Três rodadas. Esse é o número que define, agora, o futuro de Matheus Cunha na Copa do Mundo — e, por extensão, o equilíbrio de forças na mais acirrada disputa de posição que a Seleção Brasileira vive desde que Ronaldo e Romário brigavam pelo mesmo lugar na lista de Zagallo. A CBF e o Manchester United chegaram a um acordo para que o atacante seja poupado nos jogos contra Sunderland (9 de maio), Nottingham Forest (17 de maio) e Brighton (24 de maio), as últimas partidas dos Red Devils na Premier League 2025/2026.

O que aconteceu, exatamente

Cunha sentiu problema nos adutores nos últimos dias, mas não ficou parado: voltou a campo, marcou o gol que ajudou o United a vencer o clássico contra o Liverpool e garantir a classificação para a próxima Champions League. Com o principal objetivo da temporada inglesa cumprido, o clube aceitou a solicitação da CBF e vai preservar o jogador até a convocação de Carlo Ancelotti. A informação foi apurada pela ESPN e confirmada por fontes ligadas à federação brasileira.

O histórico de lesões musculares em atacantes às vésperas de Copas do Mundo é um alerta que nenhum torcedor brasileiro precisa que alguém explique. Em 2014, Neymar fraturou uma vértebra na quartas de final. Em 2002, Ronaldo chegou ao Japão e Coreia do Sul carregando sequelas de convulsões que quase o tiraram do torneio — e foi artilheiro com oito gols. A margem para improviso existe, mas o custo de chegar ao Mundial abaixo de 100% já foi demonstrado de forma brutal pela história.

Quem está envolvido

Ancelotti já sinalizou que levará nove atacantes ao Mundial. Segundo levantamento do SportNavo, ao menos nove centroavantes brasileiros marcaram gols na mesma semana — uma coincidência que resume a riqueza e o dilema do momento. Richarlison fez o segundo gol do Tottenham na vitória por 2 a 1 sobre o Aston Villa e tenta reconquistar a confiança do treinador após ficar de fora das últimas convocações. Endrick marcou na vitória do Lyon por 4 a 2 sobre o Rennes e acumula oito gols e seis assistências em 21 jogos pelo clube francês. Igor Thiago chegou a 22 gols na Premier League ao balançar as redes na vitória do Brentford por 3 a 0 sobre o West Ham.

O que aconteceu, exatamente Matheus Cunha poupado pelo United aquece
O que aconteceu, exatamente Matheus Cunha poupado pelo United aquece

Nesta segunda-feira (4), Igor Jesus e João Pedro protagonizaram um duelo dentro do duelo: o atacante do Nottingham Forest converteu pênalti na vitória por 3 a 1 sobre o Chelsea, enquanto João Pedro respondeu com um gol de bicicleta para os Blues. Rayan, ex-Vasco, marcou seu quarto gol em 12 jogos pelo Bournemouth na vitória por 3 a 0 sobre o Crystal Palace. E Pedro, fora de todas as listas de Ancelotti até agora, abriu o placar no empate por 2 a 2 entre Flamengo e Vasco no Maracanã — com o próprio técnico italiano na arquibancada.

Quantos técnicos na história do futebol brasileiro tiveram que escolher entre nove centroavantes em forma simultânea a menos de dois meses de uma Copa do Mundo?

Quando isso muda o jogo

A convocação de Ancelotti está prevista para as próximas duas semanas. O acordo entre CBF e United garante que Cunha chegará a esse momento sem o risco de agravar a lesão nos adutores — uma região que, quando mal tratada, pode transformar um atleta de elite em espectador em questão de dias. A comparação mais próxima na memória recente é a de Roberto Firmino em 2022: chegou ao Qatar carregando um incômodo muscular, disputou espaço com Richarlison e Gabriel Jesus e terminou o torneio sem uma titularidade sequer. Cunha, ao contrário, tem a preferência declarada de Ancelotti — o italiano o escalou em posição de destaque nas convocações anteriores — e o acordo com o United é, na prática, uma blindagem institucional para que essa preferência se converta em presença real no Mundial.

A análise do SportNavo aponta que, entre os candidatos à camisa 9, Cunha é o único cujo clube de origem negociou diretamente com a CBF para garantir sua chegada ao torneio em condições ideais. Isso não é detalhe logístico — é sinal de prioridade.

Por que agora

A Copa do Mundo começa em pouco mais de um mês. O calendário não perdoa: as três rodadas que o United disputará sem Cunha terminam em 24 de maio, e a convocação oficial da Seleção deve sair antes disso. Ancelotti tem diante de si um quebra-cabeça que nenhum dos seus antecessores recentes enfrentou com tanta profundidade de elenco — nem Tite em 2022, quando Gabriel Jesus era o único nome de peso indiscutível na função, nem Dunga em 2010, quando Luis Fabiano carregava o setor quase sozinho.

A diferença desta geração é que o problema não é falta de opção — é excesso de candidatos legítimos. Richarlison tem a experiência de dois Mundiais. Endrick tem 19 anos e oito gols na Ligue 1 nesta temporada. Pedro é o artilheiro mais consistente do futebol brasileiro no período recente. Igor Thiago tem 22 gols na Premier League. Nenhum deles pode ser descartado com facilidade, e nenhum deles garante o lugar apenas pelos números.

A decisão final de Ancelotti sobre a camisa 9 será conhecida na convocação oficial, prevista para a segunda quinzena de maio — e o nome que estiver nela carregará o peso de uma posição que o Brasil não ocupa com consistência desde Ronaldo Fenômeno, artilheiro das Copas de 1998 e 2002 com 12 gols somados. Em 17 de junho, quando a Seleção entrar em campo pela primeira rodada do Mundial, saberemos quem herdou esse legado.