As palavras duras de Craque Neto contra Memphis Depay após mais um desfalque na derrota para o Internacional ecoaram como um grito de guerra de milhares de torcedores corintianos. O comentarista da Band não poupou o atacante holandês, sugerindo que ele "entregue a chave e as dívidas também". A crítica expõe uma ferida que sangra há meses no Parque São Jorge: o investimento milionário em um jogador que, até aqui, não correspondeu às expectativas nem dentro nem fora de campo.
"Entrega a chave e as dívidas também", disparou Neto após o novo desfalque de Memphis na derrota corintiana.
Memphis chegou ao Corinthians em setembro de 2024 como a contratação mais badalada da história recente do clube. Seu salário mensal de R$ 3,2 milhões, somado às luvas de R$ 70 milhões pagos ao jogador e mais R$ 15 milhões em comissões, totaliza um investimento que supera os R$ 150 milhões apenas no primeiro ano de contrato. Para efeito de comparação, esse montante equivale a 30% de toda a folha salarial do elenco profissional alvinegro em 2024.

O retrospecto que assombra a Fiel
Em 14 partidas disputadas pelo Corinthians, Memphis balançou as redes apenas sete vezes e distribuiu duas assistências. São números que, isoladamente, não soam mal, mas ganham outra dimensão quando confrontados com sua disponibilidade: o holandês perdeu 11 jogos por questões físicas, técnicas ou pessoais desde sua chegada. Isso representa um aproveitamento de apenas 56% dos compromissos da equipe no período.
A comparação com outros "elefantes brancos" da história corintiana é inevitável. Ralf, contratado em 2020 por R$ 40 milhões junto ao Corinthians-Casuals, ao menos disputou 89 partidas em três temporadas antes de ser considerado um fracasso. Luan, vindo do Grêmio por R$ 25 milhões em 2020, jogou 47 vezes e marcou apenas três gols, mas seu investimento total foi três vezes menor que o de Memphis.
Ainda mais distante fica a lembrança de Carlos Tevez, que chegou ao clube em 2004 vindo do Boca Juniors. O argentino custou cerca de R$ 35 milhões (valores corrigidos) e se tornou ídolo absoluto, marcando 46 gols em 76 jogos e conquistando o Brasileiro de 2005. A diferença no custo-benefício é gritante: enquanto Tevez custou R$ 760 mil por gol marcado, Memphis já ultrapassa a marca de R$ 21 milhões por gol.
A matemática cruel dos números
O impacto financeiro de Memphis vai além dos valores diretos. Seu salário mensal de R$ 3,2 milhões equivale ao que o Corinthians pagava a três titulares juntos na temporada anterior: Róger Guedes (R$ 1,1 milhão), Giuliano (R$ 900 mil) e Fábio Santos (R$ 1,2 milhão). A diferença é que esse trio disputou, somados, 178 partidas na temporada 2023, contra as 14 de Memphis em 2024.
Na análise fria dos números, cada jogo de Memphis custou ao Corinthians aproximadamente R$ 10,7 milhões, considerando investimento total dividido pela quantidade de partidas. Para contextualizar historicamente, esse valor supera o investimento total em jogadores como Jadson (2017), Rodriguinho (2018) ou até mesmo Jô em seu retorno em 2020.
O departamento médico alvinegro também sente o peso da contratação. Memphis passou por três diferentes tratamentos desde setembro, incluindo uma viagem não autorizada à Europa que gerou multa contratual de R$ 500 mil. Esse episódio lembrou os tempos conturbados de Alexandre Pato no São Paulo, quando questões extracampo ofuscavam o talento técnico.

Paralelos com fracassos históricos
A situação de Memphis evoca memórias dolorosas de outras contratações bombásticas que não deram certo no futebol brasileiro. Em 2009, o Santos investiu pesado em Robinho, que retornou ao Brasil com status de craque europeu, mas rendeu aquém do esperado devido a lesões constantes e questões comportamentais. A diferença é que Robinho ao menos conquistou títulos importantes, como o Paulista de 2010 e 2011.
No próprio Corinthians, a lembrança mais amarga talvez seja a de Ronaldo Fenômeno em 2009. O Fenômeno chegou cercado de expectativas, mas disputou apenas 31 jogos em dois anos, marcando 18 gols. Mesmo assim, seu investimento total foi inferior ao de Memphis, e ele ajudou o clube a conquistar a Copa do Brasil de 2009 e o Paulista de 2009.
O próximo compromisso do Corinthians será contra o Vasco, no dia 26 de janeiro, pela terceira rodada do Campeonato Paulista. Memphis está relacionado, mas sua presença ainda é incerta devido a uma sobrecarga muscular na coxa direita. A partida no Neo Química Arena pode ser um divisor de águas para definir se o holandês conseguirá reverter a percepção negativa ou se consolidará sua posição como o pior investimento da era moderna alvinegra.

