— Quantas Copas o Messi já jogou?
— Seis. A partir de hoje, seis.
— Nenhum jogador nunca fez isso.
— Exatamente.
Essa troca poderia ter acontecido em qualquer bar de Kansas City nesta terça-feira, 16 de junho de 2026. Mas o peso da resposta vai muito além da conversa informal. Quando Lionel Messi entrou em campo contra a Argélia pela fase de grupos da Copa do Mundo 2026, tornou-se o primeiro jogador da história a disputar seis edições diferentes do torneio. Com 26 partidas no currículo mundialista, ele também ampliou o próprio recorde de jogador com mais jogos em Copas — marca que já era sua desde o Qatar.
O número que nenhum atleta havia alcançado antes de Messi
Para dimensionar o feito, basta recuar ao ano de 1994. Naquele Mundial dos Estados Unidos, o goleiro mexicano Antonio Carbajal completou sua quinta Copa do Mundo — um recorde que perdurou por décadas e foi igualado apenas por Lothar Matthäus (Alemanha, 1998), Gianluigi Buffon (Itália, 2014), Rafael Márquez (México, 2018) e Andrés Guardado (México, 2022), entre outros. Nenhum deles, porém, chegou à sexta. O goleiro Guillermo Ochoa esteve próximo: convocado pelo México para 2026, ele não entrou em campo na partida de abertura contra a África do Sul e perdeu a primazia. Cristiano Ronaldo deve alcançar a mesma marca no dia 17, quando Portugal enfrenta a República Democrática do Congo, mas Messi foi primeiro.
A comparação com Carbajal é ilustrativa. O goleiro mexicano disputou Copas entre 1950 e 1966 — um intervalo de 16 anos. Messi chegou à sua primeira em 2006, na Alemanha, com 18 anos, saindo ainda na fase de grupos. Vinte anos depois, com 38, é o capitão e líder técnico de uma Argentina tricampeã. Nenhum outro jogador combinou longevidade e protagonismo nessa escala.
"Messi chega ao jogo de número 200 pela seleção argentina" — dado registrado pelo portal Placar ao detalhar a estreia da Argentina na Copa 2026.
O jogo diante da Argélia foi também o de número 200 de Messi com a camisa da Albiceleste. Em toda a história do futebol, pouquíssimos jogadores chegaram a esse número por uma única seleção: o brasileiro Cafu acumulou 142 partidas, Buffon somou 176 pela Itália, e Sergio Ramos encerrou a carreira internacional com 180 jogos pela Espanha. Messi supera todos eles com folga.
O que os 13 gols em Copas revelam sobre sua trajetória
Há um paradoxo curioso na trajetória mundialista de Messi: por muito tempo, o torneio foi o único palco onde ele parecia não conseguir traduzir para gols a dominância que exibia no Barcelona. Entre 2006 e 2014, marcou apenas 6 gols em 16 jogos. A virada aconteceu no Qatar, em 2022, quando somou 7 tentos em 7 partidas, incluindo dois na final contra a França — além de uma assistência para o gol de Ángel Di María.
Hoje, com 13 gols em 26 jogos (média de 0,50 por partida), Messi está empatado com Just Fontaine na quinta posição da artilharia histórica das Copas. À sua frente estão: Gerd Müller (14 gols em 13 jogos, média de 1,08), Kylian Mbappé — que chegou a 14 após marcar duas vezes contra o Senegal na estreia da França —, o brasileiro Ronaldo Fenômeno (15 gols em 19 jogos, 0,79) e o alemão Miroslav Klose, líder isolado com 16 gols em 24 jogos entre 2002 e 2014. Para superar Klose, Messi precisaria de 4 gols nesta Copa — o que significaria, no mínimo, chegar às quartas de final com atuação decisiva.
O contexto coletivo complica o caminho. A Argentina busca algo que apenas Itália (1930-1934) e Brasil (1958-1962) conquistaram: dois títulos consecutivos de Copa do Mundo. A última vez que uma seleção tentou o tricampeonato imediato foi o Brasil de 1970 — campeão — e depois, novamente, a seleção canarinho em 1974, quando caiu para a Holanda de Johan Cruyff na semifinal. O peso histórico é imenso, e Messi carrega boa parte dele.
A leitura que os números fazem do legado de Messi nas Copas
Messi chegou a esta Copa se recuperando de uma fadiga muscular na coxa esquerda, detectada pelo departamento médico do Inter Miami em maio. A lesão não impediu sua participação no amistoso preparatório de 9 de junho contra a Islândia — em que entrou no segundo tempo, converteu um pênalti e iniciou a jogada do terceiro gol de Thiago Almada na vitória por 3 a 0. Mas o episódio reforça a equação delicada de um atleta de 38 anos em sua última dança mundialista.
"Scaloni comanda a Albiceleste com Messi como capitão e referência técnica incontestável" — síntese das coberturas da imprensa argentina no período pré-Copa.
A análise honesta do legado mundialista de Messi exige separar dois planos. No plano individual, os números são extraordinários: 26 jogos, 13 gols, 8 assistências, uma Copa conquistada, três prêmios de melhor jogador do torneio (2014, 2022 e o acumulado histórico). No plano do debate eterno com Pelé e Maradona, a Copa de 2022 funcionou como o argumento definitivo — ele conduziu a Argentina ao título e foi eleito melhor jogador. A Copa de 2026 não mudará esse veredicto, mas pode acrescentar capítulos.
Há um dado que resume bem a singularidade desta sexta Copa. Em 1986, quando Diego Maradona liderou a Argentina ao título no México, ele tinha 25 anos e estava no auge físico absoluto. Messi, aos 38, chega ao mesmo torneio como campeão defensor, artilheiro ativo da corrida histórica e recordista absoluto de participações. São contextos impossíveis de comparar — mas a coexistência de todas essas variáveis em um único atleta é o que torna o fenômeno literalmente irrepetível.
A Argentina volta a campo na próxima fase de grupos com Messi precisando de apenas 3 gols para superar Klose e se tornar o maior artilheiro da história das Copas do Mundo — aos 38 anos e 163 dias de idade.








