Os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina d'Ampezzo 2026 devem encerrar com um déficit orçamentário de 310 milhões de euros, segundo comunicado oficial do comitê organizador italiano. O saldo negativo resulta de um aumento de custos de 230 milhões de euros combinado com uma queda de 80 milhões na receita esperada, configurando um cenário financeiro que se alinha ao histórico problemático dos eventos olímpicos de inverno.

Orçamento cresce 21% em relação ao planejamento inicial

O orçamento oficial, estabelecido em 1,4 bilhão de euros quando a candidatura foi aprovada em 2019, saltou para 1,7 bilhão de euros - um crescimento de 21% que expõe as dificuldades de controle de custos em megaeventos esportivos. Os números foram apresentados aos membros da Fundação Milano Cortina durante reunião do conselho no início de dezembro, representando a previsão oficial para o fechamento orçamentário em 31 de dezembro de 2026.

O governador do Vêneto, Alberto Stefani, reconheceu os desafios financeiros em declaração pública:

"O orçamento que recebi já incluía garantias prudenciais. Faremos todas as avaliações necessárias com base nisso, considerando que as Olimpíadas obviamente exigem custos, como todos os grandes eventos"
.

Padrão histórico de déficits em Jogos de Inverno

A situação de Milão-Cortina 2026 reflete uma tendência consolidada nos Jogos Olímpicos de Inverno. Sochi 2014 custou mais de 50 bilhões de dólares à Rússia, tornando-se o evento olímpico mais caro da história. PyeongChang 2018 registrou gastos de 13 bilhões de dólares, enquanto Vancouver 2010 acumulou déficit de 1,9 bilhão de dólares canadenses. Apenas Salt Lake City 2002 conseguiu superávit significativo, beneficiando-se da infraestrutura já existente e do modelo de gestão privada americano.

Segundo apuração do SportNavo, os custos de infraestrutura esportiva específica representam o maior desafio financeiro para sedes de Jogos de Inverno. Modalidades como bobsled, skeleton e luge exigem pistas construídas com tecnologia de refrigeração artificial que podem custar entre 100 e 200 milhões de euros cada. As arenas de hockey no gelo e patinação artística demandam sistemas de climatização e equipamentos especializados que encarecem significativamente a execução.

Rateio de custos entre regiões italianas

O comitê organizador solicitou contribuições aos entes federativos para cobrir o déficit previsto. A região do Vêneto deve arcar com valores entre 26 e 40 milhões de euros, dependendo do auxílio do Comitê Olímpico Internacional, que pode injetar mais de 100 milhões de euros no orçamento. A Lombardia, que sediará a maior parte dos eventos em Milão, também será chamada a contribuir proporcionalmente.

O modelo de rateio segue o padrão adotado em Turim 2006, quando as regiões do Piemonte e Vale d'Aosta dividiram os custos excedentes. Naquela edição, o déficit final alcançou 2,2 bilhões de euros, posteriormente absorvido pelo governo central italiano através de programas de desenvolvimento regional.

Lições para futuras candidaturas olímpicas

A experiência italiana reforça a necessidade de planejamento orçamentário mais rigoroso em candidaturas olímpicas. Brisbane 2032, já confirmada como sede dos Jogos de Verão, adotou o novo modelo do COI que prioriza instalações existentes e redução de custos de infraestrutura. Para os Jogos de Inverno, a tendência aponta para candidaturas de países alpinos com estrutura consolidada de esportes de neve.

Os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina d'Ampezzo acontecem de 6 a 22 de fevereiro de 2026, com competições distribuídas entre as duas cidades italianas e expectativa de receber 1,2 milhão de turistas durante o evento.