Três coisas: idade, preparação física e ambição. Tudo o que Messi e Cristiano Ronaldo representam na Copa do Mundo de 2026 se explica a partir daí. O argentino de 38 anos — completa 39 durante o torneio — e o português de 41 estão prestes a se tornar os primeiros jogadores da história a disputar seis edições do Mundial. Junto a eles, o goleiro mexicano Guillermo Ochoa e o meia croata Luka Modric, ambos com 40 anos, compõem um grupo que redefine o que significa ser veterano no futebol de elite.

O precedente histórico que ninguém esperava repetir

Em quase cem anos de história das Copas do Mundo, apenas sete jogadores acima de 40 anos haviam figurado em convocações — e seis deles eram goleiros. A lógica era simples: jogadores de linha desgastam mais, encerram mais cedo. Quando Messi e Ronaldo surgiram pela primeira vez em uma Copa, em 2006, o espanhol Lamine Yamal ainda não havia nascido. O atacante brasileiro Endrick, nascido 20 dias após a eliminação do Brasil para a França naquele torneio, também não. Vinte anos depois, esses dois jovens e os dois veteranos dividem o mesmo palco — uma coincidência geracional que o futebol raramente produz.

O ex-técnico da Alemanha Joachim Löw sintetizou bem o fenômeno ao falar à agência DPA:

O precedente histórico que ninguém esperava repetir Messi e CR7 na 6ª Copa — o q
O precedente histórico que ninguém esperava repetir Messi e CR7 na 6ª Copa — o q
"Esses dois jogadores são extraordinários. Ninguém moldou o futebol nos últimos 20 ou 30 anos da forma como eles moldaram. Tantos títulos, tantas conquistas, tanta ambição. É algo extraordinariamente fenomenal."

Löw reconheceu, porém, que ambos "já passaram um pouco do" auge físico — uma constatação que não diminui o feito, mas coloca a questão central: o que ainda podem entregar em campo?

O que mudou no futebol para tornar isso possível

A Copa de 2026 será a primeira disputada por 48 seleções, o que amplia o número de convocados e, consequentemente, o universo de veteranos presentes. Somente entre atletas acima de 40 anos, já são seis convocados viajando aos Estados Unidos neste mês — sendo três jogadores de linha, um recorde absoluto na história do torneio. Cristiano Ronaldo, com 41 anos, é o mais velho do grupo. Ao seu lado estão Ochoa, Modric, o bósnio Edin Dzeko (40), o goleiro alemão Manuel Neuer (40) e o escocês Craig Gordon (43).

A explicação para essa longevidade não é mística. Ela passa por avanços em ciência do esporte, nutrição personalizada, monitoramento biométrico em tempo real e uma mudança cultural dentro dos vestiários de elite. Ronaldo, em particular, tornou-se símbolo de uma rotina de recuperação quase industrial — sono regulado, alimentação milimétrica, cargas de treino ajustadas por dados. Messi, por sua vez, adaptou seu estilo de jogo: trocou a explosão de 2010 pela inteligência posicional de 2026, ocupando espaços em vez de criá-los pela velocidade.

Há uma analogia útil aqui com o personagem de Rocky Balboa no filme Rocky Balboa (2006), que retorna ao ringue aos 60 anos não pela força bruta, mas pela necessidade de provar algo a si mesmo. A diferença é que Messi e Ronaldo têm estatísticas recentes para justificar a presença — não apenas a narrativa.

O Brasil no Grupo C e os caminhos que se cruzam

A seleção brasileira desembarcou nos Estados Unidos nesta terça-feira, 2 de junho, e tem base definida no The Ridge Hotel, em Basking Ridge, Nova Jersey, com treinamentos no Columbia Park Training Facility, em Morristown. Antes da estreia, o Brasil disputa um amistoso preparatório contra o Egito no próximo sábado, 6 de junho, no Huntington Bank Field, em Cleveland.

No Grupo C, o Brasil enfrenta Marrocos no dia 13 de junho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey; Haiti no dia 19 de junho, no Lincoln Financial Field, na Filadélfia; e Escócia no dia 24 de junho, no Hard Rock Stadium, em Miami. O caminho parece favorável, mas o novo formato da Copa — com 48 seleções e uma fase adicional de 32 avos de final — torna o mata-mata mais imprevisível. Se o Brasil avançar em primeiro lugar no grupo, seu adversário na segunda fase sairá do Grupo F, que reúne Holanda, Japão, Tunísia e Suécia.

O Japão, aliás, vem de uma vitória inédita sobre o Brasil por 3 a 2 em amistoso, já na era de Carlo Ancelotti, e chega ao torneio como um dos times mais fortes fora da Europa e da América do Sul. O atacante Ayase Ueda marcou 25 gols em 31 jogos na atual temporada da Eredivisie pelo Feyenoord — número que coloca a seleção asiática em outro patamar de perigo.

O que esperar de Messi e CR7 em campo — e o que fica de legado

A Argentina de Messi chega como atual campeã mundial. Em 2022, ele foi eleito o melhor jogador do torneio. Na ocasião, havia dúvidas reais sobre um retorno em 2026. Quatro anos depois, a presença confirma que a motivação superou qualquer cálculo racional de desgaste. Aos 38 anos, Messi não será o mesmo jogador de 2014 ou mesmo de 2022 em termos físicos — mas sua leitura de jogo, capacidade de decisão e autoridade dentro de campo seguem sem equivalente no futebol mundial.

Ronaldo, pelo lado português, ocupa papel diferente. Com 41 anos e atuando na Saudi Pro League pelo Al-Nassr, enfrenta o ceticismo de quem questiona se o nível competitivo do futebol saudita o manteve preparado para o ritmo de uma Copa do Mundo. A resposta virá em campo — e a Portugal não faltam alternativas ao redor dele, com um elenco jovem e tecnicamente qualificado.

O atacante Gonzalo Plata, do Flamengo e convocado pelo Equador — que integra o Grupo E ao lado de Alemanha, Costa do Marfim e Curaçao —, resumiu com bom humor o espírito dos veteranos e dos estreantes neste torneio. Ao chegar à concentração equatoriana, ele declarou aos torcedores:

"Levem bastante roupa, porque vamos ficar até o final aqui."

Seja qual for o destino de Messi, Ronaldo, Ochoa e Modric nesta Copa, o torneio de 2026 já registrou seu marco antes mesmo da bola rolar: nunca tantos veteranos acima de 35 anos disputaram um Mundial — cerca de três dezenas, segundo os dados de convocação. A estreia do Brasil contra Marrocos, em 13 de junho, no MetLife Stadium, às 19h (horário de Brasília), é o primeiro grande teste para medir se a geração de Ancelotti está à altura da geração que se despede.