Três números, três problemas: R$ 727 milhões que o Lyon afirma ter a receber, R$ 496 milhões que o próprio clube francês já deu como perdidos e R$ 137 milhões que a Justiça do Rio mandou o Lyon pagar ao Botafogo. Tudo isso dentro do mesmo grupo empresarial, sob o mesmo teto da Eagle Football Holdings. Entender o imbróglio exige voltar a um episódio recente que guarda semelhanças perturbadoras com o atual.

O precedente que ninguém quer lembrar na Eagle Football

Quando John Textor assumiu o controle do Botafogo em 2022 e formalizou a SAF alvinegra, a promessa era de integração financeira inteligente entre os clubes do grupo — Botafogo, Lyon, Crystal Palace e RWD Molenbeek. O modelo era simples no papel: os clubes se apoiariam mutuamente em operações de crédito, transferências e garantias. O que o relatório financeiro do Olympique Lyonnais, divulgado nesta terça-feira (12), revelou é que esse modelo virou um labirinto de dívidas cruzadas sem registro formal.

O precedente que ninguém quer lembrar na Eagle Football Lyon diz que o Botafogo
O precedente que ninguém quer lembrar na Eagle Football Lyon diz que o Botafogo

Não é a primeira vez que um grupo multifranquia enfrenta colapso de governança entre clubes coirmãos. O caso City Football Group já viveu tensões semelhantes em 2018, quando o Melbourne City acumulou passivos repassados sem aprovação do conselho central. A diferença agora é que o volume é dramaticamente maior — e as partes estão se processando mutuamente na Justiça.

O que o balanço do Lyon realmente diz sobre o Botafogo

O relatório financeiro do Lyon referente à temporada 2025/26 registra um prejuízo total de 186,5 milhões de euros — cerca de R$ 1 bilhão na cotação atual. Dentro desse rombo, o clube francês destaca 126,2 milhões de euros (R$ 727 milhões) em créditos a receber classificados como "perdas por impairment" diretamente associadas ao risco de inadimplência do Botafogo.

"A depreciação, a amortização e provisões líquidas totalizaram €158,6 milhões em 31 de dezembro de 2025, incluindo, em particular, um total de €126,2 milhões em perdas por impairment sobre créditos a receber relacionados ao risco de inadimplência identificado em partes relacionadas", afirma o documento do Lyon.

Desse total de R$ 727 milhões, o próprio Lyon já contabilizou uma depreciação de 86 milhões de euros — aproximadamente R$ 496 milhões — por entender que a recuperação integral é improvável no curto prazo. Para se ter dimensão da escala: a diferença entre o valor nominal da dívida e o que o Lyon espera recuperar é da ordem de R$ 231 milhões, algo como a distância rodoviária entre Recife e João Pessoa multiplicada em reais — uma brecha pequena no mapa, mas enorme nas finanças do clube europeu.

Textor no centro das acusações e as garantias emitidas sem aviso

O ponto mais grave do relatório não é o tamanho da dívida, mas a forma como ela teria sido constituída. O Lyon acusa John Textor de ter emitido garantias em nome da Eagle Football Group e da subsidiária OL SASU — ou seja, usando o clube francês como fiador — sem comunicar previamente a diretoria europeia. Essas operações teriam ocorrido entre agosto de 2023 e abril de 2025 e servido para cobrir obrigações assumidas tanto pelo Botafogo quanto pelo RWD Molenbeek.

"O Grupo descobriu recentemente que terceiros estavam acionando garantias concedidas, entre agosto de 2023 e abril de 2025, pela Companhia ou por sua subsidiária OL SASU, assinadas por John Textor, para cobrir obrigações assumidas pelos clubes Botafogo e Molenbeek", detalha o documento.

O Lyon ainda ressalta que essas operações não apareceram em demonstrações financeiras anteriores justamente porque o clube não tinha ciência de sua existência. Esse tipo de movimentação — garantias emitidas por uma entidade sem registro formal nas demonstrações contábeis — é exatamente o que auditores classificam como passivo contingente oculto, e representa risco sistêmico para qualquer grupo empresarial.

A SportNavo apurou que o padrão de garantias cruzadas sem governança centralizada é o nó central que dificulta qualquer acordo extrajudicial entre as partes neste momento.

A decisão judicial que virou o tabuleiro

Enquanto o Lyon contabilizava seus créditos contra o Botafogo, a Justiça carioca caminhava em sentido oposto. No dia 22 de abril, o juiz Leonardo de Castro Gomes, da 17ª Vara Cível da Comarca da Capital do Rio de Janeiro, determinou que o Lyon pagasse R$ 137.899.307,00 à SAF do Botafogo. O prazo estabelecido foi de 15 dias para que o clube francês apresentasse eventuais embargos — condicionados ao depósito prévio de ao menos 30% do valor da execução, acrescido de custas e honorários advocatícios.

O Lyon, por sua vez, afirma não ter sido formalmente notificado da decisão até a publicação do relatório financeiro nesta terça-feira (12). "Além disso, há relatos de que o Botafogo iniciou um processo contra o OL perante o Tribunal do Rio de Janeiro, mas o Grupo não recebeu nenhuma notificação a esse respeito", consta no documento europeu. A declaração é relevante porque, se confirmada, pode suspender os prazos processuais enquanto a notificação não for formalizada.

O que o balanço do Lyon realmente diz sobre o Botafogo Lyon diz que o Botafogo d
O que o balanço do Lyon realmente diz sobre o Botafogo Lyon diz que o Botafogo d

O Botafogo, por sua vez, já havia acionado a Justiça do Rio para cobrar cerca de R$ 745 milhões do Lyon — valor que, somado à decisão de R$ 137 milhões já proferida, coloca o clube carioca em posição credora perante o próprio grupo que o controla. A situação cria um paradoxo societário raro: dois clubes do mesmo dono se enfrentando em tribunais de países diferentes, com decisões que apontam em direções opostas.

O próximo movimento processual decisivo é o prazo para os embargos do Lyon à decisão carioca — que, contados a partir da notificação formal, definirá se o clube francês terá de depositar parte do valor ou se o caso vai a uma nova fase de contestação. Com o Lyon registrando prejuízo de R$ 1 bilhão na temporada 2025/26 e o Botafogo acumulando um transfer ban ativo da Fifa que impede o registro de novos jogadores, as duas partes chegam a essa batalha judicial sem fôlego financeiro para um desgaste prolongado.

Nas salas dos tribunais, os documentos se empilham. Na Gare de Lyon, em Paris, um torcedor do OL olha para a tabela da Ligue 1 sem saber que o clube deve mais do que consegue cobrar — e que, do outro lado do Atlântico, o devedor já tem uma sentença a seu favor.