Domingo, 4 de maio de 2026. Enquanto o GP de Miami ainda esfriava no asfalto da Flórida, o paddock da Fórmula 1 já fervia por razões bem mais complexas do que qualquer ultrapassagem vista na corrida. Juan Pablo Montoya, tetracampeão de CART e vencedor de Indianápolis em 2000, foi ao microfone do podcast Chequered Flag, da BBC, e disse o que muitos dirigentes pensam mas não ousam falar: Max Verstappen deveria ser punido por suas declarações contra o regulamento 2026.

O que Montoya pediu e por que isso importa tecnicamente

O colombiano não usou meias palavras ao lado de Damon Hill, campeão mundial de 1996. Para Montoya, as críticas de Verstappen ao novo pacote de regras — que inclui motores híbridos com divisão 50/50 entre combustão interna e unidade de potência elétrica — ultrapassam o limite do aceitável. O holandês chegou a comparar o comportamento do carro a um jogo de videogame, o que irritou o ex-piloto.

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"É preciso respeitar o esporte. Para mim, o que os pilotos estavam fazendo… Tudo bem vocês não gostarem do regulamento, mas a forma como estavam falando sobre o que lhes garante o sustento, e sobre o próprio esporte, deveria haver consequências para isso", disse Montoya.

A proposta do colombiano é cirúrgica: adicionar sete ou oito pontos à superlicença de Verstappen. Para quem não conhece o sistema, a superlicença funciona como uma carteira de habilitação profissional da FIA — cada piloto pode acumular no máximo 12 pontos de penalidade em 12 meses antes de ser suspenso por uma corrida. É exatamente como pontos na CNH brasileira: acumule demais e você fica em casa.

"Tire-o. Adiciona sete pontos ou oito pontos à superlicença, que, assim, não importa o que você faça depois, você vai ser tirado. E eu garanto que toda a mensagem seria diferente. Não estou dizendo 'não seja franco', mas não venha chamar um carro de F1 de Mario Kart", completou Montoya.

Do ponto de vista técnico, as queixas de Verstappen têm alguma base. O novo regulamento criou carros com centro de gravidade mais alto por conta da bateria de 400 kW, o que afeta o balanço aerodinâmico — a relação entre o downforce gerado na dianteira e na traseira. Quando esse balanço oscila em curvas de alta velocidade, o piloto sente o carro "flutuar", perdendo confiança na frenagem. O problema é que reclamar publicamente não conserta diferencial nenhum.

Verstappen no limite e a Red Bull sem resposta imediata

O tetracampeão holandês não escondeu sua frustração ao longo dos primeiros GPs da temporada 2026. Em Miami, após um problema na largada que o jogou para o fundo do pelotão, Verstappen chegou a liderar a tabela de tempos em determinado momento da corrida, mas a estratégia da Red Bull — que apostou em um undercut tardio, ou seja, chamar o piloto ao pit stop antes do rival para ganhar posição com pneus mais frescos — não funcionou como esperado. O holandês afirmou que ainda precisa reduzir o ritmo em determinados trechos da pista por causa das limitações do pacote atual.

A análise do SportNavo mostra que o padrão de degradação térmica dos pneus — o processo pelo qual o calor acumulado na borracha destrói a camada superficial e reduz o grip — está mais agressivo em 2026 justamente porque os carros geram mais torque elétrico na saída das curvas lentas, sobrecarregando o eixo traseiro. É como pedir para um motor de caminhão operar no regime de rotação de uma moto esportiva: o equipamento responde, mas o desgaste é brutal.

A Turquia como válvula de escape para um calendário sob pressão

Enquanto a polêmica técnica e comportamental se desenrolava no paddock americano, Mohammed Ben Sulayem, presidente da FIA, lidava com um problema de logística geopolítica de primeira grandeza. A instabilidade no Oriente Médio colocou em risco as etapas do Bahrein e da Arábia Saudita, dois pilares financeiros do calendário atual. A solução estudada pela entidade é antecipar o retorno do GP da Turquia, originalmente previsto para 2027 dentro de um contrato de cinco anos com o circuito de Istambul Park.

"Talvez possamos ter a Turquia este ano, se tudo estiver pronto em termos de homologação e requisitos necessários", afirmou Sulayem, sinalizando que a decisão depende de prazos técnicos e de segurança.

O dirigente foi categórico ao definir a hierarquia de prioridades: "Há algo maior do que o automobilismo. Segurança vem em primeiro lugar. Se a situação continuar, talvez simplesmente não possamos correr lá." Outras opções em análise incluem reorganizar as datas de Azerbaijão, Singapura e Catar, ou estender o campeonato por uma semana adicional. Istambul Park, por sua vez, já recebeu a F1 entre 2005 e 2011 e voltou em 2020 e 2021 durante a pandemia, então a infraestrutura de base existe — o desafio é a homologação das atualizações exigidas pelo regulamento 2026.

A FIA tem até o fim de maio para comunicar oficialmente qualquer alteração no calendário que afete as etapas de junho em diante. Se a Turquia entrar na grade ainda em 2026, a corrida mais provável seria em setembro, ocupando uma janela hoje reservada como data de folga entre Singapura e o Japão.