Seis jogos. Essa é a punição que a Uefa considerou suficiente para responder a um ato de discriminação racial contra Vinicius Júnior, atacante do Real Madrid e da seleção brasileira. O número irritou torcedores, especialistas — e, principalmente, Luisão, lenda do Benfica e um dos maiores zagueiros da história do futebol português. O ex-capitão das águias foi às redes sociais para dizer o que muitos pensam: a sanção é branda demais e o recado que fica é o pior possível.
O que aconteceu em fevereiro e o que a Uefa decidiu
O episódio tem data marcada: fevereiro, durante uma partida da Champions League. O argentino Gianluca Prestianni, atacante do Benfica, foi acusado de conduta discriminatória contra Vinicius Jr. A Uefa abriu processo, investigou e chegou ao veredicto: seis jogos de suspensão em competições organizadas pela entidade europeia — sejam de clubes ou de seleções. O detalhe que fez o caso ganhar outra dimensão está no formato da pena: apenas três jogos de cumprimento imediato, com os outros três suspensos por um período probatório de dois anos. A sanção já desconta uma suspensão provisória que Prestianni já havia cumprido durante os playoffs da competição.
Na avaliação do SportNavo, o mecanismo probatório transforma metade da punição em letra morta — Prestianni, na prática, pode nunca cumprir esses três jogos restantes se não reincidir, o que esvazia significativamente o peso da sanção.
A voz de Luisão e o peso das palavras
Poucos têm mais autoridade para falar pelo Benfica do que Luisão. O zagueiro brasileiro defendeu o clube da Luz por 13 temporadas e é tratado como ídolo absoluto em Lisboa. Desde que o caso estourou, em fevereiro, ele foi um dos primeiros a sair em defesa de Vinicius Jr. — posição que gerou insatisfação entre parte da torcida do Benfica, clube que representa o outro lado dessa história.
"Uma fala que antes era negada passa a ser admitida, mas em outro contexto, e convenientemente se enquadrando em outro tipo de ofensa… Isso, por si só, levanta questionamentos. Não sobre o que pode ser provado, mas sobre o que estamos dispostos a aceitar", escreveu Luisão nas redes sociais.
O ex-zagueiro não parou aí. Com a frieza de quem conhece os bastidores do futebol europeu — e a temperatura das negociações institucionais —, ele foi direto ao ponto sobre o que a decisão da Uefa comunica ao mundo do esporte.
"No fim das contas, o recado que fica é perigoso. Parece que, dependendo do caminho escolhido, sempre existe uma forma de amenizar as consequências, que deveriam ser duras e exemplares. E isso não pode ser normalizado", afirmou.
Por que seis jogos não assustam ninguém
O futebol europeu tem histórico de punições tímidas em casos de racismo. A Uefa já aplicou multas irrisórias a federações por comportamento discriminatório de torcidas inteiras — valores que grandes clubes cobrem com uma fração da receita de um único jogo. No caso Prestianni, a suspensão de seis partidas, com metade em regime probatório, segue essa tradição de sanções que não funcionam como verdadeiro fator de dissuasão.
Comparando com outros casos: o atacante Luis Suárez foi suspenso por oito jogos pela FA inglesa em 2011 após ato racista contra Patrice Evra, e a pena foi amplamente criticada como insuficiente à época. Mais de uma década depois, a régua da Uefa para Prestianni ficou abaixo até desse precedente controverso — e sem qualquer multa financeira de peso divulgada publicamente.
O levantamento do SportNavo mostra que, em nenhum dos casos de racismo julgados pela Uefa nos últimos cinco anos, um jogador individualmente recebeu suspensão superior a dez partidas em competições europeias. O padrão, portanto, não é uma exceção — é uma política.
Vinicius Jr. no centro do debate que não cala
Vinicius Júnior virou o rosto mais visível da luta contra o racismo no futebol mundial. O atacante do Real Madrid e da seleção brasileira já sofreu episódios de discriminação em estádios espanhóis, franceses e agora em campo europeu. Cada novo caso reacende o debate sobre a eficácia das punições institucionais — e cada punição branda reforça a percepção de que as entidades do futebol ainda não tratam o racismo com a seriedade que o crime exige.
A Uefa, como entidade máxima do futebol europeu, tem o poder de criar precedentes que reverberam nas ligas nacionais, nos clubes e, acima de tudo, nos jogadores que assistem ao desfecho desses processos. Quando a punição é de três jogos efetivos para um ato discriminatório confirmado, o sinal emitido alcança vestiários em toda a Europa — e ele não é o que Luisão, Vinicius ou qualquer defensor da igualdade racial queria ouvir.
Prestianni segue à disposição do Benfica para o Campeonato Português, competição que não está sob jurisdição da Uefa e, portanto, não é afetada pela suspensão. O clube de Lisboa retorna à Champions League na temporada seguinte, quando a punição será retomada caso o atacante ainda esteja no elenco — e é exatamente nesse momento que os três jogos probatórios voltarão à pauta.









