A rivalidade entre Palmeiras e Flamengo saiu dos gramados e invadiu as salas de reunião do futebol brasileiro com uma intensidade raramente vista na gestão dos clubes. Em entrevista ao podcast oficial do Palmeiras, divulgada nesta sexta-feira (1º de maio), a presidente Leila Pereira não poupou palavras: chamou Luiz Eduardo Baptista, o Bap, de obcecado pelo clube alviverde, ironizou o Flamengo com referências ao Real Madrid, ao Barcelona e ao Manchester City, e confirmou que o Palmeiras estuda deixar a Libra — o bloco que reúne os maiores clubes do país para negociar direitos de transmissão.
A 'alucinação' que Leila não quer mais engolir
Bap acumula críticas públicas ao gramado sintético da arena palmeirense há meses. Leila respondeu com precisão cirúrgica, citando os R$ 67,2 milhões que o Verdão arrecadou com jogos no estádio, hoje em processo de renomeação para Nubank Arena. Para ela, as críticas ao piso têm um objetivo claro: desmontar o modelo de negócio que sustenta boa parte da receita do clube.
"Nosso gramado não é plástico, Bap, é sintético, e é um gramado melhor que a grande maioria do futebol brasileiro. Ele dá o exemplo que 'ah, nas principais ligas não existe gramado sintético, é um absurdo'... mas, nas principais ligas, os direitos de transmissão são distribuídos de uma forma extremamente igualitária", disparou Leila Pereira.
A ironia embutida na fala da presidente é cirúrgica: Bap invoca a Premier League quando a pauta é o gramado sintético, mas recusa o mesmo modelo inglês — de distribuição igualitária das receitas de TV — quando a conversa gira para os contratos de transmissão. O novo acordo da Libra, segundo apuração do SportNavo, fará o Flamengo receber cerca de R$ 30 milhões a mais do que os demais clubes do bloco, desequilíbrio que está no centro da insatisfação palmeirense.
Libra na berlinda e o modelo que o Palmeiras não aceita
A possível saída do Palmeiras da Libra não é capricho: é uma resposta estrutural a um arranjo financeiro que o clube enxerga como prejudicial ao seu tamanho e à sua capacidade de geração de receita própria. O Verdão foi um dos protagonistas na criação do bloco, justamente com a promessa de que os grandes poderiam negociar coletivamente em melhores condições do que isolados. Quando o modelo beneficia desproporcionalmente o concorrente direto na briga pelo topo do futebol nacional, a equação muda.
"Na verdade, o que ele quer é tirar o nosso modelo de negócio, que ele sabe qual é, para enfraquecer o Palmeiras. Ele sabe que o Palmeiras é o clube que rivaliza com o Flamengo. Eu gostaria que não fosse só o Palmeiras, que outros clubes tivessem a força do Palmeiras, do Flamengo, que estão nessa posição por mérito", afirmou Leila.
A lógica financeira do Palmeiras é robusta. O modelo de arena própria — com naming rights milionários, shows e eventos corporativos — gerou R$ 67,2 milhões apenas em receita de jogos ao longo de 2025. Abrir mão do gramado sintético, que viabiliza a cessão do espaço para shows sem destruir o piso, significaria perder parcela relevante dessa receita. O Flamengo, que realiza shows no Maracanã, não sofre o mesmo problema porque não é proprietário do estádio — e Leila não deixou essa ironia passar despercebida, provocando diretamente o rival pela utilização do gramado carioca em eventos musicais.
Real Madrid, Barcelona e City juntos no Maracanã
O tom mais provocativo da entrevista veio quando Leila abordou a percepção de que Bap frequentemente evoca o tamanho e a grandeza do Flamengo para justificar tratamento diferenciado nas negociações coletivas do futebol brasileiro.
"Então, quando interessa, temos que seguir a Premier League. Quando não interessa, como direitos de transmissão, aí não pode ser que nem a Premier League, porque o Flamengo é a mistura do Real Madrid, Barcelona e City. Todos juntos é o Flamengo. É um absurdo essa perseguição, e sem comprovação científica nenhuma", completou a presidente palmeirense.
A ironia funciona como argumento: se o Flamengo é comparável à soma de três das maiores marcas do futebol mundial, a exigência por regras de distribuição assimétricas seria equivalente a permitir que Real Madrid, Barcelona e Manchester City negociassem sozinhos os contratos de TV da Premier League — algo que a liga inglesa jamais aceitou e que é, precisamente, um dos pilares da competitividade do campeonato britânico.
O que muda se o Palmeiras realmente sair da Libra
A análise do SportNavo aponta que uma eventual saída palmeirense da Libra reabriria a guerra dos direitos de transmissão no Brasil, obrigando emissoras e plataformas de streaming a renegociar acordos que hoje envolvem pacotes com os maiores clubes do país. O Palmeiras, com uma arena moderna, uma fanbase crescente e receitas que superam R$ 1 bilhão anuais nos últimos balanços, teria poder de barganha individual considerável. O próximo capítulo dessa disputa tem data marcada: a reunião formal da Libra, prevista para as próximas semanas, em que o Palmeiras deverá apresentar oficialmente sua posição sobre a permanência no bloco.









