A última vez que um surto de Ebola forçou o mundo do esporte a revirar seus protocolos foi em 2014, quando a Copa Africana de Nações foi transferida do Marrocos para a Guiné Equatorial porque Rabat se recusou a sediar o torneio com a epidemia de vírus Zaire matando milhares na África Ocidental. Doze anos depois, a OMS declarou, na noite de sábado, 16 de maio de 2026, uma nova emergência de saúde pública de importância internacional — desta vez pela cepa Bundibugyo, que circula na província de Ituri, na República Democrática do Congo, e já atravessou a fronteira para Uganda, com casos confirmados em Kampala. O relógio do futebol, porém, não parou: a Copa do Mundo começa em menos de quatro semanas.

O vírus Bundibugyo e o vazio científico que assusta a OMS

Dos seis tipos conhecidos de vírus associados ao Ebola, apenas três protagonizam grandes surtos: o Zaire, o Sudão e o Bundibugyo. O atual é causado pelo terceiro — e é exatamente aí que mora o problema mais grave para qualquer resposta rápida. As vacinas e tratamentos desenvolvidos ao longo da última década, incluindo o imunizante que funcionou com eficácia no surto de Zaire entre 2018 e 2020 no Congo, são ineficazes contra a cepa Bundibugyo. A OMS e o CDC África confirmaram: não há vacina nem tratamento específico aprovado para esta variante até hoje.

Os números levantados até 16 de maio indicam oito casos confirmados em laboratório na RDC, 246 casos suspeitos e pelo menos 80 mortes na região de Ituri — uma área de acesso difícil por questões de segurança, com intensa circulação de pessoas e grupos armados que complicam a testagem e o rastreamento de contatos. Em Uganda, dois casos confirmados surgiram em Kampala sem nenhuma ligação aparente entre si, ambos com histórico de viagem à RDC, o que já configura disseminação internacional segundo os critérios do Regulamento Sanitário Internacional de 2005.

"O evento é extraordinário, já apresenta evidência de disseminação internacional e demanda coordenação para ampliar vigilância, rastrear contatos e reforçar a prevenção em serviços de saúde", afirmou a OMS em comunicado oficial divulgado após a declaração de emergência.

O CDC África convocou reunião urgente de coordenação de alto nível com representantes da OMS e dos centros de controle de doenças dos EUA, China e Europa — sinal de que a preocupação com mobilidade transfronteiriça já está na mesa de trabalho dos governos que sediarão a Copa.

EUA, Canadá e México na linha de frente de um torneio com 48 seleções

A Copa do Mundo de 2026 será a maior da história em número de seleções participantes: 48 times, espalhados por 16 cidades-sede distribuídas entre Estados Unidos, Canadá e México. Só a fase de grupos já movimentará um volume de viagens internacionais que rivaliza, em escala, com o fluxo de passageiros de um aeroporto como o de Guarulhos durante o Carnaval de São Paulo — multiplicado por semanas. Delegações, jornalistas, torcedores e staff técnico chegarão de todos os continentes, incluindo nações africanas cujas rotas de conexão passam por hubs próximos à região afetada.

A OMS deixou claro no comunicado de emergência que não recomenda fechamento de fronteiras nem restrições de viagem, mas exige ativação dos mecanismos nacionais de gestão de emergência e centros de operações específicos. Para os países-sede, isso significa triagem reforçada em pontos de entrada, rastreamento de contatos de viajantes provenientes da RDC e Uganda, e protocolos de isolamento para casos suspeitos — tudo isso enquanto gerenciam o maior evento esportivo do planeta.

"Requer-se coordenação e cooperação em nível internacional para compreender o alcance do surto, coordenar as medidas de vigilância, prevenção e resposta, ampliar e reforçar as operações e garantir a capacidade para aplicar medidas de controle", detalhou a OMS na declaração formal de emergência.

Segundo apuração do SportNavo, a FIFA ainda não emitiu comunicado oficial sobre protocolos sanitários específicos relacionados ao surto de Bundibugyo — um silêncio que, no compasso da Lapa de quinta-feira, soa mais alto do que qualquer nota oficial poderia.

Copa do Mundo sob pressão sanitária e o que a história ensina

O histórico de surtos de Ebola na RDC é extenso: o atual é o décimo sétimo registrado no país desde a descoberta do vírus em 1976. O penúltimo ocorreu no final de 2025, na província de Kasai, e foi controlado sem atingir o status de emergência internacional. A diferença desta vez está na combinação de três fatores simultâneos: a cepa sem vacina aprovada, a disseminação já confirmada para um segundo país e a janela temporal que coincide com o maior evento de mobilidade humana do esporte mundial.

A taxa de mortalidade do Ebola, conforme a OMS, pode chegar a 90% em surtos sem resposta médica adequada — embora em cenários com suporte clínico esse número caia consideravelmente. O vírus se transmite por contato direto com fluidos corporais de infectados ou com materiais contaminados, o que o diferencia radicalmente de doenças respiratórias. Essa característica epidemiológica reduz, mas não elimina, o risco de propagação em ambientes de grande aglomeração como estádios e zonas de torcida.

Seleções africanas classificadas para a Copa, como Marrocos, Senegal, Nigéria e Camarões, têm rotas de viagem que passam por hubs continentais. Nenhuma delas está na zona de surto ativo, mas a mobilidade da região de Ituri — área de conflito com grupos armados e fronteiras porosas — torna o rastreamento epidemiológico um exercício de alta complexidade. O CDC África já sinalizou que a intensidade do fluxo populacional na região é um dos principais vetores de risco para disseminação além da África Central.

A próxima reunião formal do Comitê de Emergência da OMS está prevista para avaliar a evolução do surto antes do início da Copa. Até 11 de junho de 2026, data da cerimônia de abertura do torneio no MetLife Stadium, em Nova Jersey, o mundo saberá se o vírus Bundibugyo ficou contido na província de Ituri — ou se cruzou mais fronteiras do que qualquer lateral conseguiria marcar.