48 horas — é o intervalo, mais ou menos, entre uma cerimônia de despedida com multidões na Praça Enghelab, no centro de Teerã, e o embarque da seleção iraniana rumo à Turquia, onde fará sua preparação final antes de cruzar o Atlântico para disputar uma Copa do Mundo em território de dois dos seus adversários declarados. Poucas delegações na história do torneio partiram carregando um peso geopolítico tão concreto quanto este.

A despedida que misturou futebol e retórica de guerra

Na quarta-feira, 13 de maio, jogadores vestidos com agasalhos vermelhos e pretos subiram ao palco da Praça Enghelab sob aplausos de milhares de torcedores, em imagens transmitidas pela televisão estatal iraniana. O técnico Amir Ghalenoei e o presidente da Federação Iraniana de Futebol, Mehdi Taj, discursaram para a multidão. Taj não poupou simbolismo político:

"A equipe representará o povo, os combatentes do país, o líder supremo Mojtaba Khamenei e a nação", declarou o dirigente.

A carga retórica do discurso não é novidade para quem acompanha o futebol iraniano há décadas. Na Copa de 1998, em França, a seleção carregou peso semelhante — e venceu os Estados Unidos por 2 a 1 na fase de grupos, num dos jogos mais politicamente carregados da história do torneio. Aquela vitória, em 21 de junho de 1998, em Lyon, ainda é tratada como feito nacional no Irã. Em 2026, os dois países nem se enfrentam na fase de grupos — mas dividem o mesmo território-sede.

O que o conflito com Israel e os EUA muda na logística da delegação

A delegação iraniana ficará baseada em Tucson, Arizona, durante a Copa — escolha que, por si só, já demanda aparato de segurança fora do comum. A FIFA e as autoridades norte-americanas precisaram negociar garantias diplomáticas para viabilizar a participação de uma seleção cujo país está em conflito ativo com o anfitrião. Na avaliação do SportNavo, nenhuma outra delegação do Grupo G — Nova Zelândia, Bélgica e Egito — chega ao torneio com variáveis extraesportivas tão determinantes sobre sua concentração e rotina.

A escala na Turquia antes da viagem aos EUA tem componente logístico e político: Ancara mantém relações diplomáticas com Teerã e oferece um corredor neutro para a delegação se preparar sem os constrangimentos que o solo americano inevitavelmente impõe.

O histórico do Irã em Copas e o que esperar de Ghalenoei

O Irã disputa sua sexta Copa do Mundo, com participações em 1978, 1998, 2006, 2014, 2022 e agora 2026. Seu melhor desempenho foi a fase de grupos — nunca avançou para o mata-mata. Em 2022, no Catar, a equipe de Ghalenoei venceu o País de Gales por 2 a 0 e perdeu para Inglaterra (6 a 2) e Estados Unidos (1 a 0), sendo eliminada na primeira fase com 3 pontos. O técnico, que assumiu o cargo em 2023, manteve o time classificado nas Eliminatórias Asiáticas com campanha sólida, terminando entre os dois primeiros da sua chave.

  • Estreia: Nova Zelândia, 15 de junho, em Los Angeles
  • 2ª rodada: Bélgica, 21 de junho, em Los Angeles
  • 3ª rodada: Egito, 27 de junho, em Seattle

O Grupo G no papel

A Bélgica chega à Copa como favorita do grupo, mas sem a geração dourada de Hazard, De Bruyne e Lukaku no auge — a transição geracional belga ainda não produziu um coletivo tão coeso. A Nova Zelândia e o Egito representam adversários tecnicamente acessíveis para o Irã avançar. Se Ghalenoei conseguir isolar o ruído externo e manter o grupo focado, uma classificação inédita às oitavas não é cenário descartável.

Futebol como extensão do Estado — e suas consequências dentro de campo

Há um paradoxo histórico que o futebol iraniano carrega desde 1998: quanto maior a pressão política sobre a delegação, mais imprevisível é seu desempenho. Em 2022, jogadores chegaram a demonstrar silêncio durante o hino nacional nas primeiras partidas, num gesto de solidariedade aos protestos internos do movimento Mulher, Vida, Liberdade — e o clima interno do vestiário foi descrito pela imprensa especializada europeia como o mais tenso entre todas as 32 seleções daquela Copa. Desta vez, com o país em guerra declarada, o discurso de Taj na Praça Enghelab sinaliza que a federação optou por amplificar, não atenuar, a dimensão política da participação. Se isso une ou divide o grupo, Ghalenoei saberá responder a partir de 15 de junho, em Los Angeles.