Não é a ausência de 24 anos que mais pesa sobre a Turquia neste domingo em Vancouver. O peso real está numa frase de Vincenzo Montella pronunciada na véspera do jogo, diante das câmeras do BC Place, com a frieza de quem faz contabilidade, não lamentação: "Arda, Hakan e Kenan — não acredito que consigam disputar 100 minutos. Tenho algumas interrogações na minha cabeça." Três interrogações, para ser exato. E cada uma delas tem nome, clube e camisa titular na seleção turca.

O Grupo D que ninguém queria pegar

O Grupo D da Copa do Mundo 2026 já mostrou seus dentes na estreia: os Estados Unidos golearam o Paraguai por 4 a 1, estabelecendo imediatamente uma régua alta de rendimento para as demais seleções da chave. Turquia e Austrália sabem, portanto, que a segunda vaga na fase eliminatória exige ao menos uma vitória logo de cara — e provavelmente seis pontos nas duas primeiras rodadas. Nesse contexto, o duelo de Vancouver deixa de ser uma estreia protocolar para se transformar numa decisão antecipada.

Há um paralelo histórico que me vem à memória toda vez que vejo um grupo assim. Em 1998, na França, o Grupo F reunia Alemanha, Iugoslávia, Irã e Estados Unidos — aparentemente desequilibrado, mas terminou com a Alemanha eliminada nos quartas por uma Croácia que havia passado por ali com facilidade. A lição é antiga: em Copa do Mundo, a dinâmica de grupo pode virar o tabuleiro antes da segunda rodada. Turquia e Austrália estão sentadas exatamente nesse tabuleiro.

A geração turca que voltou ao mapa do futebol mundial

A última vez que a Turquia disputou uma Copa do Mundo foi em 2002, na Coreia do Sul e no Japão, quando Hakan Şükür marcou o gol mais rápido da história do torneio — 11 segundos contra a Coreia do Sul — e a equipe terminou em terceiro lugar, eliminada pelo Brasil na semifinal. Antes disso, só havia participado em 1954. Dois Mundiais em 72 anos de história. A geração atual carrega, portanto, um peso simbólico que vai muito além dos 90 minutos de uma partida de grupo.

Quem sustenta essa geração é um trio de qualidade rara. Arda Güler, meia do Real Madrid com 19 anos, é o tipo de jogador que entra em campo com a leveza de quem não sabe que deveria estar nervoso. Kenan Yıldız, da Juventus, oferece desequilíbrio nos metros finais com uma naturalidade que lembra, guardadas as devidas proporções, o Youri Djorkaeff dos anos 90 — técnico, imprevisível, difícil de marcar em espaços reduzidos. E Hakan Çalhanoğlu, capitão e cérebro do meio-campo, é o tipo de jogador que regula o ritmo de uma equipe como um metrônomo: sem ele, o time perde coerência posicional.

O problema, como Montella deixou claro, é que os três chegaram ao torneio com históricos recentes de lesão. A temporada europeia 2025/2026 foi longa e fisicamente exigente, e nenhum deles chega a Vancouver em condição ideal. Montella indicou que pode poupar um ou mais da titularidade, ou ao menos limitar a minutagem — o que, num jogo dessa importância, equivale a jogar xadrez com três peças faltando no tabuleiro.

A Austrália que aprendeu a viver de experiência

Do outro lado do campo, Tony Popovic comanda uma seleção que disputa sua sexta Copa consecutiva — e sétima na história. Os Socceroos chegaram até as oitavas de final no Catar 2022, onde perderam para a Argentina após competir até o último minuto. Esse tipo de bagagem coletiva não aparece nas estatísticas técnicas, mas aparece no comportamento dentro de campo quando o placar aperta.

O Grupo D que ninguém queria pegar Montella avisa que Güler, Çalhanoğlu e Y
O Grupo D que ninguém queria pegar Montella avisa que Güler, Çalhanoğlu e Y

Milos Degenek, zagueiro da seleção australiana, não deixou passar a oportunidade de cutucar a ferida turca: lembrou publicamente que a Turquia chega com "muita esperança e muita pressão" depois de uma ausência de 24 anos, enquanto os australianos têm um grupo acostumado a esse cenário. É o tipo de declaração elegante na forma, mas cirúrgica no conteúdo — o equivalente futebolístico de tirar a cadeira de alguém antes de ele sentar.

A estrutura australiana apoia-se em pilares conhecidos: Mathew Ryan na goleira com a experiência de mais de 90 jogos pela seleção, Harry Souttar como referência aérea na defesa, e Jackson Irvine como liderança no meio-campo. Na frente, Nestory Irankunda representa a renovação — jovem, veloz, capaz de explorar os espaços que o sistema turco pode deixar nas transições defensivas, que Montella já apontou como vulnerabilidade da própria equipe.

O que cada seleção precisa esconder

  • Turquia: a fragilidade defensiva nas transições rápidas, especialmente se Çalhanoğlu não estiver em campo para cobrir o espaço entre as linhas.
  • Austrália: a previsibilidade ofensiva — o sistema de carrileiros longos e bolas paradas funciona contra times que aceitam o duelo físico, mas pode ser desarmado por uma Turquia que pressiona alto.

O que as lesões turcas podem mudar no jogo

Há um precedente que serve de moldura para entender o que Montella enfrenta. Na Copa de 2006, a Alemanha perdeu Michael Ballack para um problema muscular nas semanas que antecederam o torneio — e Jürgen Klinsmann teve de reorganizar o meio-campo inteiro, apostando em Schweinsteiger e Podolski com mais liberdade. O resultado foi um terceiro lugar, mas com um futebol diferente do planejado. Montella pode ser forçado a uma operação parecida: menos posse elaborada, mais transições verticais, aproveitando a velocidade de Yıldız mesmo que seja por 60 minutos.

A grande questão tática é se a Turquia consegue jogar com intensidade alta — o principal trunfo que Montella pregou durante toda a preparação — sem seus três principais criadores em plena condição física. O técnico italiano, em matéria do SportNavo publicada com base em suas declarações em Vancouver, foi claro: "Não seremos precipitados. Jogaremos nosso futebol com paciência." Paciência, nesse contexto, pode ser tanto sabedoria quanto eufemismo para limitação.

O que está em jogo em Vancouver vai além dos três pontos. Uma vitória turca consolida a narrativa do retorno triunfal e coloca a seleção em posição confortável antes do confronto com os Estados Unidos. Uma derrota, por outro lado, transforma o segundo jogo numa final antecipada — e aí, a pressão de 24 anos de ausência deixa de ser poesia e vira problema concreto de tabela. A Turquia enfrenta a Austrália neste domingo às 22h (horário de Brasília), no BC Place, em Vancouver, com a obrigação tácita de que Güler, Çalhanoğlu e Yıldız, mesmo limitados, precisam aparecer em algum momento da partida.