A pergunta chegou direta, sem rodeios — e a resposta veio com uma honestidade rara no futebol de alto nível. Na tarde desta sexta-feira (8), em entrevista ao canal argentino Lo Del Pollo, Lionel Messi abriu o jogo sobre dois temas que agitam o cenário da Copa do Mundo 2026: os favoritos ao título e o futuro de Neymar no torneio. O craque do Inter Miami não fugiu de nenhuma das duas.
O que Messi disse sobre o Brasil e sobre a Argentina
Num gesto incomum de autocrítica pública, o camisa 10 da atual campeã mundial admitiu que a Argentina não chega como principal candidata ao título em 2026. Segundo ele, parte do elenco argentino encerra a temporada europeia com desgaste físico e problemas de lesão — um alerta que contrasta com o discurso triunfalista que ainda circula em Buenos Aires.
"Temos que reconhecer que existem outros favoritos à nossa frente que estão em melhor forma. A França ainda é muito forte, com um grande número de jogadores de alto nível", declarou Messi.
O Brasil aparece explicitamente nessa hierarquia. Messi citou a Seleção ao lado de França e Espanha como as equipes com maior potencial para brigar pelo título, reconhecendo o peso histórico da camisa verde-amarela mesmo diante de um ciclo recente de inconsistência — a Seleção não vence uma Copa desde 2002 e vive sob a gestão de Carlo Ancelotti, que assumiu o cargo em 2025.
"O Brasil, embora há um tempinho não esteja em seu melhor momento, acho que sempre é o candidato e tem os jogadores para poder brigar em todas as competições oficiais", afirmou o argentino.
Amizade ou leitura técnica na defesa de Neymar
Aqui mora a tensão mais interessante da entrevista — e Messi, para o crédito dele, não tentou escondê-la. Ao ser questionado sobre a possibilidade de Neymar disputar a Copa do Mundo 2026, o argentino foi o primeiro a admitir que sua avaliação tem viés afetivo.
"Se Neymar tem que ir para a Copa do Mundo? Eu não consigo ser muito objetivo porque ele é meu amigo. Obviamente eu adoraria que ele fosse, que coisas boas acontecessem com ele porque ele merece", disse Messi.
A declaração é honesta, mas levanta a questão que o SportNavo propõe aqui: até onde a análise técnica sustenta o argumento? Os números de Neymar em 2026 são escassos. O atacante, que completou 34 anos em fevereiro, acumula uma sequência de lesões graves — o rompimento do LCA do joelho esquerdo, sofrido em outubro de 2023 pelo Al-Hilal, afastou-o por mais de um ano. Sua carga de minutos jogados na temporada atual é insuficiente para qualquer projeção consistente de desempenho em um torneio de seis jogos ou mais.
Messi não ignora esse contexto. Ao completar o raciocínio, ele ancora o argumento não no Neymar de hoje, mas no que o jogador representa enquanto estiver em condições de atuar.
"Em Copas do Mundo, sempre queremos que os melhores estejam lá. E o Ney, enquanto estiver jogando, sempre será um deles", completou o argentino.
A distinção é sutil, mas reveladora. Messi não garantiu que Neymar está pronto — disse que, quando em forma, ele pertence ao nível exigido por uma Copa. Essa é uma avaliação técnica, não apenas sentimental, mesmo que venha embalada por afeto.
O que os números revelam sobre o favoritismo do Brasil
Como no trânsito da Avenida Paulista às 18h, o caminho do Brasil até o favoritismo real é longo e tem muito congestionamento pelo meio. A Seleção entrou no ciclo de 2026 com três técnicos diferentes em menos de quatro anos — Tite, Fernando Diniz e agora Ancelotti. A Argentina, por contraste, tem Lionel Scaloni desde 2018, com continuidade tática que resultou na Copa América de 2021, na Finalissima de 2022 e no título mundial no Catar.

Mas o argumento de Messi sobre o elenco brasileiro tem respaldo estatístico. Vinicius Jr., Rodrygo e Raphinha formam um trio ofensivo que combinaram mais de 60 participações em gols (gols + assistências) na temporada 2025/2026 apenas na Liga dos Campeões e nas ligas nacionais europeias. Endrick, com 18 anos, já acumula minutos no Real Madrid e figura entre os jovens atacantes com maior índice de conversão de finalização na La Liga nesta temporada. A base existe — a pergunta de Ancelotti é como organizá-la num modelo coletivo.
A Copa do Mundo 2026 começa em junho, disputada entre Estados Unidos, México e Canadá. O Brasil está no Grupo E, com Alemanha, Espanha e Japão — um grupo que exigirá consistência tática já na fase de grupos. A Argentina, no Grupo J ao lado de Argélia, Áustria e Jordânia, tem trajetória potencialmente mais tranquila até as oitavas. Messi, ainda assim, preferiu colocar o Brasil à frente. Essa escolha, vinda de quem mais entende o que é vencer uma Copa, diz mais do que qualquer ranking de coeficiente técnico.









