O Maracanã estava cheio, o adversário recuado, e o meia com a camisa 20 recebia a bola no espaço entre as linhas — exatamente onde sempre foi mais perigoso. Não era a primeira vez naquela partida, e o desfecho seria o mesmo: a jogada morreu antes da área. Lucas Paquetá completou mais um jogo sem gol na temporada 2026 do Flamengo.

Três gols e duas assistências em 31 jogos pelo Brasileirão Série A: o número não é catastrófico para um meia de construção, mas é insuficiente para um jogador que, em 2018, venceu o Troféu Bola de Prata da ESPN, o Troféu Mesa Redonda e o Prêmio Craque do Brasileirão como melhor meia do campeonato — tudo na mesma temporada, no mesmo clube.

O que ele ainda não resolveu

A inconsistência ofensiva é o nó. Em 244 jogos de carreira, Paquetá acumula 48 gols e 30 assistências — uma média de 0,32 participações diretas por partida, número razoável para um meia europeu de segundo plano, mas aquém do que se esperava de quem foi eleito o melhor da posição no Brasil aos 21 anos.

Na Premier League com o West Ham, as temporadas de 4 gols em 33 jogos (2024) e 4 gols em 31 jogos (2023) consolidaram um padrão: Paquetá aparece, conecta, distribui — mas raramente decide. A Liga Conferência Europa da UEFA de 2022-23, conquistada com o West Ham, foi o único momento em que o coletivo cobriu essa lacuna individual de forma consistente.

O retorno ao Flamengo não reverteu o quadro. Na temporada atual, são 3 gols em 31 partidas — proporcionalmente abaixo do pico de 2018 e do que o clube precisa de um meia titular que ocupa espaço de criação central. Como dizem no futebol brasileiro, adaptando um ditado antigo: quem não tem cão caça com gato, e o Flamengo tem tentado redistribuir responsabilidade ofensiva para compensar o que Paquetá ainda não entrega em volume de gols.

Onde está hoje em relação a esse buraco

Paquetá tem 28 anos — idade em que meias de elite costumam atingir o pico de maturidade tática e física. A janela não está fechada, mas está se estreitando.

No contexto do Flamengo em 2026, o cenário é delicado. A comissão técnica perdeu quatro meias para o clássico contra o Vasco em maio, conforme noticiado, o que reposicionou Paquetá como peça ainda mais central no sistema — e expôs com mais clareza o que falta: finalização e chegada à área com frequência.

Em termos de valor de mercado, um meia de 28 anos com passagens por Milan, Lyon e West Ham, Campeonato Carioca de 2026 no currículo recente e Copa América de 2019 pela Seleção Brasileira ainda sustenta cotação relevante. O problema é que o ativo perde liquidez a cada temporada abaixo da expectativa gerada em 2018.

O que ele ainda não resolveu Lucas Paquetá e o gol que ainda não cheg
O que ele ainda não resolveu Lucas Paquetá e o gol que ainda não cheg

A comparação com pares na mesma posição no Brasileirão aprofunda o diagnóstico: meias que acumulam mais participações diretas em gols nesta temporada geralmente operam com mais liberdade para avançar ou têm funções táticas explicitamente voltadas ao último terço. Paquetá oscila entre os dois papéis sem se firmar em nenhum.

O caminho técnico para tapá-lo

Há três variáveis controláveis que determinam se Paquetá consegue elevar sua produção ofensiva nos próximos meses.

  • Definição de função: Paquetá rende mais como meia de segundo plano que adentra a área em movimentos de terceiro homem — não como organizador estático. A comissão técnica precisa formalizar essa escolha tática.
  • Volume de chegadas: nas temporadas europeias, os gols vieram em clusters — períodos de alta frequência seguidos de silêncio. Regularizar esse volume passa por mais finalizações por jogo, não por qualidade de chute.
  • Posicionamento em bola parada: com 180 cm e boa capacidade de leitura de jogo, Paquetá subutiliza escanteios e faltas laterais como fonte de gol — área em que meias de perfil semelhante na Série A têm explorado com mais eficiência.

O Campeonato Carioca de 2017, conquistado ainda como jovem, e o título de 2026, já como jogador maduro, mostram que Paquetá sabe como vencer — a questão é se consegue transferir esse histórico para números de produção individual que justifiquem seu peso salarial e sua centralidade tática.

O que isso destrava na carreira

Se Paquetá resolver a equação ofensiva no segundo semestre de 2026, o impacto vai além do Flamengo. A Seleção Brasileira observa — e um meia de 28 anos com histórico europeu e Copa América no currículo, produzindo 8 a 10 participações diretas em gols por temporada, voltaria a ser candidato real à convocação.

Do ponto de vista financeiro, uma temporada completa acima de 8 gols mais assistências reposicionaria o valor de mercado de Paquetá e abriria negociações — seja por renovação no Flamengo com revisão salarial, seja por uma janela europeia em 2027, quando o jogador ainda estará em idade comercializável para clubes de médio porte do continente.

A aritmética é simples: cada gol que não sai em 2026 é uma linha a menos no relatório de valorização. E Paquetá, mais do que qualquer outro jogador do elenco rubro-negro, sabe exatamente quanto custa uma temporada desperdiçada — ele já viveu o lado oposto, em 2018, quando tudo entrou na conta certa.

O Maracanã estava cheio, o adversário recuado, e o meia com a camisa 20 recebia a bola no espaço entre as linhas — exatamente onde sempre foi mais necessário.