Neymar não está no álbum. Em 30 de janeiro de 2025, quando a Panini colocou à venda o álbum oficial da Copa do Mundo 2026 — o maior da história da competição, com 980 figurinhas de 48 seleções —, o nome mais famoso do futebol brasileiro simplesmente não apareceu entre os 20 cromos reservados à Seleção. Para qualquer torcedor que cresceu colando a figurinha do camisa 10 com quase devoção religiosa, a lacuna é desconcertante. Para quem analisa o esporte como fenômeno social e político, ela é sintomática.

Uma ausência explicada, mas não resolvida

O CEO da Panini, Raul Vallecillo, ofereceu ao jornalista Marcel Rizzo, do Estadão, a explicação técnica para a omissão.

"Os atletas são selecionados a partir do histórico de convocações desde a última Copa. Há uma análise com base em amistosos, campeonatos disputados entre as Copas, etc"
disse Vallecillo. A lógica é clara no papel: Neymar disputou apenas 5 partidas pelo Al-Hilal desde que chegou à Arábia Saudita, todas interrompidas por recaídas no joelho esquerdo operado em outubro de 2023. Seu histórico de convocações recentes é, objetivamente, nulo. A Panini apenas registrou o que a CBF ainda hesita em admitir publicamente.

A análise do SportNavo mostra que, entre as 20 figurinhas reservadas ao Brasil, figuram jogadores como Rodrygo, do Real Madrid, que está lesionado e não deverá disputar a Copa. A presença do atacante e a ausência de Neymar iluminam a diferença entre um jogador temporariamente indisponível e um atleta cuja regularidade competitiva está em xeque estrutural. Rodrygo é convocado rotineiramente; Neymar não é convocado há mais de dois anos.

Uma ausência explicada, mas não resolvida Neymar fora do álbum da Copa revela ma
Uma ausência explicada, mas não resolvida Neymar fora do álbum da Copa revela ma

O mercado editorial como termômetro de convocação

A Panini não é um oráculo esportivo, mas seus critérios de seleção funcionam como um espelho frio da realidade institucional do futebol. O álbum de figurinhas movimenta cifras expressivas: em 2022, estimativas do setor apontaram que o mercado brasileiro de colecionáveis da Copa gerou mais de R$ 500 milhões em receita direta — entre álbuns, pacotes e produtos licenciados. Com pacotes que agora custam R$ 7 e contêm sete figurinhas (ante cinco nas edições anteriores), a edição de 2026 projeta crescimento ainda mais robusto, impulsionado pelo ineditismo de uma Copa com 48 seleções.

Nesse contexto mercadológico, a ausência de Neymar representa também uma decisão comercial de alto risco para a Panini. O jogador é, historicamente, a figurinha mais procurada do Brasil, com poder de impulsionar vendas e buscas nas plataformas digitais. Se a empresa optou por excluí-lo mesmo assim, é porque a análise interna de risco reputacional de incluir um atleta de presença incerta superou o benefício comercial de sua imagem.

O que a CBF ainda não disse em voz alta

A Copa do Mundo 2026 será realizada entre junho e julho nos Estados Unidos, Canadá e México — com o Brasil estreando no torneio que, pela primeira vez na história, reunirá 48 seleções. O técnico Dorival Júnior não convocou Neymar em nenhum dos últimos ciclos de preparação. A CBF, por sua vez, mantém um silêncio estratégico sobre o assunto, evitando tanto a porta fechada definitiva quanto a promessa de retorno que geraria pressão midiática incontrolável.

Do ponto de vista sociológico, esse silêncio institucional tem um custo. Pesquisas de audiência da Copa América 2024 mostraram que o interesse do público brasileiro pelo torneio caiu cerca de 18% em comparação com 2019, segundo dados do Kantar Ibope Media — período em que Neymar também esteve ausente por lesão. A figurinha vazia no álbum reproduz, em escala doméstica, uma lacuna simbólica que a Seleção ainda não aprendeu a preencher com narrativa alternativa.

Colecionadores, dados e uma decisão que já foi tomada

A edição digital do álbum, lançada simultaneamente pela Panini com 11 figurinhas digitais por seleção e sistema de troca global via códigos promocionais, amplia o alcance do produto para uma geração de colecionadores que migrou para plataformas online. Neymar também não aparece nessa versão. A ausência é, portanto, multiplataforma — e isso diz muito sobre a percepção de risco da empresa em associar sua propriedade intelectual a um atleta de presença institucional incerta.

O prazo para que Neymar entre nas cogitações concretas de Dorival Júnior é estreito. A convocação final do Brasil para a Copa do Mundo 2026 deverá ser anunciada em maio ou junho do mesmo ano. Para que o camisa 10 seja incluído, precisaria retornar a campo pelo Al-Hilal ainda na temporada 2024-25, acumular minutos consistentes e demonstrar condição física compatível com o nível de exigência de um Mundial. A figurinha, enquanto isso, ficará em branco — e essa ausência no álbum já é, por si só, uma convocação negada pelo peso dos fatos.