A última vez que um jogador de campo com mais de 38 anos marcou três gols em uma partida de Copa do Mundo foi em 1966 — e mesmo assim, o feito pertencia a um contexto tático radicalmente diferente do futebol moderno. Lionel Messi, aos 39 anos, não apenas igualou essa raridade histórica: fez contra a Argélia com uma eficiência cirúrgica que os números de xG (expected goals) explicam melhor do que qualquer adjetivo.
O hat-trick de Messi pela lente do xG
Os três gols de Messi na vitória por 3 a 0 sobre a Argélia vieram acompanhados de um xG acumulado de aproximadamente 1,8 — o que significa que ele converteu bem acima do esperado para aquelas posições de chute. Em linguagem direta: não foram gols de sorte, mas também não foram chances fáceis. Foram finalizações transformadas em gol por tomada de decisão e leitura de espaço, duas coisas que o envelhecimento não apagou no camisa 10.
O dado que mais chama atenção, porém, está nos progressive passes recebidos por Messi durante o jogo. Ele foi o destino de 11 passes progressivos — bolas que avançaram pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário — o maior número entre todos os jogadores em campo. Isso revela uma Argentina que ainda é construída para Messi, posicionando-o como o ponto de chegada do sistema ofensivo de Scaloni.
- xG de Messi na partida: ~1,8 (com 3 gols marcados)
- Progressive passes recebidos: 11 (1º entre todos os jogadores)
- Finalizações no alvo: 4 de 5 tentativas
O que Scaloni muda para enfrentar a Áustria
Segundo o diário argentino Olé, o técnico Lionel Scaloni deve promover ao menos uma alteração em relação à escalação que bateu a Argélia. Gonzalo Montiel, lateral-direito titular na estreia, está com problema na coxa e cede lugar a Nahuel Molina. No lado esquerdo, Facundo Medina mantém a posição após uma atuação que combinou marcação e ataques constantes — exatamente o perfil de lateral que alimenta a saída de bola com passes progressivos.
No meio-campo, a dúvida é entre Thiago Almada e Nico González. Almada foi funcional contra a Argélia, mas González oferece mais volume de pressing — e isso pode ser relevante contra a Áustria de Ralf Rangnick, um técnico que constrói equipes com altíssimo PPDA (passes permitidos por ação defensiva). Contra times de Rangnick, a capacidade de pressionar alto não é opcional.
A escalação provável da Argentina: Emiliano Martínez; Nahuel Molina, Cuti Romero, Lisandro Martínez, Medina; De Paul, Mac Allister, Enzo Fernández, Thiago Almada (ou Nico González); Messi, Lautaro Martínez.
Do outro lado, Rangnick enfrenta o dilema entre Sasa Kalajdzic e o veterano Marko Arnautovic — recordista de jogos e gols da seleção austríaca, mas com 37 anos e ritmo questionável. Kalajdzic foi titular contra a Jordânia, mas saiu no intervalo após atuação fraca. A dupla do RB Leipzig, Nicolas Seiwald e Xaver Schlager, deve ser mantida no meio. Stefan Posch, lateral-direito, sofreu fratura na mandíbula na estreia e pode ser substituído por Konrad Laimer na defesa.
Escalação provável da Áustria: A. Schlager; Laimer, Lienhart, Alaba, Mwene; Seiwald, X. Schlager; Schmid, Chukwuemeka, Sabitzer; Kalajdžić.
39 anos, menos minutos e mais rendimento por ação
A questão física em torno de Messi nesta Copa do Mundo é real, mas costuma ser mal interpretada. Ele não é mais o jogador que percorre 11 km por partida — nos últimos dois anos no Inter Miami, sua média de distância percorrida caiu para a faixa de 7 a 8 km por jogo. O que aumentou, proporcionalmente, foi sua eficiência por ação: cada toque, cada drible, cada finalização carrega mais peso de resultado.
Nas métricas de defensive actions, Messi praticamente não aparece — e isso é intencional. Scaloni o libera da pressão defensiva para preservar energia para os momentos decisivos. O trabalho sujo fica com De Paul e Mac Allister, que combinam alto PPDA (pressão intensa sobre o adversário) com capacidade de lançar passes longos para encontrar Messi nas costas da defesa.
"Messi está em um nível extraordinário. Ele treina diferente, cuida do corpo de um jeito que poucos jogadores fazem", disse Scaloni em entrevista coletiva antes da estreia.
Analisado em matéria do SportNavo, o padrão de movimentação de Messi contra a Argélia mostrou que ele se posicionou majoritariamente entre as linhas — no espaço entre o meio-campo adversário e a defesa — e esperou os passes progressivos chegarem. Quando recebeu, converteu. Esse é o Messi de 2026: menos pulmão da equipe, mais bisturi cirúrgico.
"Ele sabe quando economizar e quando explodir. É inteligência pura", declarou Lautaro Martínez após o jogo contra a Argélia.
A Áustria de Rangnick vai pressionar alto e tentar impedir que a Argentina construa pelo campo. O PPDA austríaco contra a Jordânia ficou abaixo de 8 — o que indica pressing intenso, com menos de 8 passes permitidos por ação defensiva. Para Messi, isso pode significar menos espaço nos primeiros 30 minutos, mas também mais espaço nas costas da defesa quando o pressing for quebrado.
Argentina e Áustria se enfrentam na segunda-feira pelo Grupo J da Copa do Mundo. Uma vitória argentina praticamente garante a classificação às oitavas de final com uma rodada de antecedência — e coloca Messi a um gol de igualar sua própria marca de artilheiro argentino em Copas, com 13 tentos no torneio.
Aos 39 anos, Messi não está tentando imitar o que foi. Está afinando o que restou — e o que restou ainda soa como um instrumento em perfeito estado de uso.








