As chuteiras ainda carregavam a grama do Parque São Jorge quando Memphis Depay pisou no KNVB Campus, em Zeist, para o primeiro treino com a seleção holandesa antes da Copa do Mundo. Era o mesmo atacante que vinha atuando pelo Corinthians no Brasileirão — mas, naquele gramado holandês, ele se convertia em algo que o futebol brasileiro nunca havia produzido antes: o primeiro jogador do Campeonato Brasileiro a integrar uma seleção europeia em um Mundial.
O que os números de Memphis revelam antes de qualquer discurso
Há uma diferença entre jogadores que acumulam convocações e jogadores que definem épocas. Memphis Depay, 32 anos, pertence à segunda categoria, e os dados sustentam essa leitura sem concessões. São 107 partidas pela Holanda, 55 gols — recorde absoluto da seleção neerlandesa, superando os 50 de Robin van Persie — e 32 assistências. Em junho de 2025, ele igualou e depois ultrapassou Van Persie ao marcar duas vezes na vitória sobre Malta pelas Eliminatórias, num momento que a imprensa holandesa tratou como passagem de bastão simbólica.
Quando marca em Copas do Mundo, ele escreve história. Quando entra em campo pela Holanda, carrega o peso de um camisa 10 que nunca precisou de circunstâncias favoráveis para ser decisivo. Em 2014, no Brasil, foi o jogador mais jovem da Holanda a marcar em Mundiais — 20 anos e quatro meses —, anotou contra Austrália e Chile e foi indicado ao prêmio de Melhor Jogador Jovem. Em 2022, no Catar, voltou a ser decisivo nas oitavas de final diante dos Estados Unidos. Agora chega a Zeist para a terceira Copa, desta vez como o atleta mais experiente do grupo e o único com passagem recente por um campeonato sul-americano.
O treino desta semana no KNVB Campus foi aberto ao público e reuniu 1.500 torcedores. O único ausente foi o zagueiro Jurriën Timber, que havia disputado a final da Liga dos Campeões e recebeu dias extras de descanso, segundo informações do jornalista holandês Jeroen Kapteijns. Todos os demais convocados de Ronald Koeman participaram da atividade.

O feito inédito que o Corinthians e o Brasileirão não esperavam protagonizar
A trajetória de Memphis pelo Corinthians foi marcada por altos e baixos clínicos — lesões, adaptação ao calendário brasileiro, pressão da torcida — mas produziu um dado que nenhum clube europeu poderia oferecer neste momento: a confirmação de que um jogador atuando no futebol brasileiro pode chegar à Copa do Mundo representando uma seleção do Velho Continente. Nenhum atleta havia feito isso antes. A lista de sul-americanos que foram a Copas por seleções europeias existe, mas sempre envolveu ligas do próprio continente. Memphis rompe essa lógica geográfica.
Quando atua pelo Corinthians no Brasileirão, ele enfrenta a intensidade física de um calendário que não perdoa, com jogos a cada três ou quatro dias em estádios de diferentes fusos climáticos. Quando atua pela Holanda em Zeist, ele retoma a estrutura de alto rendimento europeu, com centros de treinamento de ponta e suporte técnico de primeira linha. A combinação das duas realidades — incomum para qualquer atleta — é o que torna sua trajetória singular neste ciclo.
Nas palavras do próprio Memphis, registradas pela imprensa holandesa ao longo das Eliminatórias, a experiência no Brasil o tornou mais completo taticamente, especialmente na leitura de espaços em situações de pressão intensa. Koeman, por sua vez, nunca escondeu que conta com o atacante como referência ofensiva e liderança de vestiário — dois papéis que se reforçam mutuamente numa equipe que chega ao torneio com ambições reais.
O Grupo F e o caminho que pode cruzar com o Brasil
A Holanda está no Grupo F da Copa do Mundo, com estreia marcada para 14 de junho contra o Japão, no Texas. Na sequência, enfrenta a Suécia em 20 de junho, em Houston, e encerra a fase de grupos diante da Tunísia em 25 de junho, no Kansas. O grupo tem cruzamento direto com a chave do Brasil na fase eliminatória, o que torna real a possibilidade de um confronto entre as duas seleções já nas oitavas de final — cenário que colocaria Memphis Depay na posição mais contraditória imaginável: o artilheiro histórico da Holanda, formado em parte pelo futebol brasileiro, enfrentando o país onde hoje joga.
Quando a Holanda avança em Copas do Mundo, Memphis invariavelmente está entre os protagonistas — e não há razão estatística ou tática para supor que desta vez será diferente. Naquele gramado de Zeist, diante de 1.500 torcedores que cantavam seu nome, o camisa 10 do Corinthians voltou a ser, simplesmente, o maior artilheiro da história da seleção neerlandesa. A Copa começa em 14 de junho.












