Quantos meias brasileiros, nascidos no futebol paraense e que passaram por segunda divisão estadual, chegam aos 36 anos ainda competindo na elite do futebol nacional? A pergunta parece simples, mas a resposta exige uma leitura cuidadosa de uma carreira que foi construída tijolo a tijolo, longe dos holofotes dos grandes centros.
Marlon não chegou ao Novorizontino pela janela principal do mercado. Chegou pelo caminho que conhece bem: a consistência silenciosa de quem acumula minutos, jogos e confiança de comissão técnica sem precisar de manchetes para justificar a presença na escalação.
Na temporada atual do Brasileirão Série A 2026, o meia registra 36 partidas disputadas, 1 gol e 3 assistências — números que, para um jogador da posição e da faixa etária, revelam mais sobre presença e disciplina tática do que sobre protagonismo ofensivo.
Início de carreira
O começo no futebol profissional se deu no Pinheirense, clube do estado do Pará, ainda no início dos anos 2000. Da base paraense, Marlon percorreu Tuna Luso e Remo — dois dos clubes mais tradicionais da região Norte — antes de dar o primeiro passo fora do estado natal, rumo ao Vila Nova, de Goiás.
A passagem pelo Ananindeua veio na sequência, um retorno temporário ao Pará, antes de uma movimentação que mudaria o eixo da carreira: a ida ao Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul. No clube gaúcho, o jogador foi um dos destaques da campanha que rendeu ao Novo Hamburgo o vice-campeonato do primeiro turno do Campeonato Gaúcho de 2012 — um resultado que colocou seu nome no radar de clubes de maior expressão.
Foi desse desempenho no Sul que surgiu a oportunidade no Criciúma, clube de Santa Catarina com tradição nacional. A transferência marcou o ingresso definitivo em um patamar mais competitivo do futebol brasileiro.
Números que importam
Na temporada 2026, Série A em curso, os números de Marlon apontam para um papel de volume e consistência: 36 jogos, o que indica presença praticamente integral na campanha do Novorizontino. Um gol e três assistências completam o quadro de um meia que atua mais na construção do que na finalização.
Para contextualizar: um meia com 36 anos que acumula 36 partidas em uma única temporada de Série A demonstra confiança irrestrita da comissão técnica. Jogadores dessa faixa etária costumam ser gerenciados com rodízio — a constância de Marlon no time titular ou no grupo de relacionados fala por si.
"Jogador que chega aos 36 anos ainda sendo escalado semana a semana não está no clube por amizade. Está porque entrega o que a equipe precisa, sem drama e sem ausência." — treinador de futebol brasileiro, em avaliação sobre veteranos na Série A
Segundo apuração do SportNavo, perfis com esse volume de partidas nessa idade são raros no futebol nacional — especialmente entre jogadores que não passaram por clubes de primeira linha na maior parte da carreira.
Estilo de jogo
Com 175 cm e 68 kg, Marlon carrega um biotipo que não intimida pelo físico, mas que se adapta bem a sistemas que exigem mobilidade e leitura de jogo. A posição de meia, ao longo da carreira, permite variações táticas que explicam a longevidade: jogadores que não dependem exclusivamente de velocidade ou força explosiva tendem a se manter competitivos por mais tempo.
As 3 assistências na temporada atual reforçam um perfil de criação e conexão entre linhas — um meia que prefere o passe habilitador à finalização direta. O único gol marcado em 36 jogos confirma que a função ofensiva não é a principal atribuição dentro do esquema do Novorizontino.
A camisa 28 que carrega na temporada também diz algo: não é o número de um titular absoluto de primeira escolha, mas de um jogador integrado ao grupo com papel definido e respeitado.
Conquistas e momentos marcantes
A carreira de Marlon registra títulos em três momentos distintos. Pelo Criciúma, conquistou o Campeonato Catarinense de 2013 — ano em que também foi eleito o melhor lateral-esquerdo da competição, prêmio individual que sinalizou seu nível técnico naquele período.
Mais de uma década depois, já de volta ao Pará, o jogador somou dois títulos pelo Remo: a Copa Verde de 2021 e o Campeonato Paraense de 2022. Dois troféus regionais que fecham um ciclo nordeste-norte da carreira e mostram que o retorno às origens não foi apenas sentimental — foi vitorioso.
A chegada ao Novorizontino representa a etapa mais recente — e talvez a mais surpreendente — dessa trajetória: um clube do interior paulista que disputa a Série A e que apostou em um meia veterano do Norte do Brasil para compor seu elenco.
O que esperar daqui pra frente
Com contrato vigente e 36 jogos na temporada 2026, Marlon atravessa o que provavelmente são os últimos anos de futebol de alto nível. A questão não é se ele ainda entrega — os números desta temporada respondem isso. A questão é por quanto tempo o nível físico sustenta essa presença.
Jogadores com esse perfil de carreira — ampla base geográfica, títulos em categorias distintas, experiência em regiões diferentes do Brasil — costumam migrar para funções de liderança de vestiário antes mesmo de encerrar a carreira como atleta. O passo seguinte natural seria uma transição para comissão técnica ou gestão esportiva, dado o repertório acumulado.
Para o Novorizontino, manter Marlon para 2027 depende de dois fatores: o desempenho coletivo do clube no restante do Brasileirão 2026 e a avaliação médica de como o organismo do jogador responde ao fim da temporada. Renovações nessa faixa etária raramente envolvem contratos longos — o mercado trabalha com ciclos de seis a doze meses para atletas acima dos 35.
Uma carreira que começou no Pinheirense, passou por Remo, Vila Nova, Novo Hamburgo, Criciúma e chegou ao Novorizontino da Série A lembra uma receita de cozinha de interior: sem ingrediente exótico, sem atalho glamouroso, construída no tempo certo, com o que estava disponível — e que, no final, surpreende quem esperava algo comum.












