10 anos separam a última Copa do Mundo que Neymar disputou em plena potência — o Brasil de 2014, semifinalista em casa — do Mundial que ele tenta alcançar em 2026, carregando lesões, ausências e uma conta a pagar com a história. A lista de Carlo Ancelotti sai no dia 18 de maio, e o nome do atacante do Santos divide o futebol brasileiro como poucos temas dividiram desde os pênaltis de Kaiserslautern, em 2006.
Endrick recusa o papel de advogado da defesa
Endrick, com 18 anos e titular no Real Madrid, foi direto quando pressionado a se posicionar. Enquanto Raphinha e Casemiro fazem abertamente o lobby pela convocação do camisa 10, o centroavante preferiu a cautela de quem sabe que cada palavra sua repercute em dois continentes.
"Eu não tenho uma decisão muito formada sobre a possível convocação de Neymar. A gente sabe que o Neymar é o Neymar, um grande jogador. Eu pude ver o jogo dele contra o Atlético-MG e é um jogador incrível", disse o atacante.
A fala termina com uma deferência ao técnico: "Primeiramente que seja feita a vontade de Deus, depois do Ancelotti." Não é omissão — é leitura política de um jogador que entende que a convocação não é decidida por votação entre atletas. Endrick, afinal, ainda luta pela própria vaga entre os nove atacantes que Ancelotti pretende levar ao Mundial.
Messi entra em campo pelo ex-companheiro de Barcelona
Do outro lado do Atlântico, Lionel Messi não teve a mesma contenção. Em entrevista ao canal argentino Lo Del Pollo, o campeão mundial de 2022 foi categórico ao defender a presença do brasileiro na Copa do Mundo.

"Nas Copas, queremos que estejam os melhores, e Ney, esteja como estiver, sempre vai ser um deles. Seria lindo vê-lo na Copa, pelo que significa para o Brasil e para o futebol mundial. Espero que possa estar", declarou o argentino.
Messi e Neymar dividiram o vestiário no Barcelona entre 2013 e 2017, período em que o trio com Suárez produziu 131 gols em uma única temporada, a de 2014/2015 — recorde da história do clube catalão. A amizade construída naqueles anos dá peso afetivo à declaração, mas não apaga o dado técnico embutido nela: um dos maiores jogadores de todos os tempos considera o brasileiro ainda entre a elite mundial.
Tite usa Matheus Pereira para desenhar o perfil que a Seleção não tem
A análise mais densa sobre o tema veio de quem convocou Neymar por seis anos. Tite, hoje fora da Seleção após a eliminação nas quartas de final da Copa de 2022 diante da Croácia, foi entrevistado pelo ge e usou Matheus Pereira, do Cruzeiro, como espelho para explicar o que o camisa 10 santista representa taticamente.

"O que o Neymar é, que é o que o Matheus Pereira é. Ou que outros jogadores são, o Arrascaeta. Se eu gostaria de ter um 10? Sim! Porque entendo que ter um 10 nessa zona e ter um flutuador... Tu tens quatro jogadores que ditam o ritmo para daqui a pouco ser vertical ou ser posicional", explicou o treinador gaúcho.
Tite traçou uma genealogia do número 10 no futebol brasileiro para contextualizar a escassez atual. Na geração de 1994, Mazinho e Mauro Silva eram os âncoras que liberavam Zinho e Bebeto. Em 2002, Ronaldinho Gaúcho operava exatamente nessa função de modulador que o ex-técnico descreve. O ponto do gaúcho é que a Seleção de 2026 tem oito e cinco em abundância, mas o articulador — aquele que desacelera e acelera o jogo conforme a leitura do momento — é peça rara na geração atual.
Os números que Ancelotti vai pesar no dia 18 de maio
A realidade objetiva é que Neymar não é convocado pela Seleção desde outubro de 2023, quando rompeu o ligamento cruzado do joelho esquerdo em jogo contra o Uruguai, nas Eliminatórias. São mais de 30 meses sem defender a Amarelinha — um hiato que, na história recente do Brasil, só encontra paralelo nas ausências forçadas de Ronaldo Fenômeno entre 1999 e 2002, período que terminou com o título no Japão e na Coreia do Sul.
Ancelotti já sinalizou publicamente que só levará atletas "100% fisicamente" ao Mundial. Com Rodrygo e Estêvão também machucados, quatro vagas no ataque seguem em aberto. Neymar acumula presença nos jogos do Santos na temporada 2026, incluindo a partida contra o Atlético-MG citada por Endrick, mas o ritmo de competição ainda está longe do exigido por um torneio de sete jogos eliminatórios em menos de um mês. A lista de Ancelotti, divulgada em 18 de maio, responderá de uma vez por todas se o argumento de Messi pesa mais do que o critério físico do técnico italiano.









