Terça-feira, CT Rei Pelé, início da manhã. Quando Neymar entrou no refeitório e encontrou o bolo preparado pelo clube para comemorar sua convocação para a Copa do Mundo, ele já havia chorado por várias horas — confessou isso ele mesmo, sem rodeios. Não é pouca coisa para um atleta de 34 anos que acumula três Mundiais disputados, 77 gols pela Seleção Brasileira e uma das carreiras mais turbilhonadas do futebol contemporâneo.

O caminho de volta que ninguém apostava ser possível

Quando Santos anunciou o retorno de Neymar em janeiro de 2026, o ceticismo era proporcional ao histórico recente do atacante: uma passagem apagada pelo Al-Hilal, onde disputou apenas 7 partidas entre 2023 e 2024 devido a uma ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo — a mesma lesão que o tirou do Mundial do Qatar em outubro de 2022, após apenas dois jogos. O retorno à Prainha não era visto como redenção, mas como epílogo.

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Os números da carreira de Neymar em Copas do Mundo, contudo, exigem respeito histórico. Nas três edições que disputou — África do Sul 2010, Brasil 2014 e Qatar 2022 — somou 8 gols e 3 assistências em 14 partidas, com aproveitamento de 71,4% nos jogos em que esteve em campo. Em 2014, foi artilheiro do Brasil com 4 gols antes de se lesionar contra a Colômbia nas quartas de final. Em 2022, mesmo saindo machucado ainda na fase de grupos, marcou 2 gols e conduziu a equipe até as quartas, onde o Brasil foi eliminado pela Croácia nos pênaltis. Para fins de comparação, Pelé marcou 12 gols em 14 jogos de Copa (1958, 1962, 1966 e 1970); Ronaldo Fenômeno, 15 gols em 19 partidas. Neymar já é o terceiro maior artilheiro brasileiro em Mundiais, à frente de Jairzinho (9 gols) e Leônidas da Silva (8 gols).

O caminho de volta que ninguém apostava ser possível Neymar chorou por horas no
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O Santos, ao apostar na recuperação do camisa 10, não estava apenas resgatando um ídolo afetivo — estava executando uma jogada técnica calculada. O técnico Cuca, que havia trabalhado com Neymar nas categorias de base do clube entre 2007 e 2009, conhecia os gatilhos que o faziam render: confiança irrestrita, ambiente familiar e protagonismo tático. Essas três condições foram oferecidas desde o primeiro dia no CT Rei Pelé.

O desentendimento com Robinho Jr. e a reconciliação que selou o grupo

A convivência no elenco santista não foi isenta de atritos. No início de maio de 2026, ao fim de um treinamento, Neymar e Robinho Júnior — jovem atacante de 19 anos revelado pelas categorias de base do clube — tiveram um desentendimento que chegou a preocupar a comissão técnica. Os detalhes do episódio não foram revelados oficialmente, mas fontes internas indicaram que a tensão envolvia disputas por espaço em uma jogada específica de treino.

O que veio depois foi revelador do estado emocional de Neymar em 2026. Ao receber a notícia da convocação para o Mundial, a primeira atitude do camisa 10 foi buscar Robinho Júnior pessoalmente para um abraço. A cena foi captada pela SantosTV e circulou nas redes sociais do clube. Em seu discurso ao elenco, Neymar não citou o episódio diretamente, mas deixou a mensagem implícita ao agradecer a todos que estiveram com ele «principalmente na dificuldade».

"Primeiramente, quero agradecer e dizer que, desde que voltei para cá, eu me sinto em casa. É algo difícil de explicar em palavras. A minha convocação ontem não foi só minha, foi de todos vocês, porque todos fazem parte do processo e estiveram comigo a todo momento — seja dentro de campo, cuidando da segurança, do nosso corpo ou da nossa comida."

A reconciliação com Robinho Júnior tem valor simbólico que vai além do vestiário. Em toda a história do Santos, episódios de tensão entre veteranos e jovens talentos raramente terminaram bem: a saída de Pelé em 1974, por exemplo, foi antecedida por atritos internos documentados pela imprensa da época. Que Neymar tenha escolhido o gesto de conciliação — e não o de autoridade — diz algo sobre a maturidade que o clube ajudou a construir nesta passagem.

O que a convocação de Neymar significa para a Copa do Mundo

A convocação de Neymar pelo técnico Carlo Ancelotti representa um dado estatístico inédito: nenhum jogador brasileiro havia sido convocado para quatro Copas do Mundo depois de completar 34 anos desde Dida, goleiro que integrou a lista de Parreira para a Alemanha 2006 com essa idade. Entre os atacantes, o caso mais próximo é o de Romário, que foi convocado por Zagallo para a França 1998 aos 32 anos, mas foi cortado por lesão muscular na véspera da competição.

O estado físico de Neymar, contudo, impõe cautela. Com um edema na panturrilha detectado nos últimos dias, o atacante foi poupado da partida entre Santos e San Lorenzo, válida pela Copa Libertadores, marcada para esta quarta-feira (20), às 19h, na Vila Belmiro. Apesar de fora da lista de relacionados, Neymar confirmou presença nas arquibancadas para apoiar o grupo — o Santos precisa da vitória para manter vivas as chances de classificação no Grupo H, onde ocupa a lanterna.

"Eu confesso que ontem chorei por várias horas porque não foi fácil chegar até aqui. Não foi. Mas, depois que meu nome foi anunciado, vi que valeu a pena passar por cima de tudo e aguentar o esforço. Vocês me ajudaram de todas as formas, principalmente na dificuldade. Muito obrigado!"

A analogia que me ocorre é a de um violinista que fraturou os dedos e precisou reaprender a tocar em um conservatório menor, longe dos grandes palcos, antes de voltar à sala de concertos. O Santos funcionou como esse conservatório — não pela dimensão do clube em 2026, que enfrenta dificuldades na Libertadores, mas pela qualidade do ambiente humano que ofereceu ao craque. Cuca, os fisioterapeutas do CT Rei Pelé, o roupeiro, o cozinheiro — todos foram citados por Neymar no discurso ao elenco, e essa especificidade não é retórica vazia.

O planejamento físico a partir de agora terá foco exclusivo na Copa do Mundo, com protocolo a ser definido pelos médicos do Santos em conjunto com a comissão técnica da Seleção. A janela até o início do Mundial é estreita, e qualquer recaída no edema da panturrilha pode comprometer não apenas a participação em jogos preparatórios, mas a própria condição de titular nas primeiras rodadas da competição. Ancelotti precisará decidir se usa Neymar desde o início ou o preserva como recurso para o mata-mata — decisão que os dados históricos tornam difícil: em 2022, o Brasil perdeu sem o camisa 10 em campo.

Na tarde de terça-feira, ao gravar um recado para a torcida santista, Neymar foi direto: «A minha convocação é a convocação de vocês.» A frase pode soar protocolar, mas o contexto a torna precisa. Sem o Santos de 2026 — sem Cuca, sem Robinho Júnior, sem o bolo no refeitório do CT Rei Pelé —, o quarto Mundial de Neymar talvez não existisse. O clube o trouxe de volta ao futebol; agora, cabe ao atleta devolver ao Brasil o que o Brasil espera há 24 anos — a Copa do Mundo está na mira — falta Neymar provar, em campo, que as lágrimas desta terça foram o começo, não o fim.