É um motor turbo que perdeu pressão no momento errado. Só no parágrafo seguinte fica claro o que isso significa: Neymar passou anos sendo o componente de maior potencial do futebol brasileiro — gerador de receita, de patrocínios, de audiência global —, mas as lesões sucessivas e a troca de Al Hilal pelo Santos drenaram exatamente o combustível que mantinha aquele motor girando. O resultado apareceu no ranking Forbes 2025 com uma ausência que pesa mais do que qualquer número: o Brasil, que há um ano tinha dois jogadores entre os dez mais bem pagos do mundo, hoje tem apenas um.

Como o Brasil chegou a ter dois nomes no topo e perdeu um em doze meses

No ranking Forbes de 2024, a presença brasileira era dupla: Neymar figurava na terceira posição e Vinícius Júnior aparecia em sétimo. A lógica financeira era simples — Neymar ainda cumpria contrato com o Al Hilal, clube saudita que pagava cifras astronômicas para manter o atacante na Saudi Pro League, e Vini Jr. consolidava seu valor no Real Madrid com atuações decisivas na Champions League. A combinação de salário elevado e marcas patrocinadoras era o que os analistas de mercado esportivo chamam de brand equity ativo: quanto mais visível em campo, mais valioso fora dele.

O problema técnico de Neymar, nesse contexto, funciona como o conceito de degradação térmica nos pneus de Fórmula 1: quando um pneu superaquece, ele não apenas perde rendimento — ele destrói a camada de borracha que garantia o contato com o asfalto. Com Neymar, cada lesão não apenas tirou meses de competição; corroeu a confiança dos patrocinadores e reduziu o volume de aparições publicitárias. Segundo o levantamento Forbes, os ganhos fora de campo do atacante — que incluem contratos com marcas, direitos de imagem e empreendimentos comerciais — encolheram junto com sua presença nos gramados. O retorno ao Santos, clube que o revelou, encerrou formalmente o vínculo saudita e, com ele, um salário estimado em mais de US$ 80 milhões anuais.

Cristiano Ronaldo e a geometria financeira que o Brasil não consegue mais copiar

Cristiano Ronaldo, pelo terceiro ano consecutivo, lidera o ranking com US$ 280 milhões previstos para 2025. Desse total, US$ 230 milhões vêm do contrato com o Al-Nassr — o salário puro, o equivalente ao downforce de um carro de Fórmula 1: a força que mantém tudo colado ao chão independente da velocidade. Os outros US$ 50 milhões chegam de fora do campo, via patrocínios e negócios próprios. Aos 40 anos, o português demonstra que longevidade atlética e construção de marca podem coexistir sem colapso — algo que a gestão de carreira de Neymar não conseguiu replicar.

Lionel Messi ocupa o segundo lugar com US$ 130 milhões, sendo que US$ 70 milhões desse valor têm origem em contratos fora de campo — número maior do que seus ganhos dentro das quatro linhas pelo Inter Miami na MLS. Karim Benzema, terceiro colocado com US$ 104 milhões, inverte essa proporção: US$ 100 milhões vêm do Al-Ittihad, e apenas US$ 4 milhões de patrocínios. O padrão árabe de remuneração, que privilegia o salário bruto em detrimento da construção de imagem, fica evidente quando se compara os três primeiros do ranking.

Aqui entra uma métrica que o SportNavo utilizou para aprofundar a análise: o chamado Win Shares por dólar investido — indicador adaptado do basquete que mede a contribuição vitoriosa de um atleta proporcional ao seu custo. Para o leigo: é como calcular quantas vitórias cada milhão de dólares gasto em salário efetivamente produz. No caso saudita, esse número é secundário porque os clubes da Saudi Pro League não competem por títulos globais — o investimento é de visibilidade regional e turismo esportivo. Isso explica por que Ronaldo e Benzema recebem fortunas sem a pressão de Champions League, enquanto Vini Jr. precisa justificar cada centavo com desempenho em campo.

Vini Jr. sozinho e o que muda no mapa financeiro do futebol brasileiro

Vinícius Júnior, 25 anos, subiu uma posição no ranking e aparece agora como o único representante brasileiro entre os dez mais bem pagos do mundo em 2025. A projeção Forbes indica US$ 60 milhões para o ano: US$ 40 milhões de salário pelo Real Madrid e US$ 20 milhões de contratos com marcas como Nike e outros parceiros comerciais. A proporção 67%-33% entre ganhos dentro e fora de campo mostra que o atacante ainda tem espaço considerável para expandir sua presença publicitária — especialmente se a Copa do Mundo de 2026 confirmar sua centralidade na Seleção Brasileira.

A ausência de Neymar expõe uma vulnerabilidade estrutural do futebol brasileiro no mercado global de brand sports. Durante anos, o Brasil operou com dois centros de gravidade financeira simultâneos — Neymar gerando receita a partir do PSG e depois da Arábia Saudita, Vini Jr. construindo seu nome no Real Madrid. Agora, com um único representante no ranking, qualquer instabilidade na carreira do atacante carioca seria suficiente para zerar a presença verde-amarela entre os mais bem pagos do planeta.

A equação para Neymar no Santos é matematicamente desfavorável no curto prazo. O Campeonato Brasileiro não gera a exposição global necessária para sustentar contratos de patrocínio no nível que o atacante mantinha na Europa e na Arábia Saudita. Os US$ 20 milhões fora de campo que Vini Jr. acumula em Madrid resultam de anos de desempenho consistente na maior janela de visibilidade do futebol mundial — a Champions League. Neymar, aos 33 anos, teria de reconquistar esse tipo de palco para reverter a curva descendente no ranking.

O retorno ao Brasil pode ser lido como reinício emocional, mas os dados financeiros apontam para uma realidade mais dura: sem uma competição de visibilidade continental e sem performances regulares — algo que as lesões tornaram imprevisível —, a distância entre Neymar e o top 10 tende a crescer. Está no Santos — falta o palco que reconstruiria o número.