Não, o Chelsea não está passando por uma crise de resultados. O que acontece com o clube de West London neste começo de maio de 2026 é algo mais fundo, mais silencioso e mais difícil de consertar: uma paralisia coletiva diante do gol que remonta a uma época em que o Titanic ainda navegava. Cinco partidas consecutivas na Premier League sem marcar um único gol — marca que os Blues não repetiam desde 1912. Enquanto o mundo virava de cabeça para baixo naquele ano, o Chelsea também virava. Agora, 114 anos depois, o clube enfrenta o Nottingham Forest no Stamford Bridge nesta segunda-feira, 4 de maio, pela 35ª rodada do campeonato inglês 2025/26, com a sensação de que algo precisa quebrar — e rápido.

O diagnóstico do momento

A nona posição na Premier League com 48 pontos em 34 partidas — 13 vitórias, nove empates e 12 derrotas — não conta a história completa do colapso. Contar só os números é como descrever um incêndio pelo cheiro de fumaça. O Chelsea de abril de 2026 foi destruído em campo de formas diferentes, mas com o mesmo resultado: zero gols. A derrota de 0 a 3 para o Manchester City no dia 12, com gols de Nico O'Reilly, Marc Guéhi e Jérémy Doku — que arrancou a bola de Moisés Caicedo para definir o placar —, abriu a sangria. Veio o 0 a 1 para o Manchester United no dia 18. E então o 0 a 3 para o Brighton no dia 21, quando o Chelsea não registrou uma única finalização no alvo em toda a partida. O Stamford Bridge não viu os Blues vencerem uma partida de campeonato desde 31 de janeiro.

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A análise do SportNavo mostra que a sequência não pode ser explicada apenas pela ausência de Cole Palmer, João Pedro e Estêvão, os três lesionados para o jogo no Amex Stadium. A capitulação contra o Brighton foi coletiva: linha defensiva sem saída de bola, meio-campo sem progressão, ataque sem referência. Um time que parecia ter esquecido como jogar futebol dentro de um campo.

Os fatores que explicam o quadro

Três técnicos em uma temporada. Esse número, sozinho, já deveria encerrar qualquer debate sobre a raiz da crise. Enzo Maresca deixou o cargo em 1º de janeiro de 2026 após desentendimentos com a diretoria — e o timing não poderia ser pior, já que havia conduzido o clube à quarta posição na liga antes do Natal, além de conquistar a Conference League e o Mundial de Clubes. Liam Rosenior chegou com energia e discurso renovador, mas durou menos de quatro meses: foi demitido em 22 de abril após a sequência devastadora. Calum McFarlane assumiu o cargo em caráter interino, sem histórico de comando em alto nível na Premier League, segurando uma boia num naufrágio.

"A temporada começou com ambições de Champions League. Agora estamos tentando apenas encerrar uma sequência que não víamos desde o início do século passado." — síntese do sentimento geral no vestiário, segundo relatos da imprensa inglesa após a demissão de Rosenior.

A instabilidade técnica criou um ambiente onde nenhuma ideia de jogo teve tempo de se enraizar. Cada treinador trouxe uma proposta diferente, e o elenco — jovem, caro e tecnicamente dotado — ficou à deriva entre sistemas, funções e expectativas contraditórias. Enzo Fernández, que abriu o placar na vitória por 1 a 0 sobre o Leeds na semifinal da FA Cup em Wembley no dia 26 de abril, é hoje um dos poucos pontos de equilíbrio emocional do grupo. Mas um volante não faz sozinho o que um clube inteiro deixou de fazer.

Os cenários possíveis daqui

A partida desta segunda-feira contra o Nottingham Forest carrega um peso duplo. O Forest chega ao Stamford Bridge como o segundo time de melhor desempenho da liga nos últimos cinco jogos — 11 pontos conquistados —, mas com a cabeça dividida entre a Premier League e a segunda mão da semifinal da Liga Europa, marcada para quinta-feira no Villa Park. Sete pontos separam o Chelsea do Forest na tabela, e qualquer tropeço aprofunda ainda mais a distância do clube em relação ao seu potencial de temporada.

"Temos uma final de FA Cup para disputar. Isso não pode servir de desculpa para o que está acontecendo na liga, mas precisa ser encarado como prova de que este grupo ainda tem capacidade de reagir." — McFarlane, em entrevista coletiva após a vitória sobre o Leeds, segundo a imprensa inglesa.

A FA Cup oferece o único horizonte luminoso num calendário que virou cinza. A final está marcada para 16 de maio, no Wembley, contra o Manchester City — o mesmo adversário que inaugurou o jejum de gols com aquele 3 a 0 em abril. Há uma simetria amarga nessa coincidência que o futebol adora construir. McFarlane precisará decidir, nos próximos dias, se prioriza o título de copa ou tenta salvar ao menos a dignidade de uma liga que começou com promessa de Champions e pode terminar sem ela.

O que o Chelsea faz nesta segunda-feira contra o Forest dirá muito sobre o que restou de identidade neste grupo. Uma vitória não resolve a temporada, mas interrompe uma sequência que envergonha a história do clube. Uma derrota, com mais um jogo sem gols, tornaria a situação praticamente irreversível na liga — e colocaria pressão imensa sobre a final de 16 de maio como única tábua de salvação de um ano que começou com um Mundial de Clubes nas mãos e pode terminar com o clube fora da Europa pela primeira vez em anos. Em 16 de maio, no Wembley, saberemos o que sobrou.