O que vale mais para Didier Deschamps — o potencial de um jogador de 22 anos ou a confiabilidade de um veterano que já ganhou tudo? A pergunta ficou no ar quando a lista dos 26 convocados da França para a Copa do Mundo apareceu nesta quinta-feira (14 de maio), e o nome de Eduardo Camavinga simplesmente não estava lá.
O volante do Real Madrid era considerado presença certa. Tinha espaço no ciclo, tinha qualidade reconhecida, tinha 22 anos e uma carreira ascendente. Mas também tinha um cartão vermelho no momento mais delicado possível — a eliminação dos Merengues para o Bayern de Munique nas quartas de final da Champions League — e uma temporada 2025/2026 que ficou abaixo do esperado na maioria dos indicadores.
Deschamps não precisou explicar muito. A convocação falou por si.
O que os dados de Camavinga dizem sobre a temporada que custou a Copa
Quando você analisa o PPDA (passes permitidos por ação defensiva) do Real Madrid nesta temporada, Camavinga aparece como um dos meias com menor taxa de pressão efetiva nos jogos em que atuou como titular. Isso significa que a equipe concedia mais passes ao adversário antes de recuperar a bola quando ele estava em campo — um indicador que Deschamps, sabidamente criterioso em dados de pressing, acompanha de perto.
Compara com Kanté, que voltou a ser convocado após um ciclo de baixa frequência. O meio-campista do Al-Ittihad tem métricas de defensive actions (desarmes + interceptações + pressões bem-sucedidas por 90 minutos) acima de 7,2 na temporada, número que rivaliza com meias defensivos da Premier League. Isso é o Kanté sendo Kanté — um motor de recuperação de bola que não depende de sistema tático para funcionar.
- Kanté (Al-Ittihad, 2025/2026): ~7,2 defensive actions/90min, alto volume de progressive passes curtos para transição
- Camavinga (Real Madrid, 2025/2026): temporada irregular, PPDA defensivo abaixo da média do elenco merengue, expulsão em jogo decisivo
seria injusto chamar de queda de rendimento — mas é uma queda em escala de Copa do Mundo, e isso muda tudo.
Mbappé e Dembélé lideram uma lista que mistura gerações
Kylian Mbappé e Ousmane Dembélé são os dois grandes nomes da convocação e também os únicos, ao lado de Lucas Hernández e N'Golo Kanté, que estiveram no elenco campeão mundial de 2018 na Rússia. São a memória viva de uma geração que Deschamps construiu há oito anos e que agora chega à sua última dança sob o comando do técnico — que anunciou que vai se aposentar após o torneio.
Rayan Cherki, de 22 anos, entra para sua primeira Copa após uma temporada de destaque no Manchester City. O atacante acumula xA (expected assists) acima de 0,25 por 90 minutos na Premier League, número que coloca ele entre os dez jogadores com maior criação de chances da liga inglesa nesta temporada. Désiré Doué, do PSG, e Michael Olise, do Bayern de Munique, completam um ataque com profundidade e variação real.
Jean-Philippe Mateta, do Crystal Palace, entrou na lista no lugar de Hugo Ekitike, que se lesionou. É o mesmo Mateta que ficou fora das últimas convocações — mas Deschamps preferiu um centroavante com perfil mais físico a arriscar em nomes menos testados.
A estreia contra o Senegal e o que muda nas próximas semanas
A França estreia na Copa do Mundo no dia 16 de junho contra o Senegal, no MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey. O Grupo I tem ainda Iraque e Noruega — um grupo gerenciável no papel, mas que exige consistência de um time que ainda precisa calibrar o meio-campo sem Camavinga.
Aurélien Tchouameni estará disponível apesar do recente desentendimento com Federico Valverde no Real Madrid. Com ele, Kanté e Warren Zaïre-Emery, Deschamps tem três perfis distintos no meio: o destruidor clássico, o box-to-box jovem e o armador de transição. A ausência de Camavinga fecha uma opção de progressão de bola — seus progressive passes (passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário) eram um dos pontos fortes do Real Madrid quando ele estava em ritmo.

No gol, Robin Risser, do Lens, foi convocado como terceiro goleiro após a lesão de Lucas Chevalier, do PSG. Hugo Lloris chegou a se oferecer para voltar, mas Deschamps não abriu essa porta.
Segundo o técnico Deschamps, a lista reflete o que ele observou ao longo dos últimos meses de competição, priorizando jogadores que mostraram consistência e comprometimento nas datas-Fifa anteriores.
Antes da estreia, a França ainda disputa dois amistosos de preparação. Tempo curto para ajustar o meio-campo e definir quem joga ao lado de Tchouameni na fase de grupos. É o mesmo cenário que a seleção francesa viveu em 2018, quando Deschamps precisou encaixar peças novas às vésperas do torneio — só que agora a aposta é diferente: menos jovens desconhecidos, mais veteranos de confiança, e uma geração que sabe o peso de chegar à final e perder nos pênaltis.









