Diz-se que zagueiro com mais de 30 anos em clube de médio porte europeu está em modo de gerenciamento de carreira, acumulando minutos sem ambição ofensiva. Na verdade, não está — e Riyad Mahrez é o argumento mais incômodo contra essa narrativa na temporada 2025/2026 da Champions League.
O dado que ninguém olha mas explica tudo
Trinta e dois jogos, 11 gols, 13 assistências. Esses três números, juntos, formam uma cifra de 24 contribuições diretas para resultados — e estamos falando de um zagueiro de 35 anos atuando pelo Olympiakos Piraeus. Para colocar em perspectiva: Baresi, no auge de sua fase ofensiva no Milan dos anos 80, raramente ultrapassava 5 gols por temporada, e ele era considerado um dos zagueiros mais completos da história. Franco Baresi era um fenômeno — Mahrez está produzindo quase cinco vezes mais em termos de participações ofensivas diretas. A diferença numérica entre o que se espera de um defensor e o que Mahrez está entregando é, sem exagero, da magnitude da distância entre Manaus e Salvador: são universos que o mapa coloca no mesmo país, mas que na prática funcionam por lógicas completamente distintas.
A média de 0,75 contribuições diretas por jogo coloca o argelino em território que nem os melhores líberos italianos dos anos 90 — Alessandro Costacurta, Aldair, Fabio Cannavaro — sequer tangenciavam. E aí vem o problema…
Como ele chega a esse número
Nascido em 21 de fevereiro de 1991, Mahrez completou 35 anos neste início de 2026 e carrega no físico — 181 cm, 66 kg — um perfil que não é o do zagueiro-torre convencional. Essa leveza estrutural, que em outro contexto poderia ser lida como vulnerabilidade no jogo aéreo, parece ser exatamente o que permite ao argelino operar com uma mobilidade atípica para a posição. No futebol europeu, os ciclos de hegemonia defensiva sempre oscilaram entre dois arquétipos: o marcador físico, que domina pelo corpo, e o leitor de jogo, que domina pela antecipação. Mahrez parece ter encontrado um terceiro caminho — o do zagueiro que participa da construção com a mesma intensidade com que participa da destruição.
Jogando com a camisa 45 no Olympiakos, ele acumula nesta temporada uma média de gol a cada 2,9 jogos. Para um defensor central, esse número seria extraordinário em qualquer liga europeia — na Premier League dos anos 2000, Tony Adams e Sol Campbell juntos raramente chegavam a 10 gols numa temporada inteira. No Olympiakos de 2025/2026, Mahrez está fazendo isso sozinho, com folga. A questão técnica central é: como? A resposta mais honesta disponível nos dados é que ele está sendo utilizado de uma forma que transcende a definição clássica da posição — participando de jogadas ofensivas com uma frequência que sugere um papel tático híbrido dentro do sistema do clube grego…
Os outros números que falam o mesmo idioma
As 13 assistências na temporada atual são o dado que talvez seja ainda mais revelador do que os gols. Assistência exige visão, timing de passe e, acima de tudo, presença constante em zonas de criação. Num contexto histórico: Dani Alves, lateral-direito considerado um dos mais ofensivos de todos os tempos, entregou 13 assistências na temporada 2015/2016 pelo Barcelona — e isso foi celebrado como uma performance excepcional para um defensor. Mahrez, como zagueiro, está no mesmo patamar nesta temporada. A Argélia produziu defensores de alto nível ao longo das décadas — Madjid Bougherra, Carl Medjani — mas nenhum com esse perfil de produção ofensiva consistente em competição europeia.
O número de jogos também importa: 32 partidas disputadas indicam uma presença regular no elenco, não um jogador que acumula estatísticas em aparições pontuais. É uma temporada de protagonista, não de coadjuvante aproveitando brechas. Quando se coloca esses três satélites — frequência de jogos, gols e assistências — em órbita do dado central, o retrato que emerge é o de um jogador que está, aos 35 anos, vivendo uma das fases mais produtivas de sua carreira em termos de impacto mensurável nos resultados…
O risco de confiar só nesse dado
Aqui mora a ressalva que qualquer jornalista honesto precisa fazer. Números ofensivos de um zagueiro, por mais impressionantes que sejam, não contam a história completa da eficiência defensiva. O futebol europeu aprendeu isso da pior forma com experiências como a do Sven Bender no Borussia Dortmund dos anos 2010 — defensores que pareciam completos pelo volume de participação ofensiva, mas cujas fragilidades só apareciam quando o time precisava de solidez em momentos críticos. A Champions League é justamente o ambiente que expõe essas fragilidades com mais crueldade, porque os atacantes de elite exploram espaços deixados por zagueiros que sobem demais.
Não há dados disponíveis sobre o desempenho defensivo de Mahrez nesta temporada — duelos aéreos ganhos, interceptações, erros que levaram a gols. E essa ausência de informação é, em si, um dado. Significa que a análise completa do argelino no Olympiakos permanece parcial. O que se pode afirmar com segurança é que, nos 32 jogos desta temporada, ele produziu um volume ofensivo que rivaliza com os melhores meio-campistas da liga — e que isso, por si só, já justifica a atenção. Aos 35 anos, com uma carreira que claramente evoluiu para além dos padrões convencionais da posição, Mahrez está escrevendo um capítulo que o futebol europeu ainda não sabe muito bem como catalogar. Zagueiro? Meia? Jogador de sistema? A resposta, provavelmente, está em algum lugar onde as categorias tradicionais simplesmente não alcançam — e esse lugar, curiosamente, é onde os jogadores mais interessantes sempre viveram.











