Não, a fragilidade aérea do Flamengo não é consequência direta da troca de treinador. O dado que assusta — 11 dos 25 gols sofridos em 2026 vieram de jogadas aéreas, o equivalente a 44% — atravessa duas gestões técnicas distintas: seis desses gols foram concedidos ainda sob Filipe Luís, os outros cinco já no ciclo de Leonardo Jardim. O problema é estrutural, e a vitória por 1 a 0 sobre o Grêmio neste domingo (10), pela 15ª rodada do Brasileirão, não apagou o sinal de alerta.

O número que os adversários já decoraram

Renato Gaúcho não escondeu a estratégia depois do empate por 2 a 2 com o Vasco, quando os dois gols do time carioca saíram exatamente dessa fonte.

"O primeiro gol foi bastante treinado. Sabíamos que o Flamengo está tomando alguns gols naquele setor. Hoje, não batemos escanteio curto, botamos a bola na área justamente onde o Robert fez o gol. Falo para eles: 'coloquem a bola na área que lá tudo acontece'"
, declarou o técnico gaúcho após o clássico. Robert Renan e Hugo Cuesta foram os autores dos gols de cabeça, e a confissão pública de Renato transforma o dado estatístico em manual tático aberto para qualquer rival.

O número que os adversários já decoraram Não é problema novo, mas o Flamengo de
O número que os adversários já decoraram Não é problema novo, mas o Flamengo de

O levantamento rastreado pelo SportNavo aponta que a lista de gols sofridos pelo Fla em bola aérea na temporada inclui nomes como Luciano, do São Paulo, que aproveitou falha de posicionamento entre Léo Pereira e Alex Sandro, e John Kennedy, do Fluminense, que finalizou após ajeitada de Bernal em escanteio cobrado por Lima. São situações distintas — erros individuais, falhas de marcação de zona e de marcação individual —, o que dificulta uma solução única.

O meio-campo que sustentava a marcação aérea está desmontado

Para piorar o diagnóstico, Jardim chega às semanas decisivas sem os dois volantes titulares disponíveis. Pulgar e Allan sofreram lesão muscular na coxa direita durante a vitória sobre o Bahia e devem ficar fora por uma a duas semanas, descartados do confronto diante da LDU pela Libertadores na quinta-feira (15). Pulgar ainda carrega o peso de uma suspensão prévia — quatro partidas pelo STJD, das quais três ainda restam — após expulsão contra o Red Bull Bragantino e punição enquadrada no artigo 254-A do Código Brasileiro de Justiça Desportiva por agressão ao adversário Herrera. Gerson, capitão, está suspenso para o clássico contra o Botafogo no próximo domingo.

A tendência é que Evertton Araújo entre no trio de meio-campo com De La Cruz e Gerson — quando o capitão estiver disponível. Contra a LDU, Jardim pode recorrer a Léo Ortiz adiantado como volante, improviso que o próprio zagueiro já executou, ou escalar três zagueiros com Danilo como titular, linha defensiva que Filipe Luís treinou em 2025, mas que Jardim ainda não acionou em 2026.

Carrascal decide, mas a vitória sobre o Grêmio não resolve o que vem pela frente

Jorge Carrascal foi o autor do único gol do jogo, aos 22 minutos do segundo tempo. Léo Ortiz levantou por elevação para a infiltração de Emerson Royal, que cruzou de primeira. O colombiano finalizou de canhota e superou Weverton.

"Fizemos uma partida como havíamos planejado, com muitos movimentos e muitas rotações. Estamos fazendo o nosso trabalho super bem e acredito que os resultados aparecerão ao final do campeonato"
, afirmou Carrascal na saída de campo ao Premiere.

O resultado levou o Flamengo a 30 pontos — quatro atrás do Palmeiras, que ainda tem uma partida a mais. O Grêmio, por sua vez, viu Weverton ser o melhor em campo mesmo na derrota, com nota 7.5, enquanto Balbuena e Gustavo Martins ficaram expostos no lance do gol, quando Carrascal finalizou praticamente sozinho dentro da área.

O que os anos 90 ensinaram sobre marcação aérea e o que Jardim ainda precisa aprender

Há um paralelo histórico que serve de referência: o Flamengo do tricampeonato carioca entre 1996 e 1998, sob Vanderlei Luxemburgo, tinha em Júnior Baiano e Aldair uma das duplas de zagueiros mais eficientes no jogo aéreo defensivo do futebol brasileiro — os dois somavam mais de 1,85m e o time concedia menos de 30% dos gols sofridos em bola parada naquele período, segundo registros da época. O elenco atual tem Léo Pereira e Léo Ortiz como principais referências nesse quesito, mas a distribuição espacial nas cobranças de bola parada tem falhado sistematicamente, independentemente de quem está no gol.

Antes de pensar no Botafogo ou na LDU, o Flamengo reencontra o Vitória na quinta-feira (14), no Barradão, em Salvador, pelo jogo de volta da quinta fase da Copa do Brasil. O Rubro-Negro venceu a ida por 2 a 1 no Maracanã e joga com a vantagem do resultado, mas o estádio baiano é terreno fértil para bolas alçadas na área — e agora os adversários sabem exatamente onde apertar.