A coletiva de imprensa era para falar da Costa do Marfim. O repórter fez uma pergunta de protocolo — se o técnico conseguia acompanhar os outros jogos da Copa. Julian Nagelsmann respondeu com a naturalidade de quem não percebeu que estava entregando uma manchete: a seleção que mais o impressionou, até aqui, não é a Espanha de Yamal, nem a França, nem o Brasil. São os Estados Unidos.

O que Nagelsmann viu que outros técnicos ainda não colocaram em palavras

Nagelsmann foi preciso no diagnóstico. Não elogiou a técnica individual, não mencionou nomes de jogadores — falou de um conjunto que combina dois elementos raramente associados ao futebol americano em edições anteriores: emoção e força física organizada. A vitória por 4 a 1 sobre o Paraguai na estreia foi o gatilho do encantamento.

"Acho que os Estados Unidos estão jogando muito bem. Eles aliam a emoção com a força. A primeira partida deles foi impactante", declarou o treinador alemão na coletiva desta sexta-feira (19).

Quem acompanha o futebol americano desde os anos 1990 sabe o peso histórico dessa observação. Na Copa de 1990, quando os EUA voltaram ao Mundial após 40 anos de ausência, a seleção perdeu os três jogos da fase de grupos, marcou apenas dois gols e foi eliminada sem nenhuma vitória. Em 1994, jogando em casa, chegaram às oitavas com a geração de Alexi Lalas e Cobi Jones, mas caiu para o Brasil por 1 a 0 no placar mínimo. Em 2002, sob o comando de Bruce Arena, atingiram as quartas de final — o melhor resultado da história —, eliminando Portugal e Portugal e empatando com a Coreia do Sul antes de cair para a Alemanha de Oliver Kahn por 1 a 0 em Ulsan. Em 2026, a seleção americana não apenas disputa a Copa em casa: ela já está classificada para o mata-mata após dois jogos, com vitória de 2 a 0 sobre a Austrália nesta sexta-feira, somada ao triunfo inaugural sobre o Paraguai.

A evolução americana medida em placares e gerações

A linha de desenvolvimento do futebol nos Estados Unidos tem marcos documentados. A criação da Major League Soccer em 1996 — com Pelé já aposentado, mas com Carlos Valderrama, Roberto Donadoni e Marco Etcheverry como atrações — foi o primeiro tijolo institucional. Dois anos depois, os EUA caíram na fase de grupos da Copa de 1998 na França, com derrota por 2 a 1 para o Irã, um resultado que gerou mais comoção política do que esportiva. A Copa de 2010 na África do Sul trouxe Landon Donovan e uma campanha digna — primeiro lugar no Grupo C, acima da Inglaterra —, mas uma eliminação nas oitavas para o Gana por 2 a 1 na prorrogação. Em 2022, no Catar, os americanos voltaram ao Mundial após ficarem fora em 2018 e mostraram uma geração completamente diferente: Christian Pulisic no Chelsea, Weston McKennie na Juventus, Tyler Adams no Leeds. Saíram nas oitavas para a Holanda por 3 a 1, mas o nível técnico individual já era outro.

O que Nagelsmann identifica em 2026 é o salto de qualidade coletiva — a geração talentosa do Catar chegou à maturidade e está jogando em casa, diante de 80 mil torcedores que finalmente entendem o que estão vendo. Não há ironia em dizer que a Copa nos EUA está ensinando os americanos a amar o futebol em tempo real: é simplesmente contabilidade de público e engajamento.

"Eu acompanhei, sim, algumas partidas. Claro que não dá para assistir a todas com 100% de concentração, mas, muitas vezes, a gente deixa a TV de fundo passando e acompanha", relatou Nagelsmann, antes de apontar os EUA como o destaque.

A Alemanha diante da Costa do Marfim enquanto observa o horizonte americano

O elogio de Nagelsmann aos EUA não é gratuito: é o reconhecimento de um técnico que, antes de pensar no mata-mata, precisa resolver um problema imediato. No sábado (20), às 16h de Brasília, a Alemanha enfrenta a Costa do Marfim — uma seleção que, segundo o próprio treinador, apresentou variações táticas imprevisíveis durante a última Copa Africana de Nações e pode surgir em campo com um 4-3-3, um 4-4-2 ou algo completamente diferente.

Nagelsmann destacou o atacante Pépé como elemento de desequilíbrio marfinense — "estava impossível de ser marcado, aparecia em todas as partes do campo" na vitória sobre o Equador — e a velocidade como característica central dos Elefantes. A Alemanha, que tem no seu DNA histórico a organização tática e a eficiência em grandes torneios — quatro títulos mundiais, em 1954, 1974, 1990 e 2014 —, sabe que uma derrota aqui complica a classificação e desvia o foco de qualquer análise sobre o que os americanos estão construindo.

O que a Alemanha enxerga nos EUA é, no fundo, um espelho do que ela própria tentou fazer durante décadas: transformar um país de dimensões continentais em potência futebolística através de infraestrutura, formação de base e profissionalização das ligas locais. Os alemães fizeram isso após a Copa de 2000, quando uma geração de jogadores medíocres foi humilhada na Eurocopa e a Federação Alemã reformulou todo o sistema de formação. O resultado veio em 2014, no Maracanã, com o 7 a 1 no Brasil e o título mundial. Os americanos estão em estágio diferente, mas a trajetória tem lógica reconhecível para Nagelsmann — e é por isso que o elogio soa técnico, não protocolar. A Alemanha joga sábado pela classificação no Grupo E; os EUA já estão no mata-mata e aguardam seus adversários.