Quantos gols, em quantas partidas, com qual aproveitamento físico precisa um jogador de 34 anos para justificar uma convocação à Copa do Mundo? A pergunta parece simples, mas no caso de Neymar ela carrega o peso de três lesões graves, quase três anos de ausência da Seleção Brasileira e um histórico em Mundiais que nenhum outro brasileiro vivo conseguiu reproduzir.

O debate não surgiu agora. Desde que Neymar retornou ao Santos em janeiro de 2025, após a rescisão com o Al-Hilal, o futebol brasileiro dividiu-se entre os que enxergam um atleta reconstruído e os que veem um risco clínico demais para uma Copa que o Brasil leva 24 anos sem vencer. O que mudou nas últimas semanas foi a qualidade das vozes que entraram no coro — e a urgência do calendário, com o torneio nos Estados Unidos, México e Canadá se aproximando.

O que os números de Neymar no Santos revelam nesta temporada

Na temporada 2025/2026, Neymar acumula participações diretas em gols pelo Santos no Campeonato Brasileiro — entre tentos marcados e assistências — com minutagem que ainda oscila em função do gerenciamento físico imposto pela comissão técnica santista. O atacante não completou 90 minutos em sequência por mais de três partidas consecutivas sequer uma vez desde o retorno, dado que a própria diretoria do clube reconhece como protocolo preventivo após as rupturas do ligamento cruzado anterior do joelho direito, sofridas em outubro de 2023 e novembro do mesmo ano no Al-Hilal.

O histórico copa-a-copa de Neymar é o argumento mais poderoso dos seus defensores: 6 gols em 2014 — artilheiro isolado do Brasil na campanha até a semifinal contra a Alemanha —, 2 gols em 2018 e 2 gols em 2022, totalizando 10 tentos em três edições, o que o coloca empatado com Ronaldo Fenômeno (15 gols em quatro Copas) como o maior artilheiro brasileiro vivo em Mundiais. Pelé, com 12 gols em três edições (1958, 1962 e 1970), continua sendo o recorde nacional absoluto. Nenhum jogador da atual geração chegou perto dessa marca.

O que os números de Neymar no Santos revelam nesta temporada Neymar merece uma v
O que os números de Neymar no Santos revelam nesta temporada Neymar merece uma v
"Quando um jogador tem o histórico dele em Copas, você não descarta pelo calendário de um clube. Você descarta quando ele deixa de ser decisivo — e isso ainda não aconteceu", avaliou um analista tático que acompanha a Seleção há mais de duas décadas.

Messi, Romário e a pressão que chega de fora do campo

Lionel Messi, atual campeão do mundo com a Argentina e companheiro de Neymar por seis temporadas entre Barcelona e PSG — período em que os dois conquistaram 11 títulos somados —, foi direto ao manifestar seu desejo. "Neymar é um amigo, me encantaria que esteja na Copa e espero que vá. Nos Mundiais, todos querem que estejam os melhores, e Ney, esteja como estiver, sempre será um desses", disse o argentino em entrevista ao programa de Pollo Álvarez. A ressalva de Messi é reveladora: ele admitiu não conseguir ser objetivo, porque para ele Neymar "tem que estar presente sempre".

Romário, artilheiro da Copa de 1994 com cinco gols e eleito melhor jogador daquele Mundial, foi mais pragmático ao Esporte Record. "O Neymar tem que ir para a Copa! Ele faz diferença, é respeitado e vai ajudar o Brasil. Não sei se a presença do Neymar pode atrapalhar alguns moleques, que podem achar que deixarão de ser o primeiro ou segundo. Essas vaidades babacas que existem no futebol", disparou o Baixinho. O mesmo Romário, porém, retirou o favoritismo da Seleção, colocando o Brasil atrás de Argentina, França, Portugal, Espanha e Alemanha — e afirmou que nenhum brasileiro, nem Neymar, seria o melhor da Copa.

Messi, Romário e a pressão que chega de fora do campo Neymar merece uma vaga na
Messi, Romário e a pressão que chega de fora do campo Neymar merece uma vaga na

No SportNavo, o levantamento comparativo das campanhas brasileiras em Copas desde 1994 mostra que o Brasil chegou à semifinal em quatro das oito edições disputadas nesse período (1994, 1998, 2002 e 2014), sempre com um camisa 10 de referência consolidado — Romário, Ronaldo, Ronaldinho e o próprio Neymar. A ausência de um nome de peso nessa posição, nas edições de 2006, 2010, 2018 e 2022, coincide com quedas nas quartas de final ou antes.

Endrick teme lesão e Tite abre a ferida dos pênaltis do Catar

Endrick, 19 anos, vive grande fase no Lyon na temporada 2025/2026, mas carrega uma cicatriz recente: ficou mais de cinco meses fora de ação em 2025 por conta de lesão grave. Em entrevista à PLACAR de maio, o atacante foi transparente sobre o medo que ainda o acompanha. "Tenho [medo de perder a Copa], sempre tem. Infelizmente, tem a questão das lesões e esse é o maior medo que eu tenho. Tanto que, infelizmente, aconteceu com o Rodrygo", disse Endrick, que viu o companheiro de Real Madrid ser cortado da lista de Ancelotti por problema físico.

A declaração de Endrick sobre Neymar é estratégica: ele elogiou o veterano, mas deixou claro que quem decide a convocação é Carlo Ancelotti — recusando-se a entrar no campo minado da disputa por vagas. Já Tite, em entrevista ao canal ge, reabriu uma ferida de 2022 que nunca cicatrizou completamente. O ex-técnico admitiu ter errado ao escalar Neymar como quinto cobrador na disputa de pênaltis contra a Croácia nas quartas de final do Catar: "Todas as críticas feitas a mim pelo Neymar não ter batido o primeiro pênalti estão corretas. Eu errei. Isso asseguraria a vitória? Não sei. Mas ele deveria ter sido o primeiro batedor". A confissão é relevante porque reforça o argumento de que Neymar, quando disponível e em ritmo, é insubstituível na hierarquia da Seleção.

A Copa do Mundo 2026 começa em junho. Neymar completará 34 anos em fevereiro de 2026. Carlo Ancelotti ainda não o convocou sequer uma vez desde que assumiu o comando da Seleção. O número que resume a urgência do debate é 24 — os anos que o Brasil espera pelo hexacampeonato.