Diz-se que um jogador nascido em Paris, formado em Rouen, que cresceu vendo treinos no Stade de France, naturalmente torce pela França. A lógica parece irrefutável. Iliman Ndiaye, no entanto, nunca pediu licença para desfazê-la — e fez isso com uma tranquilidade que, em véspera de Copa do Mundo, soa quase como provocação.

Nesta terça-feira (16), sob o sol de junho que não negocia com ninguém, França e Senegal se encontraram pela primeira rodada da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026, disputada nos Estados Unidos, México e Canadá. O placar ficou em 0 a 0 até o intervalo, mas o jogo carregou uma tensão que começou muito antes do apito inicial — e que tem o nome e a história de Ndiaye estampados na capa.

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A frase que Ndiaye disse e que a França não esquece

Na véspera do confronto, em entrevista à revista France Football, o atacante do Everton foi direto. Relembrou que seu primeiro clube de infância, o Rouen Sapin, o levou para assistir a um treino da seleção francesa justamente no Stade de France — o templo do futebol francês, o lugar onde Zidane foi campeão do mundo em 1998. Uma memória bonita, ele admitiu. Mas o que veio depois foi o que repercutiu:

"Meu primeiro souvenir ligado aos Bleus foi quando meu primeiro clube, o Rouen Sapin, nos levou para ver a seleção no Stade de France. É uma lembrança incrível, mas a seleção francesa jamais me fez sonhar — não é a minha história. Já o Senegal-França de 2002, eu não vi ao vivo, mas assisti mil vezes depois. Muitos de nós esperávamos esse jogo. Queríamos esse sorteio." — Iliman Ndiaye, ao France Football

A declaração não foi um acidente de linguagem. Ndiaye sabia o que estava dizendo, para quem estava dizendo e em que momento estava dizendo. Às vésperas de encarar os Bleus numa Copa do Mundo, ele escolheu a clareza como arma. E a referência ao jogo de 2002 — quando o Senegal eliminou a França campeã na fase de grupos, numa das maiores zebras da história do torneio — não foi coincidência. Foi memória coletiva acionada com precisão cirúrgica.

Da base francesa à camisa dos Leões da Teranga

A trajetória de Ndiaye é a de uma geração inteira: nascido na França, filho da diáspora senegalesa, formado em clubes franceses, mas com o coração ancorado em Dacar. Quando chegou o momento de escolher uma seleção, a resposta foi construída ao longo de anos de silêncio, de identidade e de pertencimento. A França tinha o estádio, tinha a infraestrutura, tinha o brilho técnico que ele mesmo reconheceu — "tinha estrelas nos olhos vendo o nível de jogo deles", disse. Mas o Senegal tinha o que o Stade de France não pode oferecer: a sensação de que aquela camisa era dele.

Hoje jogador do Everton, Ndiaye passou também pelo Olympique de Marselha antes de se firmar na Premier League. Em campo, é um atacante de movimentação intensa, capaz de criar desequilíbrio pelos flancos e conectar o jogo entre as linhas. Na seleção senegalesa, atua ao lado de nomes como Sadio Mané e Ismaila Sarr, compondo um trio ofensivo que, nesta Copa, já demonstrou que olha qualquer adversário de frente. O próprio Ndiaye mencionou o amistoso contra a Inglaterra, em 10 de junho de 2025, terminado em 3 a 1 para o Senegal em Nottingham, como prova de que os Leões da Teranga chegaram a outro patamar.

"O futebol africano está ultrapassando uma barreira, chegando a outro nível. O Marrocos quebrou um teto de vidro em 2022 chegando às semifinais. A gente sente isso quando enfrenta grandes nações — olhamos qualquer um nos olhos. Queremos trazer a Copa do Mundo para a África." — Iliman Ndiaye, ao France Football

O gol que Sarr não fez e o que ele revela sobre o jogo

Se a tensão pré-jogo foi construída com palavras, dentro de campo ela se materializou num momento que parou o primeiro tempo: Ismaila Sarr, do Crystal Palace, recebeu um cruzamento de Sadio Mané na área francesa, com o gol escancarado, e chutou para fora. A chance aconteceu nos minutos finais da primeira etapa e foi imediata e ferozmente repercutida nas redes sociais. "Um erro chocante", escreveu um comentarista em inglês. "O Senegal está jogando melhor que a França", completou outro. Mbappé, enquanto isso, foi marcado de perto a ponto de um torcedor escrever que ele "estava sendo humilhado como num jogo de rua".

A França, que chegou ao jogo como favorita e com a expectativa de estrear com autoridade, não criou nada de concreto no primeiro tempo. Os Bleus pareciam pesados, previsíveis, distantes da fluidez que se espera de uma seleção do seu calibre. O Senegal, por sua vez, pressionou, chegou com perigo e só não saiu na frente por conta da pontaria de Sarr — que, ironicamente, já protagonizou momentos marcantes em Copas anteriores, como em 2022 no Catar, onde converteu um pênalti decisivo contra o Equador e usou a comemoração para chamar atenção para os conflitos na República Democrática do Congo, num protesto que passou quase despercebido pela mídia internacional.

A partida segue em aberto no momento em que este texto é publicado, com o marcador zerado e a segunda etapa prometendo o que a primeira não entregou em gols, mas entregou em narrativa. Para Ndiaye, cada minuto em campo contra a França é a resposta viva àquela pergunta que ninguém precisou fazer: por que você não escolheu os Bleus? Porque o Senegal era a história que fazia sentido. E hoje, diante de 80 mil pessoas num estádio americano, essa história está sendo escrita em tempo real.

"Quando um jogador diz que uma seleção nunca o fez sonhar, ele não está insultando ninguém — está dizendo onde o coração mora. E coração, em futebol, decide partidas." — comentarista europeu durante a transmissão do jogo

O vencedor deste confronto avança com três pontos no Grupo D da Copa do Mundo 2026. O perdedor terá que reagir já na segunda rodada, com pressão imediata e margem mínima para erro numa fase de grupos que não costuma perdoar tropeços iniciais.