A International Board (Ifab), órgão responsável pelas regras do futebol mundial, realiza nesta terça-feira (27) uma reunião extraordinária em Vancouver, no Canadá, para votar uma das propostas antiracismo mais concretas já apresentadas ao esporte: a possibilidade de árbitros expulsarem jogadores que cobrirem a boca com a intenção de ofender adversários em campo. A medida, já apelidada de "Lei Vini Jr", tem tendência de aprovação e pode entrar em vigor a tempo da Copa do Mundo de 2026, realizada nos Estados Unidos, Canadá e México a partir de junho.

O que muda com a nova regra

A proposta em análise pela Ifab torna passível de expulsão imediata o gesto de cobrir a boca com a mão ou com a camisa antes de proferir ofensas a outro atleta. O objetivo é eliminar uma brecha que permitia que jogadores dissimulassem insultos raciais diante de câmeras e árbitros sem enfrentar punição disciplinar em campo. Até então, episódios dessa natureza dependiam de investigações posteriores por parte das federações, um processo lento que frequentemente resultava em suspensões aplicadas semanas após o incidente — sem impacto imediato na partida em que a ofensa ocorreu.

A Ifab é composta pelas quatro associações britânicas fundadoras — Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, cada uma com um voto — e pela própria Fifa, que detém quatro votos. Para que qualquer mudança nas Leis do Jogo seja aprovada, é necessário três quartos dos votos totais, ou seja, seis dos oito disponíveis. A Fifa foi a responsável por pressionar pela antecipação do debate, que originalmente seria pautado apenas na assembleia ordinária da entidade.

O episódio que motivou a proposta

O caso que deu origem ao apelido popular da regra aconteceu há aproximadamente dois meses, no Estádio da Luz, em Lisboa, durante partida entre Benfica e Real Madrid pela UEFA Champions League. O atacante argentino Prestianni, do Benfica, teria se aproximado de Vinicius Jr., camisa 7 do Real Madrid, cobrindo a boca com a própria camisa antes de proferir o que o brasileiro acusa ter sido uma ofensa racial — a palavra "macaco". O árbitro foi acionado imediatamente por Vinicius Jr., mas não havia instrumento regulamentar para uma punição instantânea em campo.

O que muda com a nova regra Lei Vini Jr pode mudar para sempre o com
O que muda com a nova regra Lei Vini Jr pode mudar para sempre o com
"Ele me chamou de macaco", declarou Vinicius Jr. após a partida, acusando diretamente Prestianni e cobrando providências das autoridades do futebol europeu.

A Uefa investigou o caso e aplicou seis jogos de suspensão a Prestianni — punição considerada severa para os padrões históricos da entidade europeia, mas que não impediu a ofensa de ocorrer dentro das quatro linhas sem consequência imediata. O episódio reacendeu o debate sobre a insuficiência das ferramentas disponíveis aos árbitros para coibir o racismo durante as partidas.

Pressão da Fifa e urgência para a Copa

A convocação de uma reunião extraordinária — algo incomum na estrutura da Ifab — evidencia a pressão exercida pela Fifa para que a mudança seja implementada antes do torneio mais assistido do planeta. Com a Copa do Mundo de 2026 marcada para iniciar em junho nos Estados Unidos, o prazo para aprovação, regulamentação e treinamento dos árbitros sobre a nova regra é estreito, mas viável caso a votação desta terça-feira seja favorável.

O episódio que motivou a proposta Lei Vini Jr pode mudar para sempre o com
O episódio que motivou a proposta Lei Vini Jr pode mudar para sempre o com
Segundo apuração do SportNavo, fontes ligadas à Fifa indicam que a entidade máxima do futebol quer que árbitros tenham instrumentos claros para agir em tempo real, sem depender exclusivamente de comissões disciplinares pós-jogo para punir condutas racistas.

A análise do SportNavo mostra que a proposta representa uma virada de paradigma: historicamente, o futebol tratou o racismo como questão extraesportiva, delegando investigações a comitês afastados do campo. A "Lei Vini Jr" insere o árbitro como primeiro agente de resposta, transformando o combate ao preconceito em parte integrante do regulamento da partida — não uma consequência administrativa posterior.

Impacto esperado no combate ao racismo

Especialistas em direito esportivo apontam que a efetividade da nova regra dependerá de três fatores: a clareza dos critérios para que o árbitro reconheça a intenção ofensiva do gesto, o treinamento específico dos quadros de arbitragem em todo o mundo e a uniformidade de aplicação entre diferentes confederações e ligas nacionais. A FIFA já havia promovido campanhas como o protocolo de três etapas para casos de racismo nas arquibancadas — que prevê advertência, suspensão temporária e abandono da partida —, mas nenhum mecanismo semelhante existia para ofensas entre jogadores dentro de campo.

A reunião da Ifab em Vancouver ocorre na tarde desta terça-feira (27), com resultado esperado ainda no mesmo dia. Caso aprovada, a nova regra seguirá para fase de regulamentação técnica pela Fifa, com publicação oficial das diretrizes de aplicação antes do início da Copa do Mundo, em junho de 2026.