Todo mundo sabe que o Boca Juniors chega a esta terça-feira (19) com dez dias de inatividade nas pernas. O que ninguém consegue calibrar com precisão é se esse intervalo funciona como recarga ou como ruptura de ritmo — e é exatamente essa dúvida que torna o duelo contra o Cruzeiro pela quinta rodada da Libertadores tão difícil de prever.
A eliminação no Apertura e o vácuo que ficou no Boca
A última vez que o time de Claudio Ubeda entrou em campo foi na derrota para o Huracán nas oitavas de final do Torneo Apertura do Campeonato Argentino — uma partida que, segundo o jornalista Tato Aguilera, da TyC Sports, foi "incrível" e deixou marcas no vestiário xeneize.
"A equipe foi eliminada pelo Huracán nas oitavas de final. Perderam uma partida incrível. O jogo de amanhã é chave para o Boca Juniors", disse Aguilera ao Lance!.Sair precocemente do torneio doméstico tem um custo psicológico que os europeus conhecem bem: quando o Atlético de Madrid foi eliminado prematuramente da Copa del Rey em temporadas recentes, Simeone precisou de semanas para reajustar o estado mental do grupo antes de retornar à Liga. O descanso físico, nesse contexto, não apaga a ressaca competitiva.
A situação se complica ainda mais no setor ofensivo. Adam Bareiro, centroavante titular, sofreu lesão muscular no adutor da coxa direita e está fora do confronto. Ubeda estuda duas opções para o lugar: Milton Giménez, que carrega um problema no tornozelo e vive momento irregular, ou Ángel Romero — o ex-Corinthians que chegou à Bombonera cercado de expectativas, mas ainda não se firmou no clube.
Ángel Romero, a aposta improvável que pode definir a noite
Romero é uma figura que o futebol sul-americano conhece bem — talentoso, mas de rendimento oscilante, do tipo que os ingleses chamariam de inconsistent performer. No duelo contra o Huracán, o atacante sofreu um pênalti e marcou seu primeiro gol com a camisa do Boca, o que trouxe algum alento. Mas jogar como titular numa partida decisiva de Libertadores, sem ritmo acumulado e como substituto de emergência, é uma aposta arriscada mesmo para alguém com o currículo do paraguaio.
A desconfiança entre os torcedores argentinos em relação a uma escalação do ex-corintiano é real e, de certa forma, compreensível. Num clube de cultura tão exigente quanto o Boca — onde a pressão das galerias da Bombonera funciona como um pressing permanente, mesmo antes do apito inicial —, colocar um jogador ainda em adaptação no papel de referência ofensiva é apostar alto. Para Ubeda, a escolha entre Giménez e Romero pode ser o fator que define o resultado.
O Cruzeiro chega como quem nunca parou de correr
Do outro lado da equação está um Cruzeiro que vive uma maratona de jogos, com a fadiga muscular típica de quem acumula compromissos sem janela de respiro. Na Europa, clubes que passam por calendários assim costumam usar a teoria do gegenpressing de forma seletiva — preservam energia nos momentos de posse e ativam a intensidade em blocos específicos da partida. A questão é se a comissão técnica da Raposa chegou ao mesmo diagnóstico.
Aguilera, da TyC Sports, ressaltou ainda que, apesar do clima hostil nas redes sociais argentinas em relação a Matheus Pereira, o camisa 10 do Cruzeiro sequer é pauta dentro do clube ou na imprensa local portenha — o que sugere que o Boca está focado em suas próprias variáveis, não em demonizar o adversário. Esse tipo de focus interno pode ser sinal de maturidade ou de isolamento tático, dependendo do que Ubeda montou nos últimos dez dias de trabalho sem jogo.
A partida desta terça-feira tem peso direto na classificação de ambos para as oitavas de final. Uma derrota do Boca, somada ao jejum doméstico e à saída prematura do Apertura, colocaria o clube numa situação delicada no grupo — e o Cruzeiro, mesmo com as pernas pesadas, enxerga nesse cenário uma janela real de ascensão na tabela. O jogo está marcado para a Bombonera, com início previsto para as 21h30 (horário de Brasília).












