Diz-se que Felipe Preguiça tem o melhor jogo de costas do Brasil no sem-kimono. Na noite de domingo em Las Vegas, dentro do Fight Pass Invitational 5, essa premissa encontrou um problema de nome Nicolas Meregali — e o problema ganhou por finalização.

Quem acompanhou os primeiros minutos da luta principal do FPI 5 entendeu imediatamente que aquilo não seria uma partida de xadrez. Desde os primeiros segundos em pé, Meregali e Pena trocaram pegadas com uma intensidade que arrancou advertências do árbitro — tapas abertos no rosto, a linguagem corporal de quem está resolvendo uma conta pessoal, não disputando um torneio. O clima era exatamente esse: dois brasileiros que passaram meses trocando farpas nas redes sociais, finalmente separados apenas pelo tatame.

O estrangulamento que Preguiça não conseguiu defender

Nos primeiros dez minutos — a etapa de regulação onde pontos não são contabilizados — Meregali trabalhou para impor o ritmo. Conseguiu a derrubada, manteve pressão constante, obrigou Preguiça a gastar energia na defesa. Quem já esteve no quinto round de uma luta de muay thai sabe exatamente o que acontece com o corpo quando a reserva aeróbica começa a ceder: a tomada de decisão fica lenta, os reflexos chegam um quarto de segundo atrasados, e esse atraso é tudo que um adversário de alto nível precisa. Preguiça sentiu isso. Ele próprio reconheceu depois.

"O meu oponente foi melhor, sem desculpas, mérito dele, eu imprimi meu ritmo, mas cansei bastante em algum momento da luta, acho que principalmente pela minha parte em pé, falta um pouco de confiança nessa parte." — Felipe Pena, em vídeo publicado nas suas redes sociais após a derrota.

Na prorrogação, Meregali não hesitou. Aproveitou o cansaço acumulado do rival para executar a sequência que o tornou o lutador mais dominante do grappling mundial em 2023: derrubada, tomada de costas, imobilização de um braço e estrangulamento. Preguiça bateu três vezes no tatame. A dívida estava paga.

Tecnicamente, o que chama atenção não é só a finalização em si — é a gestão de energia que Meregali demonstrou ao longo dos vinte minutos. Ele não gastou o tanque tentando forçar a submissão no começo. Esperou. Construiu a pressão de forma incremental, como alguém que sabe que o desgaste do adversário é parte do plano, não uma consequência acidental. Isso é maturidade competitiva que não se treina em seis meses.

Uma rivalidade que começou com três palavras em 2018

Para entender o peso emocional do que aconteceu no FPI 5, é preciso voltar ao Campeonato Mundial de 2018, quando Meregali finalizou Pena e gritou — para ninguém e para todo mundo ao mesmo tempo — "aqui é sangue puro". A frase era uma alusão direta ao teste antidoping positivo que Pena havia enfrentado anos antes. Três palavras que plantaram uma rivalidade de cinco anos, alimentada por provocações cada vez mais acaloradas nas redes sociais, até o UFC Invitational decidir que era hora de colocar os dois no mesmo tatame.

Seria injusto chamar de era o domínio de Meregali em 2023 — mas é uma era em escala doméstica, e ela está documentada. Antes de Preguiça, o gaúcho já havia derrotado Roberto Cyborg, ex-campeão mundial no sem-kimono. Antes disso, o título Pan-Americano e o GP absoluto da IBJJF. Gordon Ryan, o único nome que poderia equilibrar essa conversa, ficou praticamente fora do circuito por problemas de saúde ao longo do ano. Meregali não escolheu o calendário — mas soube aproveitá-lo.

E Preguiça? Houve um momento, quando ele conseguiu a raspagem sobre Meregali durante a luta, em que o tatame pareceu equilibrar. Ele sentiu. Disse que se sentiu bem naquele instante. O problema é que um momento de raspagem em vinte minutos de luta não reverte uma estratégia de desgaste bem executada.

O que Preguiça prometeu e o que Meregali ainda precisa provar

A derrota, segundo o próprio Felipe Pena, funcionou como um mapa. Ele foi claro ao encerrar seu pronunciamento nas redes: o foco agora é redesenhar a estratégia para o ADCC do próximo ano, com ênfase no jogo em pé — exatamente a parte onde reconheceu falta de confiança. Agradeceu à FP Team, à Gracie Barra e aos patrocinadores, e não mencionou a possibilidade de uma revanche imediata com Meregali. Essa ausência de declaração também é uma declaração.

Qual é o limite real de Meregali quando Gordon Ryan estiver de volta?

Essa é a pergunta que o grappling mundial vai fazer nos próximos meses. O americano, quando saudável, é o único nome que historicamente colocou pressão real no gaúcho. Mas até lá, o recado de Las Vegas foi enviado com clareza: Meregali fechou 2023 invicto, com vitórias sobre Cyborg e Preguiça, e o cinturão simbólico de melhor do mundo no sem-kimono está com ele por mérito acumulado, não por ausência de concorrência.

Para Preguiça, a próxima aparição relevante deve acontecer no ADCC 2024, onde o cenário competitivo vai exigir exatamente o que ele identificou como lacuna — presença e confiança no jogo em pé. Para Meregali, o desafio é manter o nível quando os adversários voltarem a estar 100%. O tatame do FPI 5 foi o fim de um capítulo. O próximo começa quando Ryan calçar o kimono de novo.