

Fabrício Bruno, por sua vez, já esteve na primeira pré-lista de Ancelotti mas ficou de fora dos jogos contra Equador (0 a 0) e Paraguai (1 a 0) em junho. O zagueiro soma dois jogos pela Seleção principal, ambos com Dorival Júnior em 2024. Matheus Pereira tem uma partida pelo Brasil, também com Dorival. Kaio Jorge, assim como Kaiki, é novidade na pré-lista da equipe principal, mas carrega o título de campeão mundial Sub-17 em 2019, quando marcou cinco gols em sete jogos, incluindo um na final contra o México no Estádio Bezerrão.

Segundo o portal Central da Toca, o nome de Kaiki foi incluído na pré-lista por iniciativa da comissão técnica de Ancelotti, que monitorava o lateral desde o início da temporada no Cruzeiro.

O que muda no mapa da Seleção se Kaiki for convocado em setembro

O Brasil enfrenta o Chile no dia 4 de setembro, às 21h30, no Maracanã, e depois visita a Bolívia em El Alto no dia 9, às 20h30 (horário de Brasília). São as duas últimas rodadas das Eliminatórias — o Brasil já garantiu sua vaga no Mundial. Ancelotti, portanto, tem margem para testar peças sem o peso de um resultado eliminatório.

Esse contexto favorece exatamente o perfil de Kaiki. Uma convocação em setembro serve como laboratório antes da lista final da Copa, e um jogador que consegue acumular minutos contra Chile e Bolívia — times com características táticas bem distintas — sai com uma fotografia muito mais completa para a comissão técnica avaliar.

O PPDA (passes permitidos por ação defensiva) da Bolívia em El Alto, a quase 4.000 metros de altitude, tende a forçar os laterais a tomarem decisões mais rápidas com menos espaço — justamente o tipo de cenário que revela se um jogador jovem tem maturidade tática ou se ainda depende de contextos favoráveis para performar. A apresentação do grupo está marcada para 1º de setembro, na Granja Comary, em Teresópolis.