Três dados: um amistoso perdido na titularidade, um lateral marroquino entre os melhores do mundo e uma Copa que começa no sábado. É daí que se lê a disputa entre Matheus Cunha e Igor Thiago pela camisa 9 do Brasil contra Marrocos, às 19h (horário de Brasília) em Nova Jersey.
Por que Matheus Cunha saiu e por que volta
No amistoso contra o Egito, em Cleveland, vencido por 2 a 1, Carlo Ancelotti optou por preservar o atacante do Manchester United. Igor Thiago, centroavante do Brentford, recebeu a oportunidade entre os titulares e foi bem avaliado pela comissão técnica — o que, em qualquer lógica esportiva, abriria precedente para a sequência. Mas lógica e Copa do Mundo raramente caminham no mesmo passo.
O contexto do adversário mudou o peso da balança. Marrocos chega ao grupo A com Achraf Hakimi na lateral-direita e Brahim Díaz na meia-armação — dois jogadores de altíssimo nível que exploram o corredor esquerdo adversário com velocidade e precisão. Segundo apuração em matéria do SportNavo, a comissão técnica vê Matheus Cunha como peça indispensável na recomposição defensiva pelo lado esquerdo, função que vai além do que se espera de um centroavante clássico.
Essa característica remete a um padrão recorrente na história da Seleção: o Brasil sempre exigiu do seu atacante de referência algum grau de sacrifício tático. Romário era exceção à regra — Ronaldo, em 2002, prensava a saída de bola adversária com mais frequência do que a memória coletiva registra. Matheus Cunha, aos 26 anos, incorporou essa função no Manchester United durante a temporada 2025/2026, quando marcou 18 gols e contribuiu com 9 assistências na Premier League.
O que Igor Thiago perde com esse cenário
O centroavante do Brentford não fez nada de errado. Aos 24 anos, Igor chegou à Copa após uma campanha sólida na Premier League inglesa — 12 gols em 31 jogos —, e sua movimentação no amistoso contra o Egito foi descrita internamente como positiva. O problema é estrutural, não individual.
Num esquema em que Lucas Paquetá, Bruno Guimarães, Casemiro, Raphinha e Vinicius Júnior formam o bloco criativo ao redor do centroavante, a mobilidade e a leitura defensiva de Matheus Cunha pesam mais do que a presença física de Igor no jogo aéreo. A história da Seleção confirma esse padrão: em 2006, Adriano perdeu espaço para Ronaldo justamente porque Parreira precisava de um atacante que se encaixasse no mecanismo coletivo, não apenas que finalizasse.
- Matheus Cunha (Manchester United, 2025/2026): 18 gols, 9 assistências, Premier League
- Igor Thiago (Brentford, 2025/2026): 12 gols, 31 jogos, Premier League
- Últimos confrontos do Brasil contra Marrocos: 1 partida oficial, derrota por 2 a 1 nas quartas de final da Copa do Mundo de 2022, no Catar
As laterais ainda embaralham o time de Ancelotti
Se o setor ofensivo caminha para uma definição, a defesa ainda envolve névoa. Pela direita, Danilo e Ibañez disputam a posição — e o treino desta terça-feira mostrou o segundo atuando especificamente como lateral em atividade de campo reduzido ao lado de Marquinhos, Gabriel Magalhães e Alex Sandro. Esse sinal não passou despercebido nos bastidores.
A experiência de Danilo — que disputou as Copas de 2018 e 2022 como titular — e de Alex Sandro é tratada internamente como trunfo. Mas trunfo não garante vaga. Em 1994, Mazinho e Mauro Silva levaram vantagem sobre nomes mais badalados justamente porque Parreira valorizava encaixe tático acima de currículo. Ancelotti parece seguir raciocínio semelhante.
Na zaga, a definição é mais clara. Gabriel Magalhães, preservado no amistoso contra o Egito por desgaste físico, retornou ao trabalho normalmente e deve reassumir a posição ao lado de Marquinhos. Com isso, Léo Pereira volta ao banco.
O efeito cascata até sábado
Ancelotti ainda tem três sessões de treino antes do jogo de abertura. A disputa pelas laterais é o único ponto que pode alterar estruturalmente o time — e qualquer mudança ali afeta diretamente a forma como Matheus Cunha ou Igor Thiago se moverão no ataque. Um lateral mais ofensivo à direita libera o atacante de referência de responsabilidades defensivas; um lateral mais conservador exige o oposto.
"A força do setor direito marroquino, com Hakimi e Brahim Díaz, é uma preocupação real da comissão técnica", segundo fontes ligadas ao grupo brasileiro em Nova Jersey.
A Seleção enfrenta Marrocos no sábado, 13 de junho, às 19h (de Brasília), no MetLife Stadium, em Nova Jersey, pelo grupo A da Copa do Mundo. Uma vitória coloca o Brasil em posição confortável antes dos duelos seguintes contra Croácia e Alemanha.








